Sou livre para falar e combater as travas políticas de São Paulo, diz Arthur do Val
Política

Sou livre para falar e combater as travas políticas de São Paulo, diz Arthur do Val

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Arthur do Val, 33, estreou como o segundo deputado estadual mais bem votado da Assembleia Legislativa de São Paulo no ano passado. Depois de ser expulso do DEM por fazer críticas ao governador João Doria (PSDB) e travar sucessivas brigas com os colegas de plenário, o agora pré-candidato do Patriota diz que será um prefeito de São Paulo liberto de amarras do mundo político.
“As coisas que eu acredito para São Paulo muitas vezes têm travas políticas que eu sou livre para falar e para combater”, diz, em entrevista.
Membro do MBL (Movimento Brasil Livre), Arthur, o “Mamãe Falei”, ficou conhecido por seu canal no YouTube no qual exibia provocações e embates com políticos de que discorda, sobretudo da esquerda.
Recentemente, os ataques se voltaram também contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a quem apoiou, mas agora o decepciona.
Entre as principais rixas de Arthur, está a guerra travada com deputados bolsonaristas da Assembleia. Mas a imagem de briguento, consolidada na Casa, não é a que ele busca na pré-campanha. O apelido “Mamãe Falei” ficará fora das urnas desta vez.
“A imagem que quero passar é de coragem para enfrentar coisas que, por décadas em São Paulo, ninguém enfrentou; uma delas é a máfia dos transportes”, afirma. “Antes de aparecer no YouTube, na Assembleia, nas ruas, com esse jeito combativo e mostrando essa coragem, eu tive sucesso na iniciativa privada justamente por ser um excelente administrador.”
Arthur já foi dono de transportadora, construtora, postos de gasolina e estacionamentos, que vendeu ao entrar na política. Uma empresa de reciclagem de aço ainda está com a família, e o deputado administra uma firma de marketing digital.
Ele defende o MBL depois de uma denúncia por lavagem de dinheiro, pretende flexibilizar o plano diretor e o uso de imóveis da cidade, se alinha aos não negacionistas do coronavírus e lamenta São Paulo não ter tido uma quarentena mais restritiva e menos duradoura.

PERGUNTA – O sr. prega austeridade com recursos públicos e não usa verba de gabinete. Vai usar verba do fundo eleitoral na campanha?
ARTHUR DO VAL – Não. Nosso desafio é mostrar para as pessoas que eu sou candidato. Vai ser uma campanha barata financiada com recursos privados de doações.

No fim de 2019, o sr. gravou um vídeo com uma Ferrari, falando que o dinheiro economizado no mandato compraria um carro da marca. A Folha de S.Paulo mostrou que seu partido, o Patriota, gastou R$ 644 mil em cinco carros, incluindo um de R$ 260 mil em 2019. O que acha disso?
AV – Acho um absurdo. Agora, eu preciso de um partido para me candidatar. E o Patriota foi muito parceiro, foi um partido que não me exigiu nada. Das negociações que fizemos com outros partidos, o Patriota foi o mais honesto. A gente não é responsável pelo Patriota nacional e estadual, só pelo municipal, que não vai usar um centavo de dinheiro público.

O sr. gastou mais de R$ 200 mil em processos só neste ano. Como isso é possível?
AV – Tomando processo, mas isso é dinheiro meu. Eu venho da iniciativa privada, eu tenho patrimônio.

Se ganhar a eleição, vai continuar atuando no YouTube, com essas polêmicas que geram esses processos?
AV – Aí vem a diferença de papel de um deputado para o Poder Executivo. O papel de um militante, de um deputado, é jogar um holofote naquilo que ele acredita estar errado. Tem que ser chamativo, midiático.
No Executivo, com a chave do cofre na mão, é diferente: o problema é seu, você tem que resolver. Tem que ser mais conciliador e mais ameno. Meu sucesso na iniciativa privada vem justamente não de sair arrumando briga, mas de resolver problema.

A direita está fragmentada na eleição. O sr., Joice Hasselmann (PSL), Andrea Matarazzo (PSD) e Filipe Sabará (Novo) têm propostas parecidas, não pensaram em se unir?
AV – Não aceito perder posição para essas pessoas sem tentar e sem colocar o que eu acredito. As coisas que eu acredito para São Paulo muitas vezes têm travas políticas que eu sou livre para falar e para combater.
Nós temos uma máfia dos transportes. Será que o Matarazzo teria como bater de frente estando no partido do Kassab? Será que a Joice teria a coragem e o preparo para enfrentar?

Muitos pré-candidatos estão buscando votos de eleitores do Bolsonaro, o sr. vai por esse caminho?
AV – Tem ali os mais oportunistas que, na véspera da eleição, querem parecer algo que não são. Isso fica caricato, fica ridículo. Mas esse não é o caso da maioria dos pré-candidatos. A maior parte das pessoas que votaram no Bolsonaro, e eu sou uma delas, não votou acreditando que ele é um mito; a maioria votou porque acredita em coisas que nem sempre ele apresenta e principalmente pelo medo de o PT voltar.
O voto para uma eleição municipal é mais pragmático e menos ideológico. Eu não preciso abrir mão dos meus princípios para agradar uma parcela específica de um público ideológico.

