Oportunistas usam Covid para quebrar patentes, dizem farmacêuticas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A indústria farmacêutica acusa o projeto de lei de licenciamento compulsório de remédios e vacinas contra covid-19, que deve ser votado na quinta-feira (29) no Senado, de ser um ato de “oportunismo”, e diz que a quebra de patentes pode levar os laboratórios a preterirem o Brasil na hora de fornecer medicamentos.
“É um movimento oportunista, muito bem orquestrado, que se aproveita da covid-19 para tentar quebrar patente”, diz Elizabeth de Carvalhaes, presidente executiva da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa), que representa 51 laboratórios, entre eles a Pfizer, Gilead e AstraZeneca.
Segundo Carvalhaes, se o Brasil fizer licenciamento compulsório, grandes laboratórios como Janssen, Pfizer e AstraZeneca podem preferir fornecer para outros mercados. “Não é retaliação. A demanda é muito maior que a oferta, e eles podem achar mais vantajoso, do ponto de vista econômico, vender para países que não quebram patente”, diz Carvalhaes.
O substitutivo do projeto de lei, relatado pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), permite que o governo imponha licenciamento compulsório de remédios e vacinas (fabricação sem autorização prévia do detentor da patente) em caso de emergência nacional ou interesse público. Isso já estava previsto na lei de propriedade industrial atualmente em vigor, a 9.279 de 1996.
Mas o projeto, segundo Trad, dá agilidade, pois estabelece que o Ministério da Saúde deverá publicar, em até 30 dias após a a entrada em vigor da lei ou a decretação de emergência de saúde pública, uma lista de patentes cujas licenças compulsórias seriam necessárias.
O projeto também prevê negociação entre farmacêuticas e governos: se o Executivo considerar que os laboratórios assumiram compromissos objetivos de licenciamento voluntário (como por exemplo o acordo entre a AstraZeneca e a Fiocruz para transferência de tecnologia da vacina) ou de redução de preço de venda, não é feito o licenciamento compulsório.
O texto é bem mais palatável às farmacêuticas do que o projeto original, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que previa suspensão automática de todas as patentes de medicamentos, testes e vacinas relacionados à covid.
“Vivemos um problema sanitário sem precedentes, mas quebrar patentes não vai aumentar o acesso a vacinas e remédios”, diz Carvalhaes. “Não existem remédios contra covid-19, apenas medicamentos acessórios, e a maioria são remédios antigos.”
De fato, dexametasona e anticoagulantes, usados em pacientes hospitalizados, e anestésicos e neurobloqueadores, necerssários para intubação, são remédios antigos, cujas patentes expiraram, na maioria dos casos.
Mas não é o caso do remdesivir (Gilead) e da terapia de anticorpos monoclonais REGEN-CoV2, com casirivimabe e imdevimabe (Regeneron e Roche), que foram aprovadas pela Anvisa para uso em pacientes com covid. Alguns estudos apontam redução do tempo de internação com o remdesivir, embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) não o recomende, e a Agência de Alimentos e Drogas (FDA) americana indica o Regen-CoV2 como eficaz para ajudar a evitar a hospitalização.
Nos EUA, o tratamento com remdesivir sai por US$ 520 (R$ 2860) a ampola, ou cerca de US$ 3120 (R$ 17,1 mil) o tratamento. A farmacêutica ainda não anunciou o preço para o Brasil.
Farmacêuticas de Bangladesh estão fabricando a versão genérica do remdesivir e vendendo por US$ 65 (R$ 357) a ampola, ou US$ 390 (R$ 2.145) o tratamento todo. A Gilead não concedeu licença para farmacêuticas de Bangladesh produzirem o remédio, como fez com empresas da Índia, Paquistão e Egito. Mas as empresas de Bangladesh conseguiram fabricar o remdesivir fazendo engenharia reversa, e estão exportando para 21 países, entre eles Filipinas, Venezuela e Líbano.
