Polêmica sobre presidente corintiano marcou Santos no fim dos anos 1980
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com eleição marcada para dezembro, o Santos tem hoje nove candidatos a presidente, um recorde na história da agremiação. Mas houve um tempo em que ninguém queria o cargo. Foi o que ocorreu em 1987, até que Pelé apareceu com uma sugestão.
“O Pelé lembrou do Manuel dos Santos Sá, mas nos avisou: ele não torce para o Santos”, diz, 33 anos depois, Otávio Adegas, na época presidente do conselho deliberativo.
A passagem do empresário conhecido na Baixada Santista como Maneco das Tintas se tornou uma das maiores polêmicas da história alvinegra. Entre 1987 e 1988, o Santos teve um presidente corintiano?
Nesta quarta (7), às 19h, as duas equipes se enfrentam na Neo Química Arena pelo Campeonato Brasileiro.
Tivemos duas reuniões com ele antes de assumir a presidência, e ele me disse: ‘sou corintiano, mas se você achar que posso ajudar o Santos, eu vou”, completa Adegas.
Manuel dos Santos Sá foi presidente por cerca de 15 meses e acertou as contas na Vila Belmiro. Todos os seus balanços foram aprovados pelo conselho deliberativo, algo que não ocorreu com os últimos três mandatários. José Carlos Peres foi afastado da presidência. Modesto Roma Júnior e Odílio Rodrigues acabaram expulsos do quadro associativo e acionaram a Justiça.
Era época em que o clube tinha sérios problemas de arrecadação e estava no terceiro ano de uma fila de títulos iniciada em 1984 e que acabaria apenas em 2002.
“Ninguém desejava ser presidente. Quem o trouxe para o Santos foi o José Rubens Marino [conselheiro]. Depois ficamos sabendo que ele não era santista. Mas o Rubão [Marino] falou para a gente para deixar isso para lá. Ele [Manuel dos Santos Sá] era gente boa, muito educado e ajudou o Santos”, afirma Guilherme Guarche, historiador e autor de oito livros sobre o clube.
Dono de uma fábrica de tintas em São Paulo, Maneco havia contratado Pelé e Xuxa nos anos 1980 para fazer campanhas publicitárias para a empresa.
“Ele chegou ao Santos por meio das pessoas próximas ao Pelé”, relembra Rubens Marino, que reconhece ter ouvido várias vezes que o presidente santista era corintiano, mas diz não ter certeza disso. “Ele sempre desconversou. Dizia ser juventino. Mas teve um amigo que fez cartão para ele com o escudo do Corinthians. Aquilo se espalhou pela cidade. E começou a discussão de que ele era corintiano.”
O cartão de visitas do presidente do Santos com o distintivo do rival foi a prova que faltava, para parte da torcida, de que o dirigente torcia para aquele que é considerado o maior rival. Mas a situação financeira era tão difícil que não houve protestos nem discursos exaltados no conselho deliberativo.
“A administração dele, em termos financeiros, foi boa. Foi mais administrador do que dirigente de futebol. Cuidou do dinheiro do clube”, lembra o radialista, conselheiro e fundador de torcidas organizadas do clube Paulo Alberto. “Antigamente, o comum era que o presidente de uma equipe como o Santos fosse empresário, porque passava segurança financeira. Poderia ser avalista [de empréstimo], se fosse preciso.”
Manuel dos Santos Sá morreu em 2004, aos 61 anos. Foi substituído na empresa por Amílcar Sá, nas palavras do próprio, o “maior santista da família”.
Questionado sobre as preferências clubísticas do irmão, ele ri, mas diz que Maneco era santista.
“O Manuel não gostava tanto de futebol, mas tinha muitos relacionamentos na Baixada. Eu já ouvi muitas vezes isso, que ele era corintiano. Houve a história de que um pessoal ligado a ele fez um cartão com o distintivo do Corinhthians. Eu não tenho como provar nada [sobre não ser corintiano]. Se eu falar para você que ele era santista fanático, seria mentira. Mas era santista”, afirma.
Para ajudar o Santos, Maneco chegou a emprestar dinheiro ao clube. Montou equipe com o ponta Eder Aleixo, os meias Osvaldo e Mendonça e o centroavante Chicão, que chegaria às semifinais do Paulista de 1987. O elenco foi desfeito durante a temporada por causa da falta de recursos. Ele preferiu negociá-los a atrasar salários.
O presidente renunciou em março de 1988, indignado com a recusa do conselho deliberativo em autorizar as vendas do volante Cesar Sampaio e do meia Marco Antonio Cipó por US$ 1 milhão. Ele considerava o dinheiro fundamental para a saúde financeira da agremiação. Otávio Adegas ocupou o seu lugar de maneira interna até o final daquele ano.
Em 1989, Cipó sairia de graça para o Bahia. Cesar Sampaio foi trocado com o Palmeiras em 1991 pelo meia Ranielli e pelo ponta Serginho Fraldinha, no que é considerada uma das piores negociações da história do Santos.
Quando derrotado na votação, Manuel dos Santos Sá foi embora, atitude mal vista pelos demais conselheiros. No dia seguinte, apresentou uma carta de renúncia.
“Uma das filhas do Manuel foi levada às pressas para o hospital Nove de Julho, em São Paulo, para uma operação de apendicite. Ele pediu licença para sair da reunião. Criou-se o fato de que estava fugindo. Isso não pegou bem, e ainda tinha a história de que ele não era santista…”, relata Rubens Marino.
A versão é contestada por Adegas: “Não se falou nada sobre a filha. Quando o plenário decidiu que estava vetada a venda, ele abandonou a reunião. Saiu, foi embora e não voltou mais”.
CORINTHIANS
Cássio; Fagner, Gil, Danilo Avelar, Lucas Piton; Gabriel, Roni, Luan, Cazares; Jô, Léo Natel. T.: Dyego Coelho
SANTOS
João Paulo; Pará, Luan Peres, Alex (Luiz Felipe), Felipe Jonatan; Diego Pituca, Jobson, Jean Mota; Madson, Kaio Jorge, Lucas Braga. T.: Cuca.
Estádio: Neo Química Arena, em São Paulo
Horário: 19h desta quarta-feira
Juiz: Marcelo de Lima Henrique (RJ)
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