Referência no judô, Tenório almeja 7ª medalha paraolímpica aos 50
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Antônio Tenório, 50, tem plena consciência de quem é e do que representa para o esporte paraolímpico no Brasil. Percebe isso não apenas ao ser procurado por atletas mais jovens em busca de conselhos, mas principalmente pelos resultados que tem no judô.
Nenhum paratleta brasileiro fora da natação e do atletismo tem tantas medalhas quanto ele. Desde Atlanta, em 1996, subiu ao pódio em todas as Olimpíadas. Na primeira vez foi ouro, assim como aconteceu em Sydney-2000, Atenas-2004 e Pequim-2008. Em Londres-2012, ficou com o bronze. Nos Jogos do Rio-2016, foi prata.
“Existe um desejo a mais para se superar. Esporte é ter de se reinventar todos os dias. Esporte é superação. É o momento em que a experiência terá de fazer a diferença”, afirma, em referência aos Jogos de Tóquio, adiados para agosto e setembro do próximo ano.
Ele avalia a possibilidade de medalha no Japão como especial por causa da pandemia da Covid-19. As notícias são que atletas mais jovens dos Estados Unidos, de alguns países europeus e da Ásia já voltaram a treinar quase em um ritmo normal. Os brasileiros, não.
Tenório tem feito apenas exercícios físicos e musculação com um preparador pessoal, sob orientação dos técnicos da seleção. “Não tenho treinado nada parecido com judô”, diz.
Além de lamentar a perda de tempo para os Jogos em Tóquio, ele tem um medo maior: o de se lesionar. Em janeiro, a delegação brasileira partirá para um período de treinamentos no Japão e na Alemanha.
“Se a gente errar nesse momento e sofrer uma lesão, não vai ter tempo para se recuperar. Nós já estamos muito atrás em relação a outros países. Além do problema de ficar sem treinar, não sabemos ainda qual será o protocolo [para a competição]”, lamenta.
“Não vai ser algo gradual, em que o nível dos treinos vai aumentando até chegar à Paraolimpíada. Teremos de dar um salto para a competição. Não vou chegar nem a 70% das condições ideais. Objetivo é chegar a 60% sem lesões”, completa.
A constatação do veterano judoca é óbvia para ele. O corpo de um atleta de alto nível não se recupera de lesão antes de um evento desse tamanho de uma hora para outra. Ainda mais o dele, aos 50 anos.
“Ter uma preparação digna, não vou ter, não. Mas paciência. Por isso que se vier uma medalha, não importa qual seja, será muito especial. Vai coroar um ciclo olímpico muito difícil.”
Tenório é um dos raros judocas paraolímpicos que já disputaram torneios para atletas sem deficiência. Ele luta na categoria B1, para quem perdeu totalmente a visão.
Começou a praticar o esporte aos nove anos, em um clube onde seu pai trabalhava como vigilante. Aos 13, em brincadeira com estilingue, uma semente de mamona acertou seu olho esquerdo e o fez perder a visão. Seis anos mais tarde, um descolamento de retina o deixou cego do olho direito.
Na carreira, ele mudou três vezes de categoria. Em Atlanta, estava entre os atletas até 86 kg. A partir de 2000, passou para os 90 kg. Desde 2004, está nos 100 kg.
“Eu não sei a situação que teremos para a Parolimpíada em 2021. Ninguém sabe. Mas é preciso ter muito cuidado, porque entre os paratletas muitos estão no grupo de risco”, alerta.
Se Tenório não vislumbra como serão os Jogos no Japão, sabe muito menos sobre o seu futuro depois disso. Reconhece que o cenário ideal seria se aposentar dos tatames e começar outra carreira como técnico para, anos depois, se tornar dirigente.
Mas ele deixa claro que não vai pedir nada a ninguém. Espera ser convidado para isso. Se acontecer, ótimo. Se não, continuará como judoca para iniciar outro ciclo que poderá levá-lo para a Olimpíada de Paris, em 2024, aos 54 anos.
“É um aprendizado. Eu vou esperar para ver se alguém vai me procurar. Eu tenho certeza de que posso ir até Paris”, completa.
Maior nome da história brasileira no judô paraolímpico, a única certeza dele é de que continuará envolvido com o esporte em que começou há 41 anos.
“Eu não sou o Antônio. No mundo do judô, sou o Tenório. Se alguém me chama de Antônio eu olho para o lado e pergunto: quem é? É muito bom ser reconhecido e que os atletas mais jovens venham me procurar. É ótimo deixar um legado.”
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