Pré-candidatos que criticavam Bolsonaro agora se omitem das críticas. O sr. vai continuar criticando?
AV – Quando você é um agente público, é sua obrigação se posicionar em relação a diversas esferas do poder. Agora quando você vai disputar uma eleição para uma prefeitura que depende de orçamento estadual e federal, é prudente que tome para si o debate municipal, não seja tão crítico dos outros governos e das outras esferas.
Meu posicionamento enquanto candidato é uma posição conciliadora tanto com o governo estadual como federal, não é hora de ser novamente anti-um ou anti-outro.

Acha que seus eleitores vão esquecer críticas que o sr. fez a Doria ou a Bolsonaro?
AV – Em nenhum momento quero que as pessoas esqueçam alguma postura que eu tive.

A imagem que o sr. tem é daquela briga no plenário, com deputados do PT, porque o sr. chamou sindicalistas ou funcionários públicos de vagabundos. Que imagem quer construir na campanha?
AV – Tem pessoas que espalham essa mentira de que eu xinguei funcionários públicos. Xinguei pessoas que estavam ali me ameaçando de morte e que deram um tiro no [gabinete do vereador paulistano Fernando] Holiday [também do MBL e do Patriota]. São vagabundos.
A imagem que quero passar é de coragem para enfrentar coisas que, por décadas em São Paulo, ninguém enfrentou; uma delas é a máfia dos transportes. Antes de aparecer no YouTube, na Assembleia, nas ruas, com esse jeito combativo e mostrando essa coragem, eu tive sucesso na iniciativa privada justamente por ser excelente administrador.
Já tive mais de sete CNPJs, todos eles com sucesso, nunca fali uma empresa ou deixei dívidas. As dificuldades que a gente enfrenta na iniciativa privada me forjaram para ser hoje combativo.

O MBL foi alvo de operação de lavagem de dinheiro por causa de dois empresários que têm um fluxo suspeito de verbas. Esse dinheiro termina no MBL?
AV – Não. Isso é nítido para qualquer pessoa que leia a denúncia, que diz que o MBL está lavando R$ 400 milhões por meio de chat de YouTube. Isso é impossível. O MBL abriu as contas pro MP [Ministério Público]. Eu não cuido do MBL, não coordeno nada. Então eu nem sabia, mas o MBL arrecadou, em cinco anos de movimento, via chat, US$ 37 mil [cerca de R$ 203 mil].

O sr. tem a bandeira da transparência e da austeridade. Desde que o MBL surgiu há dúvida sobre seu financiamento. Falta transparência?
AV – Todo mundo sabe de onde vem o dinheiro, de doação.

Mas de quem? Quanto?
AV – De todas as pessoas. Elas podem doar se tornando membros que doam frequentemente. O orçamento do MBL é barato. As pessoas acham que o MBL fatura milhões. Tem mês em que fatura R$ 15 mil. O MBL abriu suas contas, mais transparente do que isso, impossível.

O que teria feito contra a pandemia se fosse prefeito?
AV – A gestão de [Bruno] Covas foi a mais desastrosa possível. Teria que ter feito uma quarentena mais rígida no momento certo. Tivemos uma quarentena longa, branda e desorganizada. As medidas que ele tomou mostram que é uma pessoa despreparada, que viveu a vida inteira numa bolha e não entende a vida real.

O sr. defende privatização e desregulamentação, quais propostas têm em relação a isso?
AV – A privatização é necessária, mas não dá pra dizer que vou privatizar tudo. Eu privatizaria o autódromo de Interlagos, o [parque] Ibirapuera, todas as praças, o Anhembi. Cada um enfrentou uma trava, que não foi política. A Câmara aprovou as privatizações que o Doria quis fazer. Minha intenção é privatizar tudo que foi tentado até hoje, mas de maneira inteligente.
Qualquer candidato que se apresentar com uma grande obra vai estar mentindo, porque não há Orçamento. O que precisa ser feito é o arroz com feijão, que é suficiente pra essa cidade, por meio da iniciativa privada, decolar. São Paulo já tem infraestrutura, mas não é usada por falta de gestão.

O que quer flexibilizar?
AV – Temos que rever o plano diretor e aproveitar o potencial construtivo dos terrenos. Tem que acabar com isso de que, para construir um comércio, tem que ter vaga de carro na frente. Acabar com o limite de altura. E vamos, sem ferir a responsabilidade fiscal, zerar o ITBI [Imposto de Transmissão de Bens Imóveis].

Arthur do Val, 33
Nascido em São Paulo e formado em engenharia química, atuou no comércio e na distribuição de resíduos metálicos e gerenciou outras empresas. Em 2015, abriu o canal “Mamãe Falei” no YouTube -que hoje soma mais de 2,7 milhões de inscritos-, no qual faz provocações à esquerda e prega o liberalismo econômico. É membro do MBL (Movimento Brasil Livre). Em sua primeira participação eleitoral, foi o segundo deputado estadual mais votado de São Paulo em 2018, com 478 mil eleitores. Expulso do DEM, filiou-se ao Patriota.

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