‘Tragam os Corpos’, de Hilary Mantel, mostra o sangue na raiz dos países
(FOLHAPRESS) – A trajetória meteórica de Ana Bolena, a primeira rainha da Inglaterra a ser condenada à morte, costuma ser vista como mero subproduto dos caprichos de seu marido e algoz, o rei Henrique 8º. Nas mãos da escritora britânica Hilary Mantel, porém, a queda da soberana se torna a matéria-prima perfeita para expor o preço de sangue por trás da construção de um Estado.
Com efeito, talvez não seja exagero propor que os professores de história deixem os livros didáticos de lado por um instante e sugiram a seus alunos a leitura de “Tragam os Corpos”.
O romance, segunda parte da trilogia de Mantel sobre a época de Henrique 8º, dramatiza com engenho os embates econômicos, políticos e ideológicos que separam o mundo medieval daquele que foi criado — a ferro e fogo — pelos Estados modernos.
No centro dessas transformações está o mais matreiro e operoso dos ministros do rei inglês. Thomas Cromwell, um plebeu de origem humilde, ex-mercenário e advogado, é o verdadeiro protagonista da série de livros. Embora todos os personagens de Mantel apresentem suas centelhas de complexidade psicológica, é ao que se passa na cabeça de Cromwell que a narrativa oferece acesso privilegiado.
E o que está lá dentro é uma curiosa mistura de sublime e profano, de ação política baseada em princípios relativamente elevados e pura vendeta. Forjado nas vielas da periferia de Londres e nos campos de batalha (e casas bancárias) da Europa, o ministro de Henrique 8º tem uma visão clara sobre os rumos que quer dar a seu país.
Cromwell deseja criar uma Inglaterra mais próspera e menos desigual, mais fiel aos princípios do Evangelho redescobertos pela Reforma Protestante e longe do que ele enxerga como corrupção e ignorância do catolicismo.
Foi isso o que, de início, fez dele um colaborador de Ana Bolena quando a jovem nobre, também inclinada ao protestantismo, conseguiu fazer com que o rei se divorciasse de sua primeira mulher e abandonasse sua lealdade ao papa –por razões políticas, o pontífice não quis conceder o divórcio a Henrique.
Agora, porém, está na hora de pagar as contas. Henrique se cansou do temperamento imperioso de Ana e da falta de um herdeiro do sexo masculino — o único rebento sobrevivente do casal é a futura rainha Elizabeth 1ª, mas o rei ainda sonha com um menino. Ana Bolena, além de ser mestra na arte de fazer inimigos e alienar pessoas, orquestrou a humilhação do antigo patrono e querido amigo de Cromwell, o cardeal Wolsey.
O ministro, portanto, aproveita a oportunidade para se vingar de todos os que humilharam Wolsey, se puseram no caminho das reformas de Cromwell ou simplesmente olharam torto para aquele plebeu visto como arrogante e arrivista.
As cenas que derivam dessa lógica impiedosa são uma mistura de “1984” e “O Poderoso Chefão” — e, ao mesmo tempo, não faz muito sentido pensar em Cromwell como vilão.
O grande paradoxo da narrativa é perceber como a vontade férrea do ministro, para continuar operando, precisa se curvar aos ânimos instáveis e fúteis de Henrique 8º.
Poucos retratos literários mostram de forma tão eficiente o absurdo da monarquia absoluta quanto as conversas entre Cromwell e o rei sobre a paixão de Henrique pelos duelos de cavalaria — já de meia-idade, Sua Majestade deveria desistir da brincadeira, embora resista.
“Mas veja, Crumb”, diz o rei, usando um apelido carinhoso para se dirigir ao ministro, “é difícil desistir de algo em que você vem se aperfeiçoando desde menino”. “Certa vez houve alguns visitantes italianos, e eles nos aplaudiam, a Brandon e a mim, achando que Aquiles e Heitor tinham voltado à vida.” Cromwell logo se pergunta quem é quem nessa história. Afinal, Aquiles mata Heitor na mitologia grega.
Amoral e cheio de princípios ao mesmo tempo, Cromwell mantém uma altivez irônica. “Que tentem derrubá-lo. Vão encontrá-lo encouraçado, vão encontrá-lo entrincheirado, vão encontrá-lo aferrado ao futuro como uma craca.” É o que veremos –resta ainda um terceiro volume.
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