‘Mank’, de David Fincher, chega bem a tempo de ser o filme do ano
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Hollywood Nua e Crua” funcionaria como título abrasileirado do aguardado “Mank”. O filme estreia em 4 de dezembro na Netflix, mas pode ser visto pelos mais afoitos em salas do circuito paulistano.
À primeira vista, o novo longa de David Fincher, depois de um jejum de seis anos, é uma cinebiografia sobre Herman J. Mankiewicz, roteirista da Hollywood clássica e real autor do roteiro de “Cidadão Kane”,
cujos créditos são compartilhados com Orson Welles.
“Mank” seria, como está sendo divulgado, um filme sobre os bastidores da criação do icônico primeiro longa de Welles. Seria, se estivesse nas mãos de um cineasta qualquer. Fincher não é, contudo, um realizador fácil de ser confundido com outros.
Se “Mank” é, sim, uma respeitável homenagem a um dos gênios ocultos da grandeza hollywoodiana nos anos 1930, o filme não é só uma obra “digna”, como “Trumbo”, de 2015.
O álibi de reconstituir a gênese de “Cidadão Kane” funciona mais como isca. Quem quiser conhecer de fato o processo de criação da estreia genial de Welles deve ler “Cidadão Kane –O Making Of”, estudo de Robert L. Carringer.
A proposta de Fincher não é documental nem solicita a facilidade da cartela “baseado em fatos reais”. Fincher é um homem de cinema e, como tal, aborda Mankiewicz como personagem de cinema, ou seja, pelo viés da imaginação.
Os elementos biográficos estão presentes e as rusgas com Welles e John Houseman fazem parte da trama. Mas o brilhante roteiro de Jack Fincher transforma a feitura de “Cidadão Kane” em apêndice da trama e expande o enredo a fim de produzir um retrato da Hollywood no momento em que o historiador Tino Balio chamou de “grand design, ou Hollywood como grande negócio moderno”.
O mais que óbvio retrato disfarçado do magnata da mídia William Randolph Hearst na pele de Charles Foster Kane é a chave que Fincher usa para retomar um dos tópicos essenciais de sua filmografia -as relações de poder como relações de dominação.
A integração de personagens como Louis B. Mayer, poderoso chefão da Metro-Goldwin-Mayer e, sobretudo, de Irving Thalberg, supervisor de produção que, na prática, inventou a rígida hierarquia entre capital e estilo na indústria do cinema, torna ainda mais ricas as camadas simbólicas que o filme acumula.
Aos poderes do cinema (Mayer e Thalberg) e da imprensa (Hearst) se junta o poder no sentido da política, quando a disputa do escritor Upton Sinclair pelo governo da Califórnia em 1934 ganha importante espaço na trama.
Em mais de um sentido, “Mank” retoma e expande as questões que Fincher tratou no genial “A Rede Social”, ou seja, ele quer saber o que ocorre quando o poder limitado de meros homens é expandido pelo
poder infinito das mídias.
O cinema como “grande ilusão” funciona aqui como um molde antigo e em certo sentido ingênuo das formas contemporâneas de produção da imaginação. Mostrar o modo como o cinema produz crenças é a solução astuta e fascinante que Fincher encontra para atualizar sua reflexão a respeito do nosso presente de servidão voluntária.
Esta resenha limitada ao impressionismo serve também para dizer que, ao contrário de “Tenet”, o aguardado filme de Christopher Nolan que nos pareceu ser uma poderosa bomba que não detona, “Mank” não é só um filme nostálgico ou consumido pela contemplação dos superpoderes do cinema. Por estes e outros motivos, “Mank” chega a tempo para ocupar o posto de “filme do ano”.
CINEMA
Mank
Avaliação: muito bom
EUA, 2020. Direção: David Fincher.
Elenco: Gary Oldman, Amanda
Seyfried e Lily Collins. Já em cartaz nos cinemas e, a partir de 4/12, na Netflix
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