'Não Toque em meu Companheiro' resgata história de demitidos de banco
Maria Augusta Ramos admite que nunca fez tão rapidamente um filme. Sete meses – seria um bebê prematuro, mas ela ficou feliz com o resultado. O repórter avaliza. Não Toque em Meu Companheiro é mais um grande documentário da diretora de Justiça, Juízo, Morro dos Prazeres e O Processo. Contactada pela Fenae – Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal -, Maria Augusta descobriu uma história que não conhecia, e que a maioria do público também não conhece. Um momento histórico, épico do sindicalismo brasileiro.
Ops! Do sindicalismo? De que outra era ela está falando? Da era de Fernando Collor de Mello, no século passado. Collor assumiu em 1990 fazendo, em nome de uma pretendida moralidade e reforma administrativa, todo aquele estrago na vida dos brasileiros. Entre muitas outras coisas, demitiu 110 funcionários da Caixa Econômica Federal. O movimento sindical reagiu. Cerca de 30 mil funcionários da Caixa uniram-se em defesa dos colegas. Criaram o movimento Não Toque em Meu Companheiro, exatamente o título do documentário de Maria Augusta que entrou na quarta, 15, nas plataformas de streaming NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. Ela conversou com o Estadão, da Holanda.
Foi lá que cumpriu o isolamento social. Várias atividades já puderam voltar, mas não os cinemas. “Tivemos um lockdown muito severo, e que produziu resultado positivo. Fiquei trancada em casa, acompanhando a distância a evolução da pandemia no Brasil. Virou um filme de terror, escrito por um péssimo roteirista. E o pior é que não se trata de algo isolado. O filme é sobre uma tentativa de desmonte da estrutura econômica e dos bancos públicos sob Collor, com suas políticas neoliberais, e é o que está ocorrendo de novo, de forma até piorada, com (Jair) Bolsonaro e Paulo Guedes.”
Pronto – está dado o tom. O filme começa com imagens de arquivo, que remetem à greve dos bancários que foi o estopim para a demissão dos 110 funcionários da Caixa, há 30 anos. Imagens em preto e branco. Corte para o presente. Reencontram-se, em cores, os companheiros para refletir sobre a experiência. Conversam entre eles. Maria Augusta prescinde das entrevistas com especialistas – exceto uma com Luiz Gonzaga Belluzzo, que contextualiza o Brasil de Collor para se entender o de Bolsonaro. Não Toque em Meu Companheiro é um documentário mais clássico da autora. Seus filmes anteriores são sempre sobre processos que ela procura desvendar, e entender. O funcionamento da Justiça, das Varas de Família. O do Congresso, no impeachment de Dilma Rousseff. Maria Augusta filma pessoas em processos institucionais. Aqui, não é bem o processo, mas a possibilidade de contrapor olhares. O dos demitidos, que foram reintegrados e hoje estão aposentados (não todos) e uma nova geração de funcionários da Caixa que não tem a mesma relação com o sindicato da geração antiga. Em discussão, a reforma da Previdência, aquilo que Maria Augusta chama de “desconstrução das relações de trabalho”.
Dividindo-se entre Holanda e Brasil, ela tem, bem presentes, concepções social-democratas europeias que contrapõe ao “nefasto” neoliberalismo. É uma artista, uma humanista. Disse que se sentiu mais livre aqui do que fazendo seus documentários para TV. Sabe que não é uma anacrônica tentado travar a roda da modernidade. “Existem economistas, e o Belluzzo é um deles, que são críticos desse estado de coisas. O Brasil está na contramão da história. Os mercados mais avançados defendem sustentabilidade, rejeitam desmatamento, agressões ao meio ambiente, desigualdade social, tudo isso de que o Brasil é campeão. Não é possível que as pessoas considerem isso minimamente defensável.”
Em março, Maria Augusta seria homenageada no Festival de Toulouse com uma retrospectiva completa. Fez o filme para terminar a tempo. A pandemia transferiu o evento para outubro, e ela ainda sonha mostrar Não Toque em Meu Companheiro presencialmente, no festival francês. Embora um pouco diferente dos anteriores, o filme tem a pegada, o olhar dela. “A forma é o que quero dizer.” Ética + emoção. “É uma história de afeto, de solidariedade. E isso é muito necessário neste momento”, acrescenta.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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