Prefeitura de SP descarta agendamento para organizar vacinação contra Covid-19
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Prefeitura de São Paulo descarta a distribuição de senhas ou o agendamento de atendimento para a vacinação contra a Covid-19 na cidade.
A estratégia adotada, segundo o secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido, será a mesma utilizada na campanha de imunização contra influenza durante o início da pandemia, no primeiro semestre.
“Deu muito certo e não temos por que incluir procedimentos que podem causar mais deslocamentos ou até uma possível aglomeração, como a distribuição de senhas”, explica.
Assim, a secretaria vai abrir duas ou três salas de vacinação em cada uma das 468 UBSs (Unidades Básicas de Saúde) da cidade, para dar celeridade ao atendimento.
Esses pontos de vacinação, no entanto, não estão disponíveis em toda a cidade. Levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo mostra que seis distritos da capital –República, Liberdade, Consolação, Jardim Paulista, Vila Mariana e Barra Funda– não possuem UBSs.
Segundo especialistas, como a primeira fase da vacinação vai priorizar a população com mais de 60 anos, além do grupo de vulneráveis formado por profissionais da saúde/índígenas/quilombolas, a questão da capilaridade dos pontos de vacinação é crucial para evitar grandes deslocamentos e promover o sucesso da imunização.
“Temos de lançar mão de todas as alternativas possíveis para chegar até a população idosa que, em muitos casos, tem limitação para deslocamentos. Mas a regra principal dessa campanha é não causar aglomerações”, explica a Mônica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações.
Localizados próximos à região central, os distritos sem postos de saúde somam 101,7 mil idosos, com destaque para a Vila Mariana, que tem 33.897 moradores com mais de 60 anos. A região também concentra a maior população acima de 75 anos na cidade, com 9.944 pessoas.
O levantamento ainda mostra que outros 14 distritos têm apenas uma UBS em seu território. Destes, os com maior população idosa são Tatuapé (21.766), Mooca (17.007), Pinheiros (17.007), Campo Belo (15.657) e Alto de Pinheiros (11.664). No total, a capital tem 1,8 milhão de idosos.
Diante dos buracos na cobertura de pontos de vacinação da cidade, Edson Aparecido afirma que a prefeitura deve utilizar 150 postos-volante que vão servir como base para a ampliação da rede de imunização.
“Quem mora na Vila Mariana, por exemplo, vai poder se vacinar na AMA dentro do Hospital São Paulo. Quem vive na República, poderá usar os postos da região da Sé, assim como os idosos da Liberdade”, diz.
O secretário diz ainda que ainda serão usados como pontos de vacinação equipamentos públicos, principalmente escolas. Os endereços ainda estão sendo avaliados pela secretaria.
Com a previsão do governo de São Paulo em iniciar a vacinação no estado em 25 de janeiro, os colégios se tornam boas opções, segundo especialistas, pois estarão vazios em razão das férias escolares.
Em UBSs em que houver estacionamento e for possível montar a estrutura, ainda estará disponível a vacinação por drive-thru, segundo secretário. “Assim o idoso nem precisa sair do carro, evitando qualquer contato.”
No caso de pessoas acamadas, que não puderem se deslocar até os pontos de vacinação, o secretário afirma que haverá um planejamento específico para envio de profissionais de saúde até a residência delas, a fim de garantir a imunização.
“As UBSs já têm em seus cadastros alguns pacientes que são acamados, mas devemos ampliar esses registros e cada região vai definir como fará a vacinação dessas pessoas. Já fazemos isso no caso de instituições que abrigam idosos”, afirma Aparecido.
A pasta ainda não definiu como fará a identificação e vacinação de idosos acamados que não tenham registro no SUS, geralmente sob os cuidados de profissionais em sistema home care e que contratam vacinação de clínicas particulares. “Essa população é muito residual e, com a nossa logística, que é muito consolidada e ágil, rapidamente resolveremos isso”, garante o secretário.
A prefeitura afirma também já ter adquirido 10 milhões de seringas, agulhas e insumos para aplicação da vacina, e contratado o serviço de veículos refrigerados para transporte das doses. Serão utilizadas vans do transporte escolar municipal para o deslocamento de equipes e eventualmente de pessoas que necessitem.
Para a aplicação da imunização, serão mobilizados entre 6.000 a 9.000 profissionais da saúde que, de acordo com Aparecido, já fazem parte da rede e são treinados. “A princípio, não precisaremos fazer contratações, mas tudo isso vai ser analisado diariamente quando iniciar a vacinação.”
A diretora da Sociedade Brasileira de Imunização avalia que a distribuição de senhas — que poderiam ser eletrônicas — seria uma boa forma de dar mais tranquilidade a quem pretende se vacinar, mas entende que existam limitações para colocar esse sistema em funcionamento para tantas pessoas.
Para Levi, utilizar a experiência adquirida na vacinação contra a gripe é a saída mais viável neste momento. Ela chama atenção, no entanto, para uma possível corrida em busca da vacina, caso a campanha não comece ao mesmo tempo em todos os estados.
“Hoje, a secretaria faz seu planejamento com os dados que possui de cada território. Se houver uma migração considerável de pessoas de outras localidades em busca da vacina, ou muitas pessoas querendo se vacinar assim que começar a campanha, sem um escalonamento, toda a logística pode ser prejudicada.”
O secretário admite que a vacinação contra a Covid-19 terá um público mais “ávido e preocupado em se imunizar” do que em outras campanhas, mas reitera que a capital está preparada.
“Já fizemos seis reuniões e os técnicos estão bem confiantes. Aprendemos muito este ano e nosso foco será evitar as aglomerações. Se surgir algum gargalo, temos condições de achar soluções muito rapidamente.”
A designer Viviane Giannini Coppola, 57, está desde o início da pandemia completamente isolada com a mãe, de 91 anos, e a irmã, de 62, no apartamento em que moram, em Moema (zona sul de SP).
“Eu e minha irmã temos muito receio de contrair a doença, mas há uma preocupação ainda maior com a minha mãe. Por isso, ficar isolada virou uma necessidade e um ato de resistência também”, diz.
Diante da notícia de que a campanha de vacinação contra Covid pode ter início no primeiro bimestre de 2021, Viviane já teme expor a mãe ao sair de casa para levá-la a um posto de saúde.
Para ela, a melhor opção seria poder agendar o horário de vacinação, garantindo que não houvesse acúmulo de pessoas nas unidades de saúde, ou ainda a aplicação de doses em outros locais, como farmácias particulares.
“Eu e minha irmã temos o privilégio de poder trabalhar em casa e comprar tudo o que precisamos pela internet para cumprir o isolamento e preservar a minha mãe. Não queria jogar todo esse esforço fora, expondo minha mãe a uma aglomeração, justamente na hora em que chega a tão esperada vacina.”
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