Luque abriu caminho para Maradona antes de se consagrar pela Argentina
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Argentina já goleava a Hungria por 5 a 1, na Bombonera, quando Leopoldo Luque recebeu a indicação de que seria substituído. Autor de dois gols no amistoso, o atacante participava naquele instante, aos 20 minutos do segundo tempo, de um momento que se tornou histórico para o futebol.
Em seu lugar, entrou Diego Armando Maradona, que fez com apenas 16 anos de idade sua estreia pela seleção na goleada sobre os húngaros, em 27 de fevereiro de 1977.
A participação no batismo maradoniano com a alviceleste poderia ser suficiente à carreira de qualquer jogador mediano ou de passo fugaz pela equipe nacional. Mas o futuro tratou de proporcionar lembranças e conquistas muito mais importantes para Luque, que morreu na última segunda-feira (15), aos 71 anos, vítima da Covid-19.
Àquela altura, ao abrir o caminho para o maior ídolo argentino de todos os tempos, o centroavante bigodudo já era titular da seleção desde 1975.
Revelado pelo Rosario Central e com passagem de destaque pelo Unión Santa Fe, chegou justamente em 1975 ao River Plate, onde viveu o auge de sua carreira. Pelo clube de Nuñez, foi pentacampeão nacional e anotou 84 gols em 207 partidas.
Suas atuações no River o levaram à seleção comandada por César Luis Menotti, que seria a anfitriã da Copa do Mundo de 1978.
Maradona acabou cortado pelo técnico da lista final de convocados, e houve quem questionou a opção de Menotti. O que não se discutia era a presença de Leopoldo Loque, um dos principais nomes do elenco que buscaria o primeiro título mundial do país.
Na estreia contra a Hungria, foi do camisa 14 o gol que iniciou a reação argentina na vitória por 2 a 1, de virada, em Buenos Aires. Triunfo contra os franceses no jogo seguinte garantiria a Argentina na próxima fase.
Familiares do atacante planejaram uma viagem da província de Santa Fe até a capital para assistir à partida no Monumental de Nuñez.
A expectativa de contar com gente querida entre os 71 mil torcedores nas arquibancadas parece ter servido de combustível para Luque, que conseguiu um pênalti ao chutar a bola na mão de Marius Trésor. O capitão Daniel Passarella foi para a cobrança e converteu.
Michel Platini empatou o duelo com os donos da casa, mas Luque deu números finais ao jogo em uma bela finalização de fora da área.
“Girei, bati e saiu o gol da classificação. Foi uma euforia terrível. Quando estreei pelo River Plate, marquei um gol contra o Boca Juniors na Bombonera e essa é a melhor coisa que pode passar com um jogador do River. Mas esse [contra a França] foi mais especial, porque foi em um Mundial”, contou o atacante à Folha em 2018, 40 anos depois.
O centroavante ainda sofreu uma luxação no ombro direito após uma dividida com o francês Christian López. Seria, porém, a menor de suas dores naquela Copa do Mundo.
Um dia depois da vitória contra a França, sua família foi à concentração da seleção para dar a Luque a notícia de que seu irmão, Oscar, havia batido o carro na viagem de Santa Fe a Buenos Aires e não resistiu ao acidente.
O atacante pediu dispensa do selecionado para cuidar dos trâmites burocráticos do enterro e também acompanhar os familiares no momento de luto.
Pela televisão, Luque assistiu à derrota por 1 a 0 para a Itália, que não comprometeu a classificação argentina, e à vitória de 2 a 0 sobre a Polônia, já pela segunda fase do Mundial. Foi quando recebeu a sugestão de voltar à equipe. “Pois Deus quis assim”, disse seu pai.
No retorno à seleção, atuou no empate sem gols contra o Brasil, em Rosario. “Um jogo horrível. Tudo o que fizemos foi dar porrada o jogo todo.”
Os resultados da chave forçaram a Argentina a ter de vencer o Peru por quatro gols de diferença.
Na controversa goleada sobre os peruanos, o placar marcava 3 a 0 quando Luque, de peixinho, anotou o quarto, resultado já suficiente para a classificação. René Houseman ainda marcou o quinto e Luque, mais uma vez, foi às redes e fechou a vitória que levou a alviceleste para a decisão.
Contra a Holanda, na final, os argentinos venceram por 3 a 1, gols de Mario Kempes (2) e Daniel Bertoni, e conquistaram o primeiro título mundial da história do país.
“Não podia fazer mais nada por meu irmão. Só tinha vontade de dar um pouco de alegria à minha família”, afirmou Luque, autor de quatro gols na Copa.
Sua carreira com a camisa da equipe nacional (22 gols em 45 jogos) perdurou até 1981, quando se despediu no empate em 1 a 1 com o Brasil, no Mundialito do Uruguai, confronto que marcou o primeiro e único gol de Maradona contra a seleção brasileira.
Consagrado como campeão do mundo, ele ainda vestiu as camisas de Unión Santa Fe, Boca Unidos, Chacarita, Racing, Deportivo Maipú e Deportivo Tampico (do México), além de uma breve passagem pelo Santos, em 1983, para ser reserva de Serginho Chulapa.
No aniversário de 30 anos da primeira conquista argentina em Copas, Luque foi convidado -ao lado dos também campeões Houseman e Ricardo Villa- para uma homenagem às vítimas da ditadura militar. O evento, no Monumental de Nuñez, teve a presença das Mães da Praça de Maio, que já na época do Mundial atuavam na busca pelos filhos desaparecidos durante o regime que governou o país de 1976 a 1983.
“Fizemos isso pelas velhinhas. Por sua luta, pelo que sofreram, porque merecem. Você sabe o que é perder alguém e não saber onde essa pessoa está? Eu perdi um irmão durante o Mundial, mas sabia que ele tinha morrido, pude enterrá-lo. Elas não sabiam onde estavam seus filhos”, disse Luque.
Um gol feito com as palavras por parte do eterno atacante, que passou os últimos anos de sua vida trabalhando com esportes na província de Mendoza. Meses antes do início da pandemia, havia acabado de abrir uma escolinha de futebol.
No último dia 15, após lutar por semanas contra a Covid, Leopoldo Jacinto Luque foi reencontrar Diego Maradona, que, ao menos desta vez, foi o responsável por lhe estender o tapete vermelho.
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