86% dos executivos do setor automotivo dizem que governo deve acelerar vacinação para garantir retomada
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A onda de otimismo que se formou no setor automotivo no segundo semestre de 2020 transformou-se em marolinha com o avanço da segunda onda de Covid-19 no início deste ano. É o que mostra a edição 2021 da pesquisa Cenários para a Indústria Automobilística Brasileira, realizada no Brasil há oitos anos pela consultoria alemã Roland Berger em parceria com o portal Automotive Business.
O surto de contágios e mortes do coronavírus contaminou as perspectivas de toda a cadeia automotiva.
Segundo o levantamento, 66% dos executivos acreditam que a recuperação das perdas durante a pandemia ainda levará mais de um ano para ocorrer. Nesse grupo, 20% acreditam que vai demandar de dois a cinco anos para a retomada.
A maioria, 86% declarara que o governo precisa acelerar o processo de vacinação para garantir a retomada. A pesquisa mostra ainda que 7 em cada 10 entrevistados consideram que a vacinação é essencial para a recuperação do setor automotivo.
No que se refere aos desafios para o ano, 75% apontam que a cadeia de fornecedores vai exigir atenção. Um destaque: 59% apontam que a retomada das operações vai ter de lidar com a quebra no fornecimento de insumos. O setor tem sido forçado a reduzir a produção no mundo pela falta de componentes, em especial semicondutores.
Foram entrevistados 532 representantes do setor ao longo do mês de fevereiro, incluindo presidentes, vice-presidentes e diretores de vários segmentos da cadeia, incluindo fabricantes de veículos, leves e pesados, fabricantes de autopeças e concessionárias.
“As expectativas continuam positivas em algum grau, mas muito mais cautelosas do que vimos no segundo semestre do ano passado”, diz Marcus Ayres, sócio-diretor da Roland Berger. Ele afirma que o problema da escassez de peças já era esperado desde o início de 2020. “Todas as dificuldades com a cadeia de fornecedores não deveriam ser uma surpresa para o setor.”
Os efeitos da pandemia podem ser ainda mais duradouros devido à perda de investimentos na indústria automotiva nacional. “Se coloque no lugar de uma empresa multinacional que passa por um momento de escassez de recursos. Ela vai preferir focar em uma operação que já está em um regime mais normal ou em um país em modo de emergência?”, questiona Ayres.
As montadoras sabem qual é a resposta à indagação do diretor da Roland Berger, e têm visto as perdas semana após semana.
Assim como banqueiros e outros agentes de peso no mercado, os executivos do setor automotivo estão insatisfeitos com os rumos econômicos em meio à pandemia. Se não chegaram a escrever uma carta aberta, manifestam o desencanto ao enumerar quais são os fatores-chave para suas empresas obterem saúde financeira, rentabilidade e crescimento em 2021.
Para 73% dos entrevistados, o avanço das políticas econômicas é um ponto fundamental para a retomada, sendo mais citado que a estabilidade da cadeia de suprimentos (48%).
As dificuldades impostas pela pandemia agravaram uma situação que já dura alguns anos: a ociosidade nas linhas de montagem.
De acordo com o estudo feito pela Roland Berger, 66% da capacidade instalada estava sendo usada em fevereiro. Contudo o número pode ter caído devido à falta de componentes, problema que se agravou em março e tem feito empresas paralisarem as linhas de montagem.
Para Rafael Chang, presidente da Toyota do Brasil, a falta de competitividade global do Brasil, que influi diretamente na ociosidade das fábricas, é um empecilho para a retomada.
“Ninguém pode negar o potencial do Brasil, mas ficar só aqui dentro não é o suficiente”, diz o executivo. “Não sei se teremos capacidade para produzir cinco milhões de unidades por ano, mas esse número pode ser atingido exportando mais. E esse não é só o sonho da Toyota, mas de toda a indústria.”
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