Quadrinho turco à la ‘Black Mirror’ critica o governo autoritário de Erdogan
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Logo no primeiro conto da HQ “Contos Ordinários de uma Sociedade Resignada”, o quadrinista turco Ersin Karabulut fala sobre o medo num governo totalitário. Ao fim, traz os representantes dele -Trump, Putin, Erdogan, Kim Jong-un, entre outros.
Questionado se o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, apareceria ali hoje, Karalabut diz não ter certeza. “Mas não porque ele não se encaixa lá”, afirma, por email. “É mais porque ele está muito longe do meu mundo, ao contrário de Trump e Assad, da Síria. Mas acredito que o Brasil é muito maior do que ele e todos vamos presenciar sua saída nas eleições.”
As histórias foram publicadas em 2018 e agora saem no Brasil pela Comix Zone. São 15 contos em que acompanhamos pequenos ou grandes acontecimentos em sociedades distópicas, aparentemente futuristas.
Os temas vão desde a tentativa de prolongar a vida ou ser outra pessoa a até, simplesmente, a busca de mulheres casadas pela felicidade. Desse jeito, horror, comédia e ficção científica se misturam o tempo todo. Algumas das narrativas foram criadas há mais de 15 anos. Outras, pensadas mais recentemente –como é o caso do conto inicial. Mas eles fazem parte do mesmo universo? O autor diz que não.
“Eles são totalmente independentes um do outro, o que me deu liberdade para os continuar fazendo durante todos esses anos. Mas acho que pode haver algumas conexões entre muitos deles, sem minha intenção.”
Os regimes totalitários são temas frequentes dentro dos contos. A tentativa de controlar a sociedade por meio de uma força policial ou de uma maioria, por exemplo, aparece em diversos deles.
Atualmente, Karabulut vive entre a Turquia e os Estados Unidos. Nos dois, vivenciou a ascensão de regimes autoritários ou que flertam com o autoritarismo e de políticos populistas. Erdogan lidera o país natal do quadrinista desde 2003 –inicialmente como primeiro-ministro e, desde 2014, como presidente. Já nos Estados Unidos, para onde ele se mudou em 2017, viveu todo o mandato de Donald Trump, a quem chama de palhaço.
“Ele [Trump] estava fazendo tudo da mesma maneira que Erdogan! Estava tipo ‘estou tentando fugir de uma pessoa e olhe para o presidente do meu novo país'”, diz o autor. “Sou muito cético ao falar bem sobre [Joe] Biden. Mas, até agora, ele parece fazer as coisas muito melhor, e agir de forma lógica.”
Karabulut ainda afirma que, sem a pandemia, a derrota de Trump nas urnas talvez não tivesse acontecido, fazendo paralelos com as distopias contadas em “Contos Ordinários”.
A influência dessas vivências parece ter inspirado Karabulut na construção das histórias. Isso aparece, por exemplo, no conto derradeiro, “Monocromia”, em que o colorido é banido de uma sociedade. Dessa forma, todos precisam vestir preto e branco dos pés à cabeça para não fugir do padrão imposto.
O autor traça um paralelo com um caso ocorrido após a publicação da história, de uma escada do antigo governo municipal de Istambul, que teve as cores coloridas em homenagens à população LGBTQIA+ retiradas por causa dos conservadores.
Esse traço autoritário aparece também em “Trezentos e Nove”, que traz elementos do clássico livro “Farenheit 451”, de Ray Bradbury, e do clipe de “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd.
Karabulut diz ver esses arroubos totalitários acontecendo na Turquia cada vez mais. “É um show de horrores. Costumavam dizer que a economia é boa, mas, como as coisas só pioram, e os eleitores só ficam mais pobres, eles mudaram para ‘sim, há problemas, mas estamos sob ataques estrangeiros’.”
“Besteira total”, relata ele, que chegou a ser processado por Erdogan em 2004, quando o desenhou como um animal numa charge numa revista local. Um dos fundadores da revista de quadrinhos de humor Uykusuz, o artista conta que essa e algumas outras publicações “são as únicas mídias impressas que não são de propriedade de Erdogan”.
“Estou tão cansado de pensar nele [Erdogan]. Minha juventude se foi junto com ele. Mas acho que não ajuda criticar os políticos, de qualquer maneira. As pessoas também deveriam ser culpadas pelo que está acontecendo. As velhas gerações não permitem que seu país mude e o mantêm dentro desse inferno, cheio das chamadas ‘tradições’ e ‘valores'”, acrescenta.
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