Bangladesh, por ser parte do grupo das nações menos desenvolvidas (LDC), é autorizado, pelo acordo Trips da OMC, a fabricar remédios patenteados sem autorização dos donos das patentes e exportar para países que também estejam entre os LDC ou tenham licença compulsória do medicamento.
Com licenciamento compulsório no Brasil, o país poderia comprar genéricos do remdesivir de Bangladesh, por exemplo.
Isso vai contra um dos principais argumentos da indústria farmacêutica e do governo brasileiro – de que não adianta pedir licença compulsória do remédio, porque o Brasil vai demorar muito para conseguir replicar o medicamento. Com a licença compulsória, enquanto não replica, pode importar de países que fabricam genéricos.
Foi o que aconteceu no Brasil em 2007, quando o governo brasileiro decretou a licença compulsória do Efavirenz, um dos antirretrovirais do coquetel para tratamento do HIV.
O governo brasileiro tentou negociar com a detentora da patente, a Merck Sharp & Dohme, uma redução no preço – queria que o comprimido, vendido a US$ 1,59 no Brasil, fosse comercializado pelo mesmo preço praticado na Tailândia, de US$ 0,65. A farmacêutica ofereceu desconto bem menor, propôs vender a US$ 1,11 o comprimido. O governo brasileiro não aceitou, e decretou o licenciamento compulsório.
No início, o governo importou o genérico do Efavirenz de laboratórios na Índia, que repassaram a tecnologia para produção nacional pelo laboratório Farmanguinhos, da Fiocruz. O genérico já era cerca de 70% mais barato que o patenteado. Depois de dois anos, o Farmanguinhos começou a produzir o genérico do efavirenz, a um preço bem menor do que remédio patenteado era vendido no país, e pagando royalties à Merck Sharp & Dohme.
Mas o caso das vacinas é mais complicado. Nenhum país conseguiu, até agora, fazer engenharia reversa de vacinas para covid. No Brasil, o Butantã tem parceria com a Sinovac e a Fiocruz, com a AstraZeneca. Mesmo com acordo de transferência de tecnologia, os laboratórios ainda não estão efetivamente fabricando completamente as vacinas.
Opositores da lei afirmam que não é necessário ter nova legislação, uma vez que a atual lei de propriedade intelectual e o acordo Trips da OMC já permitem que os países baixem licenças compulsórias em casos de “emergência nacional”.
Mesmo assim, isso raramente é feito, por medo de retaliações dos laboratórios e dificuldade de replicar os medicamentos. No Brasil, ocorreu uma única vez, em 2007, com o Efavirenz.
“Essa lei pode criar insegurança no Brasil e criar dificuldades na OMC”, diz Nelson Mussolini, presidente da Sindusfarma (Sindicado da indústria de produtos farmacêuticos do estado de São Paulo). Além do mais, diz Mussolini, a patente não é o que está dificultando a compra de vacinas – o que falta é capacidade. “O Brasil vai conseguir começar a produzir amanhã essas vacinas?”, pergunta. “Essa é uma discussão populista que não vai gerar efeitos práticos para a população, e pode até dificultar a entrada do Brasil na OCDE.”
No fim do ano passado, Índia e África do Sul, com apoio de mais de 110 países em desenvolvimento, fizeram uma proposta na OMC para suspender todas as patentes relacionadas a medicamentos e vacinas de covid enquanto durar a pandemia. Dessa maneira, argumentaram, seria possível aumentar a produção em países pobres. Por enquanto, cerca de 90% das vacinas foram aplicadas em habitantes de países ricos ou de renda média.
Países como EUA, Reino Unido e União Europeia, onde foram desenvolvidas as vacinas, bloquearam a iniciativa da Índia. O Brasil se alinhou aos países ricos e ficou contra a proposta.
A indústria argumenta que a quebra de patentes retira os incentivos dos laboratórios de investir em pesquisa e desenvolvimento, cruciais para a descoberta de novas drogas. Especialistas concordam, mas apontam que, no caso de muitos medicamentos e vacinas para Covid, grande parte do investimento veio de governos, e, por isso, as empresas deveriam praticar preços menores e aumentar o fornecimento.
