Bloqueio de voos deixa brasileiros sem condições de ficar em Portugal
LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – O governo de Portugal anunciou neste sábado (13) que decidiu prorrogar o cancelamento todos os voos com origem ou destino no Brasil até, pelo menos, 1° de março. A interrupção das viagens, em vigor desde 29 de janeiro, deixou centenas de brasileiros com dificuldades de se manter no país europeu.
Enquanto no primeiro fechamento de fronteiras, em março de 2020, a maioria dos afetados eram turistas desprevenidos, desta vez, como a entrada de pessoas a passeio permanece proibida desde então, os atingidos são sobretudo migrantes.
Muitas destas pessoas perderam os empregos por conta da pandemia, estão sem recursos para viver em Portugal e já planejavam seu retorno ao Brasil quando os voos foram cancelados.
É o caso de Michael Corrêa, demitido em janeiro, quando começou o segundo lockdown. Seu voo, inicialmente marcado para 1º de fevereiro, já foi cancelado e remarcado várias vezes pela companhia aérea. “Já não tenho condições de me manter aqui, estou morando de favor. Não tenho dinheiro para nada”, relata ele, que trabalha na área de eletrotécnica e diz já ter conseguido um novo emprego no Brasil.
“Eu só preciso voltar para meu país. Já tenho passagem comprada, só quero que permitam o meu embarque.”
Após três anos e cinco meses em Portugal, a operadora de caixa Juci Santos também decidiu voltar para o Brasil. Além de ter ficado desempregada quando a empresa em que trabalhava fechou com a pandemia, seu marido ainda desenvolveu problemas de saúde, agravados pelo frio.
Juci e a filha de 15 anos precisaram permanecer em Portugal até que a adolescente finalizasse o período de aulas, no fim de janeiro. As duas tinham passagens marcadas para viajar em 29 de janeiro, exatamente quando começou a vigorar a proibição de voos.
“No dia 27 nós fizemos o PCR para viajar. Quando chegamos em casa e vimos a notícia [da proibição de voos para o Brasil] na televisão, nós desabamos”, relata. Apesar dos imprevistos financeiros, a família ainda tem onde morar até o fim do mês. Outros brasileiros, no entanto, estão em situação bem mais delicada, recorrendo a bancos alimentares e ONGs até para conseguirem comida. Um grupo no WhatsApp reúne mais de 200 pessoas nesta situação.
O grupo tem pedido a autoridades portuguesas e brasileiras para organizar um voo de repatriação de Portugal para qualquer cidade no Brasil. Embora o decreto do governo luso cancele todas as rotas comerciais entre os dois países, ele libera voos de natureza humanitária.
Ainda não existe um prazo para a retomada dos voos –o governo ainda pode estender a proibição para além de 1º de março.
Pelas regras do atual estado de emergência em Portugal, todas as fronteiras foram fechadas a partir de 31 de janeiro. Saídas só são autorizadas em casos excepcionais.
Na quinta (11), o Parlamento aprovou a renovação do estado de emergência, mantendo as restrições de entrada e saída do país até 1º de março.
Em nota, o Itamaraty afirma que acompanha a situação dos afetados com atenção e que os consulados e a embaixada “têm procurado prestar a assistência possível aos brasileiros retidos”. A pasta diz que, por enquanto, não estão previstos “voos de repatriação a serem custeados pelo governo brasileiro, uma vez que a atual suspensão de voos se dá em circunstâncias distintas” das de março e abril de 2020.
Além de sugerir o acompanhamento constante das redes sociais e dos sites dos consulados, a pasta também recomenda que os brasileiros afetados contatem as companhias aéreas para remarcar as passagens ou verificar “possibilidades alternativas de rota de retorno ao Brasil a partir do espaço Schengen”.
Ou seja: embarcar para o Brasil fazendo conexão em outros membros da União Europeia que permanecem com voos regulares para o país. Muitos se mostraram incomodados com a sugestão oficial.
“Eles [consulado e embaixada] não conseguem dizer nada. A única coisa que eles nos dizem é para comprarmos outras passagens, para darmos R$ 7.000 ou R$ 8.000 em outras passagens que façam conexão com Madri ou com Paris. Eles acham mesmo que nós temos condições de comprar outra passagem, se já estamos no nosso limite financeiro?”, indaga a pernambucana Mayara Letícia.
Após dois anos em Portugal, ela e o marido tiveram o voo de volta para o Brasil cancelado em 5 de fevereiro. “A nossa passagem é só de ida. Não queremos que o governo de Portugal ou o do Brasil paguem ou fretem aviões. Só queremos o nosso direito de ir embora. O decreto estabelece que estão permitidos voos de repatriamento. Então, por que isso ainda não aconteceu?”
Debilitada por um problema de saúde, Talita Ribeiro, que também tem bilhete só de ida para o Brasil, diz que as autoridades brasileiras “ficam empurrando para fazer outras rotas, com diversas conexões e muitas horas de viagens”.
“Para mim existem dois agravantes que me impedem de fazer essas rotas alternativas. O primeiro é que eu gastei mais de 1.000 euros com passagens e não tenho como comprar outra, tendo em vista que a companhia aérea não devolve o dinheiro imediatamente”, conta a brasileira.
“O segundo é que eu estou com meu corpo tão fragilizado que mal consigo me manter carregando minhas malas e meu cachorro por horas em várias conexões”, explica.
Muitos brasileiros têm manifestado seu descontentamento e pedido apoio nas redes sociais dos consulados, da embaixada e até nos perfis de alguns políticos.
Enquanto isso, um grupo de portugueses retido no Brasil também tem pedido às autoridades lusas por um voo de repatriação. O governo de Portugal, no entanto, também afirma que não há previsão de que isso aconteça, por enquanto.
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