Falta de público expõe fragilidade do funk
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Entre as 400 atrações gratuitas da 16ª edição da Virada Cultural, que acontecem na cidade de São Paulo de sábado (12) a domingo (13), uma no mínimo foi reveladora: o encontro do DJ carioca Rennan da Penha com o MC paulistano MC Kekel.
A apresentação dos dois artistas – cada qual uma forte referência em suas respectivas praias – rolou no palco do Teatro Municipal da cidade, no último sábado (12), e foi transmitido online, com início às 23h e término às 23h58.
Com o tema “Tudo de Arte, Nada de Aglomeração”, a programação dessa Virada Cultural não contou com a presença do público, força motriz do funk. Público este que dá sentido à palavra aglomeração e ao próprio funk. Com isso, a apresentação de Rennan da Penha e de Kekel, sem o público presente, perdeu sentido.
Rennan da Penha e Kekel não têm pouca prática, os dois são do ramo. Sempre fizeram bem o que se propõem, enfrentando constantemente um preconceito descabido que já foi enfrentado um dia pelo samba, pela capoeira e, ainda o é, pelo rap, pois suas músicas mobilizam massas.
Rennan é o criador do baile funk de rua mais conhecido do Rio de Janeiro, o Baile da Gaiola. O nome do baile é citado em inúmeras letras de funk, em uma espécie de “merchan”, que nas letras agrega valor à música.
Contudo, sem a presença da massa, o DJ estava mais para uma professora do jardim da infância, conduzindo crianças em uma dança de quadrilha, do que para o exímio líder do som que aglomerava mais de 20 mil pessoas por baile.
Entre seus comandos, frases ditas para animar a live como “Vocês que estão em casa, quero ver vocês cantando”, “Mãozinha no joelho, vai”, “Agora chegou o momento desliza e joga vai”, “Você que está em casa, não quero ver ninguém parado. Vai, vai, vai…” não surtiram efeito.
Nem os vários hits como “No Talo”, que abriu o show, fez com que Rennan da Penha, que ainda passou por “Aquecimento Sax Challenge”, “Amor de Quê”, “Na Raba Toma Tapão”, “Combatchy”, “Seu Gostoso Rebola e Joga”, “BPM 170”, “Hoje Eu Vou Parar na Gaiola”, “Deslizo e jogo”, “Tudo Aconteceu”, “Baila Comigo Original”, “4 Coisas que as Bandidas se Amarra”, “Talarica”, entre outros, conseguisse animar o “baile” pela tela do computador.
Às 23h30, da Penha passou o palco para seu “chegança” MC Kekel com o hit “Cinderela”, seguido por “Solteiro até Morrer”, “Namorar pra Quê”-na qual Kekel errou e pediu para o DJ que o acompanhava voltar ao começo-, “Quem Mandou Tu Terminar”, “Desencana”, e mais uma série de músicas nas quais o MC desafinou, atravessou e deixou claro que, sem a zoeira do público, sua arte de amealhar os sons é frágil.
A revelação? No funk, o público, a massa é quem dá significado ao som, que mesmo sendo executado precisamente, dentro do beat, mas sem gente para dançar e cantar junto, fica meia boca, chocho, sem sentido, enfadonho, igual aos discursos que criminalizam o gênero.
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