Neste mês, o Brasil anunciou apoio a uma espécie de terceira via na OMC. A proposta é identificar países onde há capacidade ociosa de produção e estimular as farmacêuticas a fazerem transferência de tecnologia, voluntariamente. A iniciativa teria financiamento de bancos de desenvolvimento como Banco Mundial e Bid.
Ativistas estão céticos. “Vimos o que aconteceu com o C-Tap (pool de acesso a tecnologia) lançado pela OMS no ano passado – foi um fiasco, os laboratórios não colaboraram”, diz Pedro Villardi, coordenador do Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual (GTPI). A ideia do C-TAP era fazer um pool de compartilhamento de tecnologias, dados e patentes relacionadas à covid, mas a iniciativa não avançou.
Segundo ele, essa “terceira via” também depende da disposição das farmacêuticas de transferir tecnologia para fabricação em outros países – e ele não acha que isso vá ocorrer.
No caso do projeto de lei que deve ser votado na semana que vem, a ideia é também ser uma espécie de “terceira via”- uma legislação de licença compulsória que funcione como instrumento de pressão sobre as farmacêuticas. Em negociação, os laboratórios concordariam com transferência de tecnologia e redução de preços para evitar a licença compulsória.
Foi o que fez o então ministro da saúde José Serra com o Nelfinavir, um dos medicamentos do coquetel anti-HIV. Em 2001, Serra ameaçou fazer licença compulsória, e o laboratório acabou reduzindo em 40% o preço.
Mas críticos apontam fragilidades no projeto de lei. Vai depender do Ministério da Saúde elaborar uma lista de remédios e vacinas alvos de licença compulsória. Uma vez que o governo federal é abertamente contra o uso de licenciamento compulsório, o Ministério pode publicar uma lista sem nenhum medicamento, dizendo, por exemplo, que o Brasil não conseguiria fazer engenharia reversa.
Além disso, ativistas acham que as farmacêuticas podem fazer corpo mole. Não há prazo para a negociação entre as farmacêuticas e o Ministério da Saúde, e o órgão pode suspender o pedido de licença compulsória diante de meras “promessas” de transferência de tecnologia.
“A licença compulsória é essencial para alcançar tratamento e vacinação em massa, e, em tempos de emergência, deveria ser tornada a regra e não a exceção. Esperamos que o senado caminhe nessa direção, até mesmo porque já é amplamente verificado que as licenças voluntárias falharam e não podem continuar sendo a única opção. O substitutivo precisa fazer da licença compulsória uma política de Estado, que não esteja sujeita à posição do governo nem à pressões da indústria farmacêutica”, diz Villardi.
Procurado, o Ministério da Saúde afirmou: “A Anvisa acompanha a tramitação dos projetos de lei sobre licenciamento compulsório de medicamentos e vacinas no Congresso Nacional e se manifestará oportunamente.”
Veja Tambem em Últimas Notícias
Michael Schumacher’s enduring fight: A look at his life and legacy in May 2026
NASA aprofunda estudos sobre o cometa interestelar 3I/Atlas e desvenda sua trajetória singular
Atacante Lionel Messi precisa de dois passes decisivos para igualar recorde histórico de Pelé na Copa do Mundo
Lionel Messi busca igualar marca histórica de Pelé em passes para gol no próximo torneio mundial
Running back Josh Jacobs do Green Bay Packers é detido em Wisconsin por violência doméstica
Vini Jr revela detalhes da forte parceria com Kylian Mbappé no Real Madrid e destaca defesa contra atos de racismo
Meio-campista Pedri confirma permanência no Barcelona e descarta transferência para outras equipes
Ex-meia Guti questiona gestão da base do Real Madrid e aponta mistério em saída de Xabi Alonso
Gabriel Jesus recusa gigantes europeus e decide permanecer no Arsenal para buscar recorde histórico
Fortunas de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi ultrapassam os gramados com investimentos bilionários
Dirigente barra atacante Sebastián Villa da lista oficial da Colômbia para a Copa do Mundo