Cientista que desvendou DNA de manuscritos bíblicos estuda herança genética adquirida ao longo da vida
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Tudo começou com uma conversa despretensiosa, no fundo do ônibus, a caminho de um encontro para jovens pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, em Israel. O neurobiólogo Oded Rechavi acabou se sentando, por acaso, ao lado de Noam Mizrahi, especialista em textos bíblicos e estudioso dos célebres manuscritos do mar Morto.
“Até então, eu nunca tinha me interessado por manuscritos bíblicos, não sabia nada sobre o assunto”, conta Rechavi. Alguns minutos de conversa, porém, bastaram para que a dupla começasse a bolar um plano nada convencional para analisar esses textos, cruciais para a compreensão do judaísmo na época de Cristo.
Rechavi, afinal de contas, estuda as diversas formas pelas quais a informação genética é transmitida. “Os manuscritos foram feitos com couro de animais. O couro contém DNA. E se fosse possível usar o DNA desses animais para classificar os textos?”, perguntou-se a dupla.
Foi preciso esperar sete anos -um número apropriadamente bíblico- para que as respostas viessem, mas a sacada acabou rendendo a Rechavi, Mizrahi e seus colegas uma das análises mais originais já feitas sobre os documentos do mar Morto.
O material genético dos cordeiros e bezerros cujo couro foi usado para fabricar os pergaminhos ajudou a mostrar, entre outras coisas, que os manuscritos não eram feitos apenas por um pequeno grupo sectário do deserto, mas podiam vir de diferentes regiões da antiga Judeia e circulavam de modo relativamente amplo.
“Foi uma experiência incrível, e gostaríamos de realizar mais projetos como esse no futuro”, diz Rechavi.
A principal área de interesse do pesquisador israelense, no entanto, é ainda mais inusitada (e potencialmente revolucionária). Ao estudar o minúsculo verme C. elegans, que mede apenas 1 mm, ele e seus colaboradores estão descobrindo que as experiências do bicho ao longo da vida produzem informações genéticas que não estão inscritas no DNA e, mesmo assim, podem ser passadas de geração em geração.
O cientista de Tel Aviv vai abordar o surpreendente histórico dessas descobertas num curso sobre fronteiras da biologia para jovens cientistas brasileiros, organizado pelo Instituto Serrapilheira em parceria com o ICTP-SAIFR (Centro Internacional de Física Teórica-Instituto Sul-Americano de Pesquisa Fundamental, na sigla inglesa).
Durante décadas, acreditou-se que apenas o DNA era capaz de armazenar informações genéticas que seriam transmitidas de pais para filhos. Essa “biblioteca” guardada no genoma não seria diretamente influenciada pelo que acontece durante a vida de cada indivíduo, a não ser de maneira não planejada, como o contato com radiação ou substâncias químicas capazes de provocar mudanças aleatórias no DNA.
Diversos estudos recentes, no entanto, têm indicado que mudanças nas instruções usadas para construir o organismo podem vir de outros mecanismos bioquímicos, mesmo quando o DNA fica inalterado. E, o que é mais intrigante, tais mudanças seriam uma reação direta a eventos no ambiente -a escassez de comida, digamos, poderia fazer com que os pais gerassem filhos com um organismo menos propenso a gastar energia.
Rechavi e seus colegas identificaram, nos vermes C. elegans, o que parece ser um dos mais sofisticados mecanismos desse tipo. Os neurônios dos bichos produzem pequenas moléculas de RNA (substância “prima” do DNA) que são transmitidas a seus filhotes e ajudam a modular o padrão de ativação e desativação de trechos de DNA, sem mexer diretamente neles.
“Não sabemos exatamente que tipo de estímulo natural desencadeia isso, mas o fato é que mudanças na produção desses pequenos RNAs são capazes de alterar, por exemplo, a maneira como os vermes procuram comida, e isso pode se manter ao longo de múltiplas gerações”, explica o cientista.
O processo é completamente diferente do que costuma acontecer no cenário tradicional de adaptação de uma espécie a determinado ambiente. Normalmente, as mutações no DNA, que surgem de forma aleatória, passam por seleção natural, ou seja, os indivíduos cujas características genéticas lhes permitem uma adaptação melhor ao ambiente se reproduzem mais do que os outros, de forma que as características deles se tornam mais comuns naquela espécie com o passar do tempo.
O mecanismo elucidado pela equipe de Israel, portanto, permitiria abrir um “atalho” adaptativo por meio da influência direta do próprio ambiente. Resta saber se ele pode ter algum impacto em outras espécies de animais, como os seres humanos e outros mamíferos, e até que ponto ele seria capaz de influenciar a evolução do C. elegans e de outros seres vivos a longo prazo.
“São questões em aberto. Sabemos que pequenos RNAs estão presentes nos espermatozoides de mamíferos, por exemplo, mas não está claro quão duradoura é a ação deles”, pondera ele.
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