‘Radioactive’, filme sobre Marie Curie, agrada e irrita em proporção igual
FOLHAPRESS – “Radioactive”, filme sobre a vida e a obra da cientista Marie Curie que acaba de estrear na Netflix, é o tipo de cinebiografia que consegue fascinar e irritar o espectador em proporções quase idênticas. Quando todos os elementos são postos na balança, o saldo acaba sendo positivo –por pouco.
Para quem já sabe uma coisa ou outra sobre a trajetória de Curie, talvez o maior problema seja a gana de temperar com toneladas de dramaticidade uma vida que já é suficientemente extraordinária sem qualquer adorno extra -e isso tanto no pessoal quanto no profissional, como diria um certo apresentador de TV.
Nascida na Polônia, Curie passou anos lutando para se sustentar como estudante pobre em Paris até iniciar uma carreira científica de tremendo impacto.
Ao lado do marido, Pierre, identificou novos elementos químicos, como o polônio e o rádio, e lançou as bases para a compreensão do fenômeno da radioatividade, sem o qual os triunfos e as tragédias do século 20 teriam sido muito diferentes.
A pesquisadora foi a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel e uma das raríssimas pessoas a receber a láurea duas vezes. Isso não impediu, no entanto, que ela fosse alvo de machismo, xenofobia e racismo em seu país adotivo.
Depois da morte trágica de Pierre, atropelado por uma carruagem, ela iniciou uma relação com um colega casado e mais jovem, Paul Langevin, o que bastou para que a imprensa francesa a pintasse como uma judia perigosa e desalmada, destruindo as famílias da França –Curie nem de família judaica era.
Todos esses pontos-chave estão presentes na narrativa do filme, e a atriz britânica Rosamund Pike captura de forma soberba a altivez e honestidade intelectual que parecem emanar dos escritos e até das velhas fotografias de Curie. O problema é a mania do roteiro e da direção de elevar todas as situações dramáticas à enésima potência.
A Curie que aparece em “Radioactive” é tão insuportavelmente segura em relação ao próprio potencial científico que destrata todos os colegas e possíveis colaboradores, e só o interesse canino de Pierre por ela faz com que os dois enfim comecem a trabalhar juntos –todas as cenas sobre o início do relacionamento do casal, aliás, padecem dessa ficcionalização exagerada.
Algo parecido vale para as barreiras impostas pelo machismo à carreira da cientista –indubitavelmente imensas, mas que não chegaram ao ponto de impedir que ela acompanhasse Pierre no discurso de aceitação de seu primeiro Nobel, como o filme dá a entender.
A esses problemas se sobrepõe, no entanto, uma virtude que não é das pequenas. O dilema deste filme, bem como o de qualquer outro que se proponha a falar de ciência, é como retratar o impacto da aventura científica sobre o mundo. E nisso, tal como os pequenos artefatos radioativos que Curie carrega de lá para cá, a narrativa brilha no escuro.
É claro que tudo é facilitado pelo fato de que a radioatividade tem grande apelo dramático. A ciência básica estudada pela família Curie desembocou tanto em Hiroshima e Chernobyl quanto em tratamentos contra o câncer e, durante algum tempo, numa curiosa indústria de relógios de pulso e pastas de dente radioativos. Entender como o mundo funciona o muda das maneiras mais imprevisíveis.
Essa “lei das consequências não pretendidas” é resumida de maneira magistral numa das falas de Pierre Curie. “Você jogou uma pedra na água”, diz ele à mulher. “Não cabe a você controlar as ondas que vão se formar a partir disso.”
RADIOACTIVE
Avaliação: Bom
Onde: Disponível na Netflix
Classificação: 14 anos
Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Yvette Feuer, Mirjam Novak
Produção: Reino Unido, 2019
Direção: Marjane Satrapi
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