Atletas da NBA boicotam playoffs após violência contra homem negro
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Jogadores da NBA (liga de basquete dos EUA)resolveram boicotar a rodada dos playoffs programada para esta quarta (26), no complexo da Disney, na região metropolitana de Orlando. A decisão foi tomada como manifestação contra mais um ato de violência policial nos Estados Unidos, os tiros dados pelas costas no negro Jacob Blake.
Os atletas do Milwaukee Bucks deram forma ao protesto recusando-se a entrar em quadra para enfrentar o Orlando Magic, no que seria o primeiro dos três jogos do dia.
O elenco do Magic chegou a se dirigir ao ginásio para realizar seu aquecimento, mas deixou o local quando ficou claro que o adversário não apareceria para o confronto.
Em nota, os donos dos Bucks apoiaram a decisão: Apoiamos totalmente nossos jogadores. Apesar de não termos sabido antecipadamente, nós teríamos de todo coração concordado com eles. A única forma de gerar mudança é colocar luz nas injustiças raciais que estão acontecendo.”
Na sequência, representantes das outras equipes que atuariam na rodada decidiram aderir ao boicote. Assim, a NBA anunciou o adiamento de Oklahoma City Thunder x Houston Rockets e Los Angeles Lakers x Portland Trail Blazers. Uma reunião entre dirigentes e jogadores marcada para a noite de quarta definirá os próximos passos que serão tomados.
Disputada em uma “bolha” montada para isolar a NBA dos riscos de contaminação pelo novo coronavírus, a liga norte-americana de basquete foi retomada no mês passado, em meio a protestos ligados à questão racial em todo o país. A associação dos atletas só topou o retorno com a condição de que haveria espaço para essa questão.
As quadras onde estão sendo disputados os jogos estão pintadas com a frase “vidas negras importam”. Essa também é uma das mensagens colocadas nas camisas, no local onde geralmente fica o nome dos atletas. Ficou a critério deles manter a inscrição habitual ou usar o espaço para textos como “igualdade”, “paz” e “reforma educacional”.
Apesar disso, vários jogadores se manifestaram contrários à retomada, justamente por entender que a volta do basquete a uma situação competitiva e a opção de entretenimento oferecida pela NBA desviariam a atenção da luta racial. Quando se deu o caso Jacob Blake, nesta semana, alguns entenderam que continuar jogando tinha perdido o sentido.
“Nós nem deveríamos ter vindo a esta droga de lugar, para ser honesto. Ter vindo para cá tirou o foco de quais são as reais questões”, disse o armador George Hill, 34, dos Bucks, na última segunda (24), revoltado ao descobrir que Blake, 29, havia levado sete tiros nas costas na cidade de Kenosha, no Wisconsin, onde também fica Milwaukee.
“Eu sei que as pessoas se cansam de me ouvir dizer isso, mas nós, como negros nos Estados Unidos, estamos com medo. Homens negros, mulheres negras, crianças negras, estamos aterrorizados”, disse LeBron James, 35, astro do Los Angeles Lakers, que adotou uma mensagem agressiva no Twitter, com palavrões e letras garrafais: “F…-se isso. Exigimos mudança”.
O técnico Doc Rivers, 58, também passou uma mensagem carregada de emoção após a vitória de seu Los Angeles Clippers sobre o Dallas Mavericks, na última terça (25). “Somos nós os que estão sendo mortos. Levamos tiros, e tudo o que você faz é continuar falando sobre medo. É incrível para mim que continuemos amando este país e este país não nos ame de volta”, afirmou.
A NBA tem se colocado do lado dos jogadores nas questões sociais, que ganharam peso com o assassinato de George Floyd, 46, em maio. Vários atletas da liga apareceram em manifestações após a morte do negro, que teve o seu pescoço prensado no chão por um policial branco por cerca de oito minutos.
Os dirigentes da liga foram pegos de surpresa, no entanto, quando tomou forma o boicote às partidas desta quarta. Apesar das declarações de repúdio a mais um ato de violência nos Estados Unidos, o comissário Adam Silver e seus auxiliares não viam risco de os jogos não serem realizados.
A conclusão da NBA tem agora um risco que não se apresentava como o maior na retomada da competição. A grande preocupação era com a eficácia da “bolha”, porém os protocolos rígidos têm funcionado e a testagem diária de todos os que estão no ambiente controlado da Disney tem até agora um total de zero caso de Covid-19.
Fora da “bolha”, porém, os problemas não cessaram. O coronavírus e a violência policial continuam sendo questões graves em várias partes do território norte-americano. Ao menos por um dia, os jogadores de basquete decidiram que ficar de joelhos no momento da execução do hino nacional não era o suficiente.
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