Apesar da alta de casos de Covid-19, testagem em SP cai 22% de agosto a outubro
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O número de exames RT-PCR para diagnóstico de Covid-19 caiu 22% no estado de São Paulo entre agosto e outubro, segundo dados do Sistema de Monitoramento Inteligente (Simi-SP).
Na última semana, houve um aumento de 26% de internações em SP por Covid-19, um indicador importante para o aumento da epidemia. A taxa de ocupação de leitos de UTI, que permaneceu por semanas consistentemente abaixo de 43%, atingiu nesta semana 47,4% no estado e 55,2% na Grande São Paulo.
O governo estadual, no entanto, nega que haja uma segunda onda de Covid-19 em São Paulo e disse ainda que o estado é o que mais realiza testes, com uma taxa de 100 exames por 100 mil habitantes.
O número inclui os testes RT-PCR, exames sorológicos e testes rápidos –não há evidência que ampare o uso destes últimos para diagnóstico de Covid-19.
As amostras para os exames RT-PCR são coletadas nos hospitais públicos ou em mutirões de testes e no programa de testagem dos professores e alunos nas escolas estaduais e enviadas para uma das unidades integrantes da Plataforma de Laboratórios para Diagnóstico do Coronavírus, coordenada pelo Instituto Butantan.
O Instituto Butantan continua com processamento aquém do esperado, mesmo cinco meses após a inauguração de um laboratório estratégico: foram processadas, em média, 390 amostras por dia no instituto de julho até o último dia 17. A promessa, ao construir o laboratório, era de que 8.000 amostras fossem analisadas diariamente.
Houve também uma queda nos últimos meses no processamento de amostras enviadas ao Instituto Adolfo Lutz Central, órgão que antes concentrava o processamento dos exames no estado de SP e na capital: entre agosto e outubro, foram 102.766 exames, ante 127.704 de maio a julho, uma redução de 19,5%.
No mesmo período em que foi apontada a queda, o Ministério da Saúde, em parceria com o grupo Dasa, inaugurou, em agosto, um centro de diagnóstico emergencial em Barueri (SP), que tem operado com capacidade média de mil amostras por dia. Em outubro, cerca de 20% do total de exames realizados no estado foram processados pelo Dasa.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, a baixa taxa de testes estaria relacionada a uma desaceleração de casos no estado, puxada pela capital, no início de setembro. Análise de especialistas, entretanto, contesta o argumento e vê a baixa testagem como uma medida negativa na estratégia de contenção.
Lorena Barberia, pesquisadora do departamento de ciência política da USP, realizou, com colegas da USP e Fiocruz, um estudo avaliando os esforços do governo de São Paulo para testagem em massa.
Barberia explica os objetivos da pesquisa e como chegaram a um valor chamado indicador de intensidade de esforço para RT-PCR. “Nós medimos parâmetros internacionais de volume de testes, taxa de positividade e testagem por mil habitantes para avaliar se cada uma das regiões do estado estava alcançando os esforços de testagem.”
De acordo com esse indicador, o estado de SP atingiu o valor máximo (47,06) na 11ª semana epidemiológica, de 8 a 14 de março, e o pior indicador (17,65) na 25ª semana, de 14 a 20 de junho. No entanto, desde a semana epidemiológica de número 20 esse indicador vem caindo em todas as regiões do estado, mantendo-se estável nas últimas semanas.
Caso houvesse uma diminuição nos casos, mas a testagem se mantivesse elevada ou a mesma dos meses anteriores, seria verificada uma diminuição na positividade –testando-se mais indivíduos e com maior número de exames negativos, a positividade seria baixa.
Em SP, até o dia 20 de novembro, foram realizados 1.159.337 exames RT-PCR, com taxa de positividade de 28,8%. A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza uma taxa ideal de 5%.
Como a pesquisa contou com dados até 31 de agosto, o valor de taxa de testes por mil habitantes apontado, de 66,4, era até então considerado alto. No entanto, até o dia 31 de outubro, esse valor caiu para 24,46. Em todo o Brasil, o índice até 31 de outubro apontava para 23,71 testes por mil habitantes.
Também houve queda no número de exames realizados por dia pelo governo federal em setembro e outubro: de 34.443 exames diários, em agosto, passou para 31.492 em setembro e 28.664 em outubro, uma redução de quase 17%.
Um problema reportado frequentemente para se avaliar a relação entre casos suspeitos e número de exames no país é a dificuldade em integrar os diferentes bancos de dados –o de notificação de casos de síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave (e-SUS e Sivep-Gripe), que são feitos nos hospitais, e o de diagnóstico laboratorial (GAL), sistema de gestão laboratorial ligado às secretarias de vigilância epidemiológica do SUS.
Como o GAL é usado por todas as secretarias de vigilância, Barberia ressalta que deveria haver uma maior notificação dos exames realizados.
“É uma ferramenta de vigilância e deveria ser disponibilizada, se não uma análise detalhada de registros, pelo menos uma análise descritiva, como a positividade dos testes e o volume de testes realizados por estado.”
A pesquisadora demonstrou também preocupação com a possibilidade de falta de insumos nos próximos meses. O fechamento das compras no mês de novembro, em meio às eleições, pode levar a uma escassez de testes que vai limitar a capacidade de processamento no início de 2021.
O problema deve ser ainda maior considerando-se os quase 7 milhões de testes RT-PCR guardados em um galpão em Guarulhos (SP), próximos do vencimento (entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021).
No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde até o dia 31 de outubro, foram realizados 5.022.464 testes moleculares, com taxa de positividade de 29,7%.
A Secretaria Estadual de Saúde informou, por meio da porta-voz Regiane de Paula, Coordenadora do Controle de Doenças, que houve alta de 29% de exames RT-PCR no estado de outubro a novembro (dados até 23 de novembro).
A pasta diz que passou a contabilizar, além dos exames moleculares da rede pública, dados da rede privada, sorológicos e rápidos. Informou que, segundo os últimos dados do GAL, a média de exames feitos por dia é de 11 mil.
Em relação à taxa de positividade, De Paula disse que “o sintomático é o foco da testagem no estado, e neste momento é muito complicado fazer o que é preconizado pela OMS porque existem 46 milhões de pessoas no estado” e “mais importante do que testar é seguir as recomendações de distanciamento social, de não aglomeração, de lavagem de mãos, de não realizar festas clandestinas, sendo estas recomendações também preconizadas pela entidade e que nem sempre refletem o que a população vem fazendo”.
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