Arnaldo Antunes faz um dos melhores shows da Virada com o pianista Vitor Araújo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com 60 anos recém-completos, Arnaldo Antunes, visitou o Theatro Municipal de São Paulo na tarde deste sábado (13), para seu show durante a Virada Cultural de 2020.
E, para quem associa o nome do cantor à imagem sempre irrequieta e saltitante nos palcos, é importante avisar: com 38 anos de carreira solo, Arnaldo está em nova fase, mais mansa e poética. A apresentação se apoiou inteira na atmosfera intimista que sempre se desenhou no contra plano de seus discos, que se impôs em “Qualquer” (2018) e depois fincou raízes em “O Real Resiste”, álbum lançado em fevereiro deste ano, com dez músicas inéditas.
Arnaldo cantou acompanhado do pianista Vitor Araújo, um jovem compositor e orquestrador pernambucano. Araújo é autor de três discos, o primeiro deles lançado em 2008. Seu trabalho mais recente, “Levaguiã Terê”, foi criado a partir de estudos do Brasil contemporâneo e de polirritmias fruto de religiões de matrizes africanas e indígenas.
Em um roteiro emocionante, a dupla construiu certamente um dos melhores shows da Virada, mostrando que até mesmo o gesto de amar pode ser visto como uma construção política. Arnaldo e o pianista fizeram de sua apresentação uma oração à vida e ao amor, bem como uma ode à poesia em tempos de brutalidade.
Para a abertura, foi escolhido um trecho do poema-música “A Boca Oca”. Seguiu-se, então, à canção “João”, uma parceria com o baiano Cézar Mendes para homenagear o compositor João Gilberto, morto em 2019.
No primeiro terço do show, a mixagem do som ainda apresentava um piano muito alto, sobreposto à voz de Arnaldo, o que dificultou a compreensão das palavras. No entanto, a certa altura, o problema foi solucionado, o que permitiu que o público pudesse acompanhar com mais clareza o conteúdo que se seguiu.
A dupla partiu, assim, para “Saga” e “O Real Resiste”, uma letra que nega tudo que a nova era trouxe de negativo, como, por exemplo, milicianos, terraplanistas, autoritarismo e fanatismo.
Depois de declamar “Bacanas”, Araújo marcou a batida de “O Pulso” no piano, um sucesso da carreira dos Titãs, banda criada por Arnaldo e da qual ele fez parte até 1992. A banda também apareceu na apresentação com “Saia de Mim”, que encerrou o setlist.
Arnaldo agradeceu pela oportunidade de participar de mais uma Virada Cultural, e disse que ainda é possível sentir a vibração da plateia, ainda que à distância e de maneira virtual. Chamou de privilégio a parceria com Araújo, a quem definiu como “um talento absurdo”.
“Meu Coração”, escrita com Edgard Pereira e lançada no disco “Iê Iê Iê” (2009), veio em uma releitura de arranjo que reforçou ainda mais o poder da poesia de sua letra.
“De Outra Galáxia”, do álbum mais recente, falou sobre sentimentos que não serão proibidos, e que se mostram possíveis ainda que em contradições adversas, tudo sempre acompanhado da bela execução do piano de Araújo.
Surfando na mesma temática, o roteiro trouxe “Contato Imediato”, parceria com Carlinhos Brown e Marisa Monte, em que um eu lírico sonhador pede para ser levado aos céus por um disco voador, um balão de São João, ou “uma pipa de papel”.
“Um Deus”, na sequência, homenageia um deus falível, que erra, e que “ovula todo mês”. Mas o momento em que Araújo mais mostrou seu talento foi o bloco que trouxe “Itapuana”, do álbum “Saiba” (2004), e “Termo Morte”, uma letra em que Arnaldo sela um acordo com a morte.
O poema “O que Você mais Teme” antecedeu “Vilarejo”, sucesso na voz de Marisa Monte, e que, por seu lirismo e potência, foi o momento mais alto da apresentação.
“Na Barriga do Vento” veio com letra que remete a “As Árvores” (1998), do álbum “Um Som” – ambas podem ser interpretadas como retratos da relação de pais e filhos, em uma ilustração crua e emocionada.
Para executar “Luar Arder”, Antunes contou com a participação da artista plástica Marcia Xavier, que entrou no palco durante a música e terminou sua performance com um abraço no músico.
“Buraco do Espelho” foi seguido de “Socorro”, uma parceria de Arnaldo com a poetisa Alice Ruiz, viúva de Paulo Leminski, e que, na Virada Cultura, recebeu acordes no melhor estilo George Gershwin.
“Saudade Farta” abriu espaço para “Lua Vermelha”, escrita com Carlinhos Brown, e que surgiu mesclada a “Bandeira Branca”, marchinha de Carnaval imortalizada na voz de Dalva de Oliveira.
De modo geral, o formato da apresentação reforçou a conexão apaixonada de Arnaldo com a estética.
Vencedor de dois prêmios Jabuti, e autor de quase duas dezenas de livros, ele atinge o ponto mais alto da carreira ao conceber um show em que a beleza pode ser acompanhada de maneira mais clara e crua, focando naquela que parece ter sido sempre sua musa inspiradora: a palavra.
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