Movimento Black Lives Matter nunca esteve tão alinhado à indústria cultural
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Movimento Black Lives Matter nunca esteve tão alinhado à indústria cultural

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Num curta lançado neste domingo, o cineasta Spike Lee liga os atuais protestos contra o racismo nos Estados Unidos, que tiveram estopim na morte de George Floyd, vítima da brutalidade policial, ao assassinato de Eric Garner em 2014 e o do personagem Radio Raheem em seu clássico “Faça a Coisa Certa”, de 1989.
É a prova de que a indignação que movia Lee há mais de três décadas segue firme e renovada. E, mesmo sendo uma referência, ele não é o único a se valer da arte para expressar revolta com a violência racista.
Desde que o movimento Black Lives Matter ganhou projeção, houve uma imediata disseminação desse tema também no audiovisual. E a frase “I can’t breathe”, ou não consigo respirar, dita por Garner enquanto era sufocado no revoltante episódio que engatilhou manifestações seis anos atrás, tem se espalhado por letras de música no mundo todo.
Os acontecimentos da última semana, aliás, foram reveladores do quanto a luta antirracismo se embrenhou na indústria da cultura pop.
Rádios e gravadoras como Capitol Records e Warner – e até o Spotify – se juntam nesta terça à campanha “The Show Must Be Paused”, ou o show tem de parar, que propõe a interrupção de suas atividades em protesto contra a brutalidade que matou George Floyd.
Gigantes do streaming como Netflix e Amazon e estúdios como Warner e Disney, além dos responsáveis pelo Oscar, deram nos últimos dias declarações públicas de denúncia de racismo e defesa da comunidade negra em meio às manifestações que tomam as ruas.
Neste momento de protesto, o retrato da experiência negra em filmes e versos ganha ainda mais contundência. A professora Izabel Cruz Melo, que pesquisa a história do cinema, afirma que obras que procuram narrar casos de racismo existem desde os primórdios dessa arte, mas com visibilidade menor pelo modo como a indústria se organiza.
A forte retomada do tema do racismo no debate público, no entanto, veio junto com a maior circulação de imagens por câmeras de celular, o que, segundo ela, “multiplicou a possibilidade de pessoas negras filmarem e terem espaço de criação”. “Isso tem impacto sobre narrativas novas da experiência do que é ser negro.”
“Não é uma novidade, na produção dos cineastas negros, falar sobre violência ou abuso”, diz, sublinhando que há hoje preocupação em mostrar que pessoas negras têm uma vida para além da violência. “Talvez a novidade seja a sociedade, de forma geral, se dar conta disso quando essas imagens se tornam mais visíveis, na veiculação massiva do noticiário e da internet.”
Nos últimos anos, nomes que hoje estão no primeiro patamar do cinema americano, como Ava DuVernay, Barry Jenkins e Ryan Coogler, denunciaram em suas obras a brutalidade policial e o encarceramento da população negra.
“Fruitvale Station: A Última Parada”, primeiro longa de Coogler, que dirigiria depois o blockbuster “Pantera Negra”, contava a história real do assassinato do jovem Oscar Grant pelas mãos de policiais. A quase simultaneidade com o escândalo de Garner acabou colando o filme no movimento Black Lives Matter, mas o caso retratado era de 2008 –o que serviu para mostrar, por óbvio, que racismo não era novidade.
Barry Jenkins pegou material mais antigo ainda, um livro de James Baldwin de 1974, para contar em “Se a Rua Beale Falasse” a história de um casal negro que é separado quando o homem é preso por um crime que não cometeu. E mesmo seu filme anterior, o oscarizado “Moonlight”, tinha um ponto-chave da narrativa na detenção do protagonista negro.
A cineasta Ava DuVernay seguiu “Selma”, sua biografia de Martin Luther King, com o documentário “A 13ª Emenda”, sobre o aprisionamento em massa da população negra americana. E, depois, sua série multipremiada “Olhos que Condenam” pautava a história real e simbólica de cinco jovens negros presos ao serem erroneamente apontados como responsáveis pelo estupro de uma mulher branca.
São trabalhos de diretores que se consolidaram discutindo a experiência negra e contando histórias particulares que, pela força da narrativa cinematográfica, mostravam por que cada uma daquelas vidas importava.
Outros trabalhos soam como desdobramentos ainda mais evidentes do tempo de Black Lives Matter. É o caso de “Queen & Slim”, filme de Melina Matsoukas que reinventa a história de “Bonnie & Clyde” a partir de um casal negro que acaba matando um policial depois de uma abordagem violenta e protagoniza uma fuga midiática pelo país.
Izabel Cruz Melo ressalta também filmes brasileiros que se realizaram em meio a esse contexto, como o curta “Sem Asas”, da paulistana Renata Martins, e o documentário “O Caso do Homem Errado”, da gaúcha Camila de Moraes.
Isso para não mencionar as séries, que vão desde “Atlanta” – criada por Donald Glover, mesmo responsável por exprimir, como Childish Gambino, a violência racial como fundamento da cultura americana em “This Is America” – até a releitura de “Watchmen”, que propôs repensar toda a mitologia dos vigilantes mascarados com base na história dos conflitos raciais nos Estados Unidos.
Na quarta temporada de “Orange Is the New Black”, a detenta Poussey é contida por um policial em meio a um protesto pacífico e, imobilizada no chão pelo joelho do guarda, reclama de não conseguir respirar. Não adianta.
A frase “I can’t breathe” repete o que disseram Eric Garner, em 2014, e agora George Floyd, em Minneapolis. E entre a morte de um e de outro, ela ecoou também na música. BaianaSystem, Radiohead e Pussy Riot foram alguns dos artistas que criaram canções refletindo a violência cometida pelo Estado contra a população negra nas Américas – mas não só contra negros.
São lembrados nas músicas os favelados, as vítimas de feminicídio, os trabalhadores, os expulsos pelo mercado imobiliário. Falam das estruturas que dão base à ideologia na qual instituições de controle social se apoiam, assegurando a saúde da economia.
Em março, o rapper Dax lançou uma música em que repete diversas vezes que não pode respirar, descrevendo um estado emocional em que chora sem saber o porquê. A ansiedade lhe sopra “não abra a boca” quando ele “tem tanto a dizer”, diz a música, e joga para seus ouvintes a aflição de ver pessoas próximas morrendo muito jovens.
Há quatro anos, o grupo BaianaSystem compôs uma canção chamada “Lucro (Descomprimindo)”, que diz “tire as construções da minha praia/ não consigo respirar/ as meninas de minissaia/ não conseguem respirar”.
Embora Russo Passapusso, vocalista da banda, diga acreditar que a morte de Floyd ressignifique esses versos, expandindo as interpretações possíveis, ele conta que a composição mirava o conflito entre os direitos do cidadão e o espaço urbano.
Mas, segundo ele, esse sentimento de asfixia foi norteado por uma leitura ligada ao antirracismo e à liberdade de gênero quando o grupo sampleou, na canção “Salva”, uma música de Edy Star que diz “quero respirar”.
“I Can’t Breathe” foi a primeira canção em inglês gravada pelas mulheres do grupo russo Pussy Riot. A música foi lançada um ano depois da morte de Eric Garner e ganhou um clipe em que Nadya Tolokonnikova e Masha Alyokhina aparecem numa cova, sufocadas aos poucos. Os versos finais da canção (“alguma justiça talvez seja encontrada/ nas cinzas de sua morte”) são referência direta ao episódio de violência policial.
Não sabemos, para lembrar a pergunta com que Spike Lee abre seu curta, se a história vai parar de se repetir. Mas a cultura sem dúvida se movimenta.

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