‘Druk’, movido a bebedeira entre amigos, é favorito a Oscar de filme internacional
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um grupo de adolescentes compete numa espécie de gincana alcoólica. A brincadeira consiste em correr no entorno de um lago carregando uma caixa de cerveja. De tempos em tempos, eles devem entornar uma garrafa e seguir em frente. O preâmbulo dá o tom de “Druk – Mais uma Rodada”, um filme que tem na bebedeira o motor para suas discussões.
Logo após a cena introdutória, no entanto, os jovens dão lugar a um quarteto de homens de meia-idade, professores de uma escola na Dinamarca, e são eles que acompanhamos, afogados em doses e mais doses de vodca, absinto, uísque e vinho pelo resto da história.
Dirigido por Thomas Vinterberg, “Druk – Mais uma Rodada” mostra como esses quatro amigos, em crise, desmotivados no trabalho e com problemas familiares, ficam sabendo de uma teoria estapafúrdia que afirma que todos têm um déficit na quantidade de álcool do sangue. Para driblar o suposto problema de nascença e testar a suposição, eles decidem consumir bebidas em grandes quantidades diariamente.
Na vida real, a ideia realmente foi pregada -pelo psiquiatra norueguês Finn Skarderud, notório em seu país de origem. Foi ao ouvir falar dela que Vinterberg começou a dar forma ao longa. Ele já sabia que abordaria o consumo de álcool em seu próximo projeto, mas ainda lhe faltava um ponto de partida para o roteiro.
Em conversa por videoconferência, Vinterberg conta que a ideia de que tantas pessoas ilustres realizaram muitos de seus grandes feitos sob a influência de álcool sempre o fascinou. O mundo de hoje seria o mesmo se políticos como Winston Churchill ou artistas do calibre de Ernest Hemingway tivessem adotado um estilo de vida mais saudável, longe dos destilados?
“Esse é um filme sobre tentar viver a vida de forma inspirada”, resume o cineasta. E a inspiração, para muita gente e também para o quarteto protagonista, vem dentro de taças e garrafas de vidro.
“Druk” pode ser o longa mais dinamarquês da filmografia de Vinterberg, como ele mesmo o classifica. O título vem de uma palavra intraduzível de sua língua mãe, algo como uma grande bebedeira. “Sabe como na Groenlândia eles têm várias palavras para neve? Na Dinamarca temos várias para beber”, diz ele, rindo.
Mas nem por isso o filme deixou de conquistar fama mundial. “Druk” fez sucesso em sua turnê de festivais -integrou a seleção oficial do inexistente Festival de Cannes de 2020- e agora é presença constante na temporada de prêmios.
Esteve na corrida pelo Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, recebeu quatro indicações ao Bafta e é dado como presença garantida no Oscar. Na Dinamarca, foi o longa mais assistido do ano passado. Aqui no Brasil, está programado para estrear no dia 25 de março, nos cinemas, embora o lockdown em São Paulo possa mudar os planos.
Mads Mikkelsen, um dos escandinavos mais celebrados de sua geração de atores, é quem protagoniza “Druk” -e conquistou uma vaga na disputada categoria de melhor ator do Bafta pelo papel. Ele e Vinterberg se tornaram bons amigos depois de trabalharem juntos em “A Caça”, longa de 2012 que venceu prêmios em Cannes e foi indicado ao Oscar, e que por sua vez também acompanha um professor.
No novo projeto, o personagem de Mikkelsen toma a decisão de participar do experimento etílico depois de assimilar a indiferença da esposa e dos filhos em relação a ele e de ter uma delicada conversa com os pais de seus alunos. Eles alegam que as aulas de história que ministra não geram interesse e são confusas, com períodos e temas tão distantes quanto a Revolução Industrial e a Primeira Guerra se entrelaçando em uma de suas exposições.
Alguns dias depois, o professor vai ao banheiro, dá um belo gole numa garrafa de vodca e entra na sala de aula, onde é aclamado pelos antes frios estudantes. É o começo de uma rotina viciante e sabidamente nociva.
“Druk” se equilibra numa linha tênue entre a tragédia e a comédia, o alerta e a apologia do álcool como uma ferramenta capaz de libertar as personas mais criativas e motivadas que habitam em nós. “Mas não é uma lição de moral”, afirma Vinterberg.
“É uma história que reconhece que o álcool mata e destrói famílias, mas também reconhece que ele eleva as pessoas e as leva a criar coisas incríveis, que é uma parte importante da nossa vida social. Eu não faço filmes com mensagens, essa é apenas uma investigação e o espectador decide o que aprender a partir disso”, completa.
Vinterberg diz que, enquanto escrevia “Druk”, não estava sob efeito de álcool. Na verdade, ele mal tem tempo para beber, diz, pondo em xeque a teoria do filme de que é a bebida que aflora nosso lado mais criativo. Há cerca de dez anos, no entanto, quando foi a vez de conceber “A Caçada”, ele teve um copo de conhaque como fiel escudeiro.
“Eu não estava completamente bêbado, mas funcionou bem. A questão sobre a qual o filme fala é se é possível ficar inspirado sem álcool. E sim, é, mas é mais difícil. Você precisa de mais foco e concentração, mas é algo que tenho que fazer todos os dias.”
Questionado se teve medo de impulsionar hábitos insalubres com “Druk” e sua aparente ode à embriaguês, Vinterberg disse que sim, ficou preocupado. Temeu parecer irresponsável ou insensível a um problema tão grave quanto o alcoolismo. Mas diz ter notado que o público não tem visto a trama de forma negativa.
Frequentadores de grupos de alcoólicos anônimos, na verdade, têm entrado em contato com o dinamarquês para expressar que se sentiram compreendidos e reconfortados pelos personagens das telas. Apesar de não ser um filme com uma mensagem, como seu diretor afirma, “Druk” parece ter muito a dizer.
DRUK – MAIS UMA RODADA
Quando Estreia em 25/3
Elenco Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen e Magnus Millang
Produção Dinamarca/Suécia/Países Baixos, 2020
Direção Thomas Vinterberg
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