Jornalista que sobreviveu a atentado contra Charlie Hebdo revê episódio com melancolia
FOLHAPRESS – Em 7 de janeiro de 2015, o jornalista francês Philippe Lançon estava na Redação do jornal satírico Charlie Hebdo quando dois homens armados com fuzis, pistolas e um lançador de granadas entraram atirando na sala em que ele e seus colegas discutiam os assuntos da semana e faziam piadas.
Uma bala de fuzil estraçalhou a mandíbula de Lançon. Ele caiu no chão ensanguentado e se fingiu de morto enquanto os assassinos percorriam o lugar e atiravam de novo em seus companheiros caídos, um a um. Os dois foram embora em menos de dez minutos, deixando para trás 12 mortos e 11 feridos.
O atentado contra o Charlie Hebdo chocou a França. Nos dias seguintes, novos ataques de grupos islâmicos aterrorizaram Paris. Uma multidão foi às ruas da cidade em defesa da liberdade de expressão e para manifestar solidariedade às vítimas. “Eu sou Charlie”, diziam faixas, cartazes e camisetas.
De certa forma, a reação dos franceses surpreendeu tanto Lançon quanto a brutalidade dos terroristas, como ele observa em “O Retalho”, o melancólico livro de memórias que publicou na França em 2018 e acaba de ser lançado no Brasil. “Não havia muita gente na França para ser Charlie”, diz o jornalista.
Fundado em 1969 e conhecido pelo humor irreverente e corrosivo, o Charlie Hebdo virou alvo da hostilidade de grupos islâmicos em 2006, quando publicou cartuns que retratavam Maomé, considerados blasfemos pelos muçulmanos. Para muitas pessoas, os cartunistas tinham passado dos limites.
Em 2011, quando uma bomba incendiária destruiu a sede da publicação, poucos se incomodaram com o ataque. “A maioria dos jornais, e mesmo algumas figuras ilustres do desenho, não se solidarizou com um semanário satírico que publicava caricaturas em nome da liberdade de expressão”, escreve Lançon.
Intelectuais que gostavam do jornal esquerdista se afastaram nos anos que se seguiram, assim como os leitores. “Essa ausência de solidariedade não foi apenas uma vergonha profissional, moral”, diz Lançon. “Ela contribuiu para, ao isolá-lo e apontar o dedo para ele, fazer do Charlie um alvo dos islamistas”.
A violência do atentado de 2015 provocou reações diferentes, e elas fizeram o jornalista concluir que o tabloide impertinente em que trabalhava ainda ocupava um lugar na sociedade francesa: “Era o ar da farsa e do desrespeito, que deixava as pessoas num estado de desconfiança e de espírito crítico”.
O livro de Lançon é o primeiro testemunho publicado por um sobrevivente do atentado. Ele oferece uma reconstituição minuciosa do ataque, em que suas lembranças são complementadas por relatos de outros sobreviventes que o ajudaram a preencher lacunas e reexaminar cenas fixadas em sua memória.
Como sugere o título, o assunto principal do livro é o longo processo de reconstrução facial que o jornalista enfrentou, submetendo-se a uma série de cirurgias durante meses de internação hospitalar. Os médicos usaram um pedaço de osso da perna direita e enxertos de pele para refazer o seu rosto. Os autores do atentado contra o Charlie Hebdo, os irmãos Said e Chérif Kouachi, foram encontrados pela polícia e mortos, num tiroteio dois dias depois do ataque ao jornal. Durante todo o período em que ficou internado, Lançon foi protegido por policiais que ficaram 24 horas por dia de guarda no hospital. “Eu não tinha nada a perdoar a homens que estavam mortos e que não tinham pedido perdão a ninguém, mas eu também não os acusava”, diz o jornalista, que rejeita as teses que buscaram explicar, ou até mesmo justificar os assassinos. “Nada pode desculpar a transgressão que vi e sofri.”
“Não tenho raiva alguma dos irmãos K., sei que eles são produtos deste mundo, mas não posso simplesmente explicá-los”, escreve Lançon. “Todo homem que mata é resumido por sua ação e pelos mortos que continuam deitados ao meu redor. Minha experiência, nesse aspecto, ultrapassa minha razão.”
O jornalista descreve o medo que teve quando o mudaram de quarto no hospital e imaginou a facilidade com que outros terroristas poderiam alcançar sua janela para atacá-lo, e relata envergonhado o desconforto que sentiu todas as vezes em que cruzou com funcionários e visitantes árabes nos corredores.
Ele se irrita quando um paciente que apoiara os sérvios como voluntário na Guerra da Bósnia (1992-1995) o procura para atacar os muçulmanos. “Não tolero os discursos antimuçulmanos, nem os pró-muçulmanos. O problema não são os muçulmanos, são os discursos: deixem os muçulmanos em paz!”
Em vez de buscar explicações, Lançon admite seu fracasso ao tentar entender o que aconteceu. Quando um amigo o visita no hospital, e eles iniciam uma discussão sobre a natureza do mal na sociedade contemporânea, ele resume o resultado com ironia: “Dois palermas perdidos no meio do oceano sem remos”.
No fim, o jornalista decide escrever sobre o atentado e sua experiência, numa tentativa de retomar a vida e se reconciliar com o passado, que não parece mais lhe dizer respeito. Ao examinar a resolução, Lançon é impiedoso com ele mesmo, mas parece encontrar um sentido para recomeçar.
“Eu não tinha sido um grande jornalista, sem dúvida por falta de audácia, de tenacidade e de paixão pela notícia, mas talvez estivesse me tornando, ali, uma espécie de livro aberto: aos outros e pelos outros”, escreve. “Eu não tinha nada a recusar e nada a esconder.”
O RETALHO
Avaliação: Bom
Preço: R$ 79,90 (464 págs)
Autor: Philippe Lançon
Editora: Todavia
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