Moradores pedem hospital de campanha na zona leste de São Paulo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A recepcionista Vivian Regina, 39, mora em Cangaíba, no distrito da Penha, na zona leste de São Paulo. Para ela, os hospitais Tatuapé e Tide Setúbal, os mais próximos de casa, ainda estão distantes.
“Quando você vai, estão sempre lotados”, diz. A situação dos últimos meses a tem deixado ainda mais preocupada.
Com a pandemia do coronavírus, Vivian diz que um hospital de campanha na região ajudaria os moradores. A preocupação tem sido comum em distritos da zona leste.
A proposta de um hospital para melhorar o atendimento da Covid-19 tem sido defendida por moradores e entidades civis da região, como o Centro de Estudos Periféricos da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
Por enquanto, as duas unidades entregues pela prefeitura para tratamento de pessoas contaminadas pelo coronavírus são o hospital de campanha do Anhembi, na zona norte, e do Pacaembu, zona central, ambos distantes da zona leste.
Um dos principais argumentos é que a região concentra a maior parcela dos paulistanos. São 3,8 milhões de moradores, 35% da população, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ali também estão bairros onde foram registrados mais vítimas da Covid-19.
A Prefeitura de São Paulo não informa com periodicidade os óbitos nos distritos da cidade. O último boletim, de 30 de abril, mostrava que entre os 10 distritos com mais mortes, 3 eram da zona leste: Sapopemba (2º), com 101, São Mateus (3º), com 72, e Cidade Tiradentes (6º), com 62.
Com aproximadamente 95% dos leitos indisponíveis, o Hospital Municipal de Cidade Tiradentes, o Planalto, em Itaquera, e o Inácio Proença de Gouvêa, na Mooca, estão quase no limite.
Alguns moradores têm relatado lotação nos hospitais Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, e no Prof. Dr. Alípio Corrêa Netto. A prefeitura não informou a ocupação, mas diz que ambos “não registraram um número próximo da lotação (igual ou superior a 96%)”.
Uma das opções na zona leste seria a Arena do Corinthians, em Itaquera, que já foi oferecido pela diretoria do clube. Moradores argumentam que ele seria estratégico para quem vive no extremo leste, em distritos como o Guaianases e Cidade Tiradentes. Também não está longe da Penha, Vila Matilde e Água Rasa.
Moradora da Penha há 23 anos, Maria das Graças Silva Saraiva, 71, diz aprovar a ideia. “Melhor ter mais hospitais para se prevenir.”
Aposentada, Enilsa Luz, 57, moradora da Água Rasa, diz que, com o aumento de casos, é importante construir um local para atendimento mais perto. “Os daqui já estão estão lotados”, pontua.
Professor no campus Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e morador da zona leste, Tiaraju Pablo D’Andrea, 40, é um dos organizadores do movimento que pede à prefeitura um hospital para os distritos.
Ele argumenta que a região periférica da zona leste, assim como todas as periferias de São Paulo, deveriam ter diversos hospitais de campanha.
O professor diz que, no começo de março, quando a sociedade começou a discutir as características da pandemia, uma série de medidas deveriam ter sido tomadas.
“Já naquele momento era absolutamente evidente que seria nas periferias e nas favelas, onde há piores condições sanitárias e de saúde, que o vírus se propagaria com facilidade”. Para ele, o prefeito Bruno Covas (PSDB) tomou medidas muito tímidas e tardiamente.
Tiaraju comenta a importância do hospital e de que outros espaços, como escolas, universidade, centros esportivos, estádios e terrenos sejam preparados e equipados para poder receber os enfermos.
Ele diz que há o temor de que as pessoas comecem a morrer em casa devido à impossibilidade de serem atendidas nos hospitais públicos.
Segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina, a cidade de São Paulo tem déficit na cobertura hospitalar. Ao considerar apenas os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da rede pública, há 1,58 leitos para cada 10 mil paulistanos. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda 3 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes.
REATIVAÇÃO DE HOSPITAL
Em Ermelino Matarazzo, a demanda dos moradores é pela reabertura do Hospital e Maternidade Menino Jesus. Localizado no centro do bairro, o equipamento público foi adquirido pelo município há seis anos, por R$ 2,5 milhões, na gestão de Fernando Haddad (PT), para ser transformado em Hospital Dia da rede Hora Certa.
Os moradores dizem que, apesar dos investimentos de cerca de R$ 5 milhões para a reforma e compra de equipamentos, o espaço continua abandonado, inclusive pela zeladoria urbana.
Sob o comando da Frente Democrática Ermelino Matarazzo, foi protocolado um ofício à Secretaria Municipal de Saúde, com cópia para o Ministério Público do Estado de São Paulo no dia 30 de abril.
O documento, assinado pela Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo, Unidos de Filhos do Zaire, Paróquia São Francisco de Assis, Jardim Verônia Esporte Clube e Projeto Varre Vila, entre outros coletivos e entidades da região, solicita apresentação imediata de um plano para a reabertura.
Um dos objetivos da ação é chamar a atenção para a saúde na região, onde o Hospital Dr. Alípio Correia Neto, conhecido como Hospital de Ermelino, chegou ao colapso, com 100% dos leitos das UTIs ocupados.
Questionada, a Secretaria Municipal de Saúde não respondeu se está prevista a inauguração de um hospital de campanha na zona leste.
A pasta se limitou a dizer que entregou 835 novos leitos de UTI dedicados ao atendimento de pacientes com complicações respiratórias decorrentes da Covid-19, e que negociou a locação de leitos privados no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, para atender a demanda do SUS.
Em abril, o secretário municipal da saúde, Edson Aparecido, mencionou planos de fazer o quarto hospital de campanha na zona leste, “caso tenha uma pressão maior do sistema de saúde na região”, afirmou. Além do estádio do Corinthians, o Sesc Itaquera também foi citado.
Sobre o hospital de Ermelino Matarazzo, a secretaria informou que o equipamento foi incluído no Projeto Avança Saúde em 2019, mas não informou a previsão de inauguração.
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