Repórter venceu Obdulio pelo cansaço por entrevista sobre Maracanazo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Repórter da revista Placar na década de 1970, José Maria de Aquino recebeu um convite para falar sobre os bastidores de uma entrevista que fizera com Rivellino na época. Seu relato integraria uma edição especial da publicação, lançada em 2005 na comemoração dos 35 anos de Placar.
Mas Aquino, apesar de ter gostado do resultado do papo com Rivellino, disse ao jovem repórter responsável por coletar seu depoimento que se orgulhava ainda mais de uma outra reportagem.
“Eu falei para o colega que, se me perguntassem, eu diria que a matéria mais importante que fiz, a que realmente teve uma boa história para poder consegui-la, foi uma outra. A do Obdulio Varela”, diz José Maria de Aquino, 86, à reportagem.
Em 1972, trabalhando para a revista, o jornalista tinha uma viagem marcada à Argentina para cobrir um duelo do São Paulo contra o Independiente, pela fase final da Copa Libertadores daquele ano. O jogo seria em uma quinta-feira, 4 de maio.
Um dia antes da partida do clube tricolor em Avellaneda, Peñarol e Nacional fariam o clássico uruguaio no Estádio Centenário, também pelo torneio continental.
Aquino pediu ao secretário da Placar que trocasse sua passagem de Buenos Aires para Montevidéu. Além de ver ao vivo um dos principais clássicos da América do Sul, o repórter queria aproveitar para tentar produzir uma reportagem de lá.
“Liguei para o jornal La Mañana e perguntei pelo Franklin Morales, um jornalista uruguaio que virou meu amigo na Copa do Mundo de 1970, mas me disseram que ele não trabalhava à tarde. Então eu disse que estava na cidade e queria conversar com o Obdulio Varela. ‘Você e todos os outros jornalistas brasileiros’, brincou comigo o colega do outro lado da linha”, lembra Aquino.
O companheiro do La Mañana desejou sorte ao brasileiro e deu as coordenadas do Juan Jackson, um clube de bocha que ficava no Parque Maldonado e onde Obdulio, carrasco do Brasil no Maracanazo (e que morreu em 1996, aos 78 anos), passava as noites na companhia de amigos.
José Maria de Aquino foi ao encontro do verdugo brasileiro acompanhado do fotógrafo Fernando Pimentel. Assim que chegou ao clube, viu Obdulio na pista de bocha, jogando, e disse aos amigos dele que gostaria de entrevistá-lo.
“Deram risada e disseram: ‘Ele não fala com ninguém’. E me contaram que teve um jornalista brasileiro que acampou em frente à casa dele e não conseguiu uma entrevista. Ele [Obdulio] olhou para mim, baixou os olhos e voltou a jogar”, diz.
Aquino e Pimentel esperaram por cerca de duas horas do lado de fora da pista, com o fotógrafo insistindo para que fossem embora, até que o repórter da Placar conseguiu enfim algum contato com o uruguaio. “O que você quer?”, perguntou Obdulio Varela, firme e bruto como quando vestia a camisa da Celeste.
O brasileiro explicou que conhecia Zezé Moreira, técnico do Brasil no Mundial de 1954, no que o ex-jogador interrompeu, afirmando que o treinador não sabia de nada, que ele havia trabalhado no Uruguai (na década de 1960) e estragado o futebol do país. Aquino concordou, mesmo que não fosse verdade. Com isso ganhou, de vez, a atenção de Obdulio.
“O que você bebe?”, perguntou o histórico 5 da seleção uruguaia.
E então, às 22h da terça-feira, 2 de maio, Obdulio Varela iniciou sua sequência de copos de whisky (Aquino bebeu cerveja) e passou a responder às perguntas do repórter. Negou, por exemplo, que tenha dado um tapa em Bigode, o lateral esquerdo brasileiro, apontado como um dos culpados pela derrota por ter permitido a Ghiggia que corresse livre na jogada do gol que deu ao Uruguai o título mundial.
“Um homem não bate na cara de outro homem. Imagine se eu faria isso diante de 200 mil pessoas”, disse Obdulio.
O herói uruguaio também reclamou do governo de seu país, que havia lhe prometido um cargo público se ele viajasse para a disputa daquela Copa do Mundo. Na volta, mesmo campeão, demorou mais de um ano para conseguir o emprego.
Já eram duas horas da manhã da quarta-feira, 3 de maio, quando um amigo de Obdulio sugeriu a Aquino que parassem por ali. Afinal, disse esse amigo, o repórter conseguiu o que queria e Obdulio, que a cada copo de whisky passava a reclamar ainda mais dos políticos, era uma figura conhecida e ninguém faria nada a ele. Já o brasileiro poderia não ter a mesma sorte.
O Uruguai enfrentava um período de crise econômica e social, com o governo do presidente Jorge Pacheco Areco endurecendo o discurso contra o comunismo e a perseguição aos guerrilheiros tupamaros. No ano seguinte, em 1973, os militares assumiriam o poder, em uma ditadura que governou o país até 1985.
Aquino entendeu o recado. Cobriu o jogo do São Paulo na quinta-feira (derrota por 2 a 0 em Avellaneda) e escreveu a reportagem quando voltou ao Brasil. Esperava ter várias páginas para poder contar a história, mas ganhou apenas duas. “Faltou sensibilidade ao editor”, opina.
O repórter, que tinha 16 anos quando escutou o jogo entre Brasil e Uruguai no rádio, pediu um autógrafo a Obdulio Varela. Aquino diz que foi a única pessoa do futebol para quem fez esse pedido. A assinatura, feita em um pedaço de papel, se perdeu durante uma mudança de residência.
“Eu até hoje, quando falo sobre isso, fico meio arrepiado. Acho que eu sou o único brasileiro que não estava no Maracanã. Mas eu ouvi o jogo, escutei no rádio, e todo mundo sabia do Maracanazo, aquilo era um trauma para o brasileiro. Aí você vai lá, sabe que ele nunca conversou com ninguém e termina tomando umas com ele”, diz Aquino, que lançará em breve um livro sobre suas memórias como jornalista.
Daquela conversa com o jovem repórter da Placar, em 2005, José Maria de Aquino parece ter conseguido convencê-lo da importância da entrevista de Obdulio. E o repórter, por sua vez, convenceu a Placar. Na edição especial de grandes reportagens da revista, publicada no aniversário de 35 anos da publicação, estão as duas matérias: a de Rivellino e a de Obdulio.
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