Deputados e senadores já veem brechas para reagir a eventual manobra do STF
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Partidos contrários à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara já questionam a eventual aplicação do voto do ministro Gilmar Mendes (STF) sobre a possibilidade de recondução do deputado ao comando da Casa.
Está em julgamento no Supremo se Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), podem disputar um novo mandato no comando no Congresso.
A Constituição proíbe os chefes das Casas de tentarem a recondução no posto dentro da mesma legislatura –a atual começou em fevereiro de 2019 e vai até fevereiro de 2023.
Apesar da proibição, a postura de Maia e Alcolumbre nos enfrentamentos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com o Supremo, mudanças constitucionais recentes e articulações políticas nos bastidores têm alimentado a esperança de ambos de continuarem à frente do Congresso, com o aval da maioria dos ministros do Supremo.
Ao analisar o caso, Gilmar votou para que seja permitida a possibilidade de reeleição tanto de Maia como a de Alcolumbre. Segundo o ministro, que é o relator do tema, a interpretação da Constituição autoriza a reeleição ou recondução uma única vez.
No voto, Gilmar prevê a regra a partir da próxima legislatura, em 2023. Porém ele libera a reeleição ou recondução para quem já está no comando das Casas atualmente.
Maia já foi reeleito, e esse trecho do voto do ministro do Supremo atende a expectativas dos aliados do atual presidente da Câmara, pois abriria brecha para mais um mandato.
O deputado do DEM está no seu terceiro mandato consecutivo à frente da Câmara. Maia assumiu a cadeira pela primeira vez em setembro de 2016, em um mandado tampão, após a renúncia do mandato do ex-presidente da Casa Eduardo Cunha (MDB-RJ), e não largou mais.
Depois disso, na mesma legislatura, conseguiu parecer técnico favorável a que participasse de nova disputa, em 2017. No início de 2019, em uma nova legislatura, o que é permitido pela Constituição, disputou novamente e venceu.
Para PP, Rede e Podemos, Gilmar já apresentou modulação da decisão, caso a maioria da corte concorde com ele. Para evitar insegurança jurídica, a modulação é um instrumento para que o Supremo defina quando a decisão terá efeito.
De acordo com as regras do tribunal, dois terços dos 11 ministros -8 votos- precisam se manifestar no mesmo sentido para modular os efeitos de uma decisão. Esse número, contudo, não deve ser atingido.
“O julgamento começou na sexta-feira (4) e ocorre no chamado plenário virtual, com votos por escrito. Os ministros tem até o próximo dia 14, uma segunda-feira, para publicar seus votos.
Até este domingo (6), o placar era de quatro votos a favor e três contrários ao relatório de Gilmar. Na íntegra, ele foi acompanhado por Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Kassio Nunes defendeu a possibilidade de recondução só de Alcolumbre. A situação, então, é mais confortável, até aqui, para o senador. Ele tem o apoio de cinco ministros para uma eventual reeleição.
Faltam ainda votar Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e o presidente do STF, Luiz Fux.Marco Aurélio Mello, Cármen Lúcia e Rosa Weber já se manifestaram contra a possibilidade de reeleição no Congresso.
O relatório de Gilmar, portanto, não deve ter apoio de oito ministros.
“Permitir que um mesmo integrante da Mesa, precisamente porque já reeleito, possa disputar sua terceira eleição consecutiva, geraria o aprofundamento de uma situação de inconstitucionalidade sem qualquer interesse público relevante que, em sede de ponderação de valores, a justifique ou legitime”, argumentam os três partidos em documento enviado ao STF.
O líder do PP na Câmara, Arthur Lira (AL), tem se apresentado, nos bastidores, como o candidato à presidência da Casa. Ele conta com o apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O partido de Lira tem atuado para evitar que o Supremo libere Maia a concorrer mais uma vez.
Na manifestação enviada ao STF, os três partidos pedem que seja declarada inconstitucional a reeleição nas duas Casas. Caso vença o voto de Gilmar, defendem o início dos efeitos do voto a partir de 2021, sem a possibilidade de nova candidatura de quem já foi reeleito -no caso, de Maia.
Na Casa vizinha, senadores adversários do presidente do Senado também consideram que há brechas para judicializar a questão da reeleição.
Alessandro Vieira (Cidadania-SE) já havia informado a Alcolumbre que se articularia pela rejeição à medida. Prometera buscar mecanismo jurídico para tentar reverter uma recondução feita com base em mudanças no regimento.
Mesmo após o avanço dos votos no STF, indicando que a permissão pela reeleição viria por uma decisão colegiada, Vieira disse acreditar que será possível questioná-la. Segundo ele, Alcolumbre, desde então, não atende suas chamadas e passou a não pautar seus projetos.
“É preciso ver como será o voto vencedor. Caso aponte para a possibilidade de mudança da regra via alteração regimental ou mesmo resposta à questão de ordem, entendo que em tese será possível reabrir o debate atacando a ‘nova regra’ por meio de mandado de segurança ou outro remédio jurídico. O direito líquido e certo ofendido no caso é o do devido processo legislativo”, afirmou Vieira.
Além da tentativa de reverter a questão, alguns senadores apostam que a manutenção do assunto em evidência, prolongando o debate por meio da judicialização, pode desgastar a imagem de Maia e Alcolumbre.
No Senado, no entanto, a leitura é que Alcolumbre tem uma situação mais confortável do que Maia. Portanto ele teria apoio para uma mudança de regimento sem sofrer grandes desgastes.
Por outro lado, aliados temem que a decisão do STF seja encarada na sociedade como resultado de um “conchavo político”, voltando-se contra os atuais ocupantes das presidências.
Uma eventual pressão popular poderia resultar na perda de apoio de partidos de oposição que vêm se manifestando favoráveis à reeleição de Alcolumbre. Nesse caso, o PT é a legenda mais notória.
Candidato declarado à presidência da Casa, Major Olímpio (PSL-SP) afirmou que os votos até agora no Supremo indicam um “estupro da Constituição”. Segundo ele, o grupo Muda Senado já se mobiliza para judicializar a questão.
Major Olímpio é um dos que esperam que possa se repetir nas eleições de fevereiro o fenômeno parecido com o “Renan, não” de dois anos atrás, em oposição ao senador Renan Calheiros (MDB-AL).
Os votos dos ministros da corte em favor da reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado desagradaram até mesmo congressistas que são a favor da recondução.
A senadora Rose de Freitas (Podemos-ES) é autora da PEC (proposta de emenda Constitucional) que prevê a reeleição no Senado, que já foi subscrita por 27 colegas e está pronta para começar a tramitar na Casa. No entanto, discorda do caminho apresentado nos votos dos ministros do Supremo até o momento.
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