‘O Livro dos Prazeres’ transforma todos nós em herdeiros de Clarice
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Como fazer da solidão um filme? Uma resposta feliz e impactante à pergunta está em “O Livro dos Prazeres”, longa-metragem de Marcela Lordy, realizado com base no romance “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”.
Lóri, a protagonista criada por Clarice Lispector no livro de 1969, é uma professora primária que vive sozinha. Durante as férias escolares, não vê quase ninguém. Ela conhece Ulisses, um professor de filosofia e, incitada por ele, inicia um processo de descoberta de si e abertura para o mundo. É, ao mesmo tempo, um reconhecimento da dor de existir, de ter nascido, de se saber só.
Em geral, há pouco proveito em julgar um filme baseado numa obra literária com a balança da fidelidade ao original. A palavra “adaptação”, nesse sentido, é traiçoeira, porque induz à percepção, falsa, de uma passagem fluida da literatura para o cinema.
É verdade que, vendo o filme de Lordy, é difícil não pensar em Clarice a cada momento. Tudo se confunde. A memória do livro invade o filme e elementos da biografia da escritora irrompem. Mas há também uma distância bem-vinda do livro, seja em atualizações, em interpretações da obra, seja, mais importante, no uso das potencialidades do cinema.
Lóri é vivida por Simone Spoladore, numa interpretação excepcional. Impossível pensar numa atriz melhor para o papel. Não houve tentativa de transpor o discurso indireto-livre do livro para uma narrativa em off. No lugar disso, é o corpo da atriz, com seus silêncios, olhares e gestos, que tornam palpável a solidão descrita por Clarice.
O longa-metragem se ambienta num Rio de Janeiro do presente. Lóri ouve música no laptop e fala no celular com Ulisses. Interpretado pelo argentino Javier Drolas, o professor, que já era pedante no livro, continua irritante. A diferença, nesse ponto, talvez seja sua autocrítica. Numa conversa, ele se reconhece “portenho machista, pretensioso e egocêntrico”.
A Lóri do filme também tem novidades. A certa altura, diz ao irmão que não tem vontade de falar com o pai desde que ele “votou naquele cara”.
Na narrativa de Lordy, depois da morte da mãe, a protagonista herda seu apartamento de frente para a praia, talvez no Leme. Num dos quartos, encontra uma máquina de datilografar, anotações, cartas. Era uma mulher que escrevia, viajava o mundo e sofria.
Vemos, num caderno da mãe, o retrato de Clarice. Ela lê para os alunos escritos da autora e os incita a nomear sentimentos e sensações. Lóri parece se apresentar, assim, como filha de Clarice, quase uma hipótese de leitura.
É algo libertador quando se trata de Clarice Lispector — não raro, elementos de sua biografia acabam favorecendo leituras que misturam autora e personagem. Ao fazer isso, a realizadora se põe como herdeira da escritora — e a nós, espectadores e espectadoras, também.
Na travessia entre a alma opaca e o corpo a corpo com a vida que o filme retoma do livro, as epifanias visuais têm peso, precisão e importância. Peixes recém-pescados, no balde, de um vermelho muito vivo. O rosto de Glauce Rocha, num monólogo para a câmera de “Terra em Transe”, que Lóri vê no cinema. O tucano que aparece na escola.
Há, ainda, um caminho de crochê, encontrado em meio às coisas da mãe. Lóri o começa a desmanchar, numa encarnação de Penélope, para mais tarde o voltar a tecer.
Ainda que o horizonte do aprendizado de Lóri, na literatura e no cinema, seja a união com Ulisses, o clímax de ambas as obras se dá longe do amor romântico. Três ou quatro páginas no livro, quatro ou cinco minutos no filme – um tempo precioso, da duração de um mergulho no mar.
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