Novo pterossauro brasileiro chama a atenção por crista bizarra
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Cientistas identificaram um novo pterossauro que habitava, há mais de 100 milhões de anos, o Nordeste brasileiro. Ele viveu mais precisamente na região da chapada do Araripe, conhecida pela grande diversidade e qualidade de fósseis, entre os estados de Pernambuco, Piauí e Ceará, com dezenas de espécies já descobertas.
Em altura, o bicho recém-descrito não deveria chegar a um metro, mas podia chegar a três metros de envergadura, não tinha dentes e, como característica marcante, exibia uma enorme crista na cabeça, o que provavelmente estaria associado ao comportamento sexual e à comunicação visual na espécie.
Essa exuberante crista é comum a outros membros do grupo dos tapejarídeos, cujos representantes habitavam regiões bastante distantes do mundo ancestral, seja no supercontinente austral de Gondwana, que contava com América do Sul, África, Antártida e Oceania, ou na Laurásia, que reunia Ásia, América do Norte e Europa.
Especula-se que, com o bico, o bicho se alimentava de frutos e pequenos animais à beira de corpos d’água, de forma semelhante às garças modernas.
Segundo os pesquisadores, o novo tapejarídeo ajuda a identificar a origem do grupo. Com os novos achados e as atualizações na “árvore genealógica” das espécies, que tem o nome oficial de cladograma, defendem os cientistas, é mais provável que eles tenham tido origem em Gondwana, mais precisamente na América do Sul, e só depois se espalhado para a Laurásia.
O artigo científico com os achados saiu nesta semana na revista Acta Paleontologica Polonica, e contou com a participação de pesquisadores da Unipampa (Universidade Federal do Pampa, no Rio Grande do Sul), da UFRGS ( Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e do Museu Nacional, no Rio.
Fósseis de tapejarídeos já foram encontrados nas regiões que hoje são China, Marrocos, Alemanha, Espanha e Hungria, além, claro, do Brasil. Recentemente, um outro exemplar brasileiro do mesmo grupo foi descrito, o Tupandactylus navigans.
O nome escolhido pelos cientistas para batizar o novo pterossauro do Cretáceo brasileiro foi Kariridraco dianae. A primeira parte faz referência à etnia indígena kariri, originária da região, e à palavra latina “draco”, que significa “dragão”. A segunda parte é uma homenagem a Diana Prince, a Mulher-Maravilha dos quadrinhos.
Outra curiosidade sobre os tapejarídeos, além de sua exuberância ou bizarrice, é que eles também podem ajudar a entender a evolução e a disseminação de angiospermas, as plantas evolutivamente mais recentes, que apresentam flores e frutos e que englobam uma variedade que vai do pé-de-feijão à goiabeira.
Ao se alimentarem dos frutos e espalharem as sementes por meio das fezes, esses pterossauros podem ter contribuído para a predominância de angiospermas que observamos hoje, tendo modificado o mundo terrestre para sempre.
Pterossauros, vale notar, não são dinossauros, mas têm um ancestral evolutivo comum. O grupo dos bichos pré-históricos alados foi o primeiro a conquistar os céus, 80 milhões de anos antes das aves, e podiam ter o tamanho de pequenos aviões.
Também é conveniente lembrar que as aves modernas são descendentes diretas dos dinossauros (dinossauros, portanto), e não dos pterossauros, que não deixou representantes na fauna terrestre de hoje, sendo provavelmente extintos cerca de 65 milhões de anos atrás.
Infelizmente o fóssil estudado pelos cientistas não veio de uma escavação oficial.
“Quando a gente fala de fósseis da formação Romualdo, na chapada do Araripe, é difícil trabalhar com fósseis que foram encontrados por paleontólogos, já que as pesquisas acompanhadas ali por esses profissionais são bem recentes. Historicamente falando, é muito mais comum que trabalhadores locais que, para sua subsistência, tenham coletado e vendido esses fósseis -eram eles que traziam esses espécimes à tona”, diz Felipe Lima Pinheiro, um dos autores do novo estudo e pesquisador da Unipampa.
O trabalho foi liderado por Gabriela Cerqueira, hoje doutoranda em paleontologia pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Foi ela que, ao remover a rocha do fóssil (processo de preparação), teve uma surpresa negativa: a coleta clandestina deixou uma cicatriz no material.
“A gente foi vendo que ele era uma espécie de monstro do Frankenstein, formado por mais de um fóssil colado no outro, de pterossauro, inclusive, com [a resina] durepoxi. É uma prática muito comum nesses fósseis retirados irregularmente, com a tentativa de torná-los mais atrativos para potenciais compradores”, diz Pinheiro. A adulteração, relata o pesquisador, fez o estudo do novo pterossauro andar bem mais devagar do que o de costume.
A extração e venda ilegal de fósseis infelizmente é comum. Recentemente, cientistas brasileiros entraram numa disputa com o Museu de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha, por um fóssil inusualmente bem preservado de dinossauro, o Ubirajara jubatus, retirado ilegalmente do Brasil em 1995.
O material com parte do crânio e algumas vértebras do Kariridraco dianae, que poderia ter tido destino parecido, foi doado ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, no Ceará, onde também se encontra depositado, bem próximo do local onde foi encontrado. E é onde o material tem de permanecer, diz Pinheiro.
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