‘Vingança e Castigo’ mostra que há faroeste depois de Clint Eastwood
FOLHAPRESS – É como se o western spaghetti tive dado uma cambalhota e caído no Arizona para nos lembrar que, afinal, nem tudo foi feito em matéria de velho oeste. Isto é, em poucas palavras, “Vingança e Castigo”
E, no entanto, parece que tudo ali já vimos em alguma parte, como se o filme de Jeymes Samuel –também conhecido como The Bullitts– fosse uma espécie de rearranjo de procedimentos já usados no bangue-bangue ou nos filmes de gangster. Parece haver ali dezenas de fragmentos roubados de velhos faroestes. Mas o roubo faz parte dessas duas coisas, o faroeste e o cinema. O importante é que o produto dessa colagem resulta original, provocador, intrigante.
Como ato de provocação, “Vingança e Castigo” afirma, já em sua abertura, que seus personagens são extraídos da vida real. Nada ali, no entanto, pertence à tradição, a começar por seu argumento opor duas gangues de personagens negros, as de Nat Love –Jonathan Majors– e Rufus Buck –Idris Elba –, em cidades inteiramente ocupadas por pessoas negras. Numa bem imaginada sequência, aliás, uma dessas gangues invade White City, a cidade dos brancos toda pintada de branco.
Não falta ousadia à empreitada de Jeymes Samuel. Ele começa por desprezar a verossimilhança –isto é, a tradição– e abdicar de todo apelo realista, ao mesmo tempo em que projeta na tela a ideia de que nossa imagem do mundo hoje vem das imagens, não do mundo –o que Brian De Palma já nos ensinou.
Com isso, Samuel maneja seus recursos com a aparente consciência de que o faroeste, como gênero, existiu para criar o mito da nação americana e seus valores. Desde o cinema mudo essa construção ofuscou a história. Foi com essa mitologia que, de certa forma, Clint Eastwood acertou as contas em “Os Imperdoáveis”, ao criar caubóis que não passavam de bêbados, idiotas ou sádicos.
Seria esse o oeste “real”? Ou, como diz um personagem de David Lynch: “Não faça parecer real até que se torne real”. Eis a proeza a que “Vingança e Castigo” chega: pelo caminho do excesso, do simulacro, é que se torna real.
Basta ver a primeira sequência para observar o estranho caminho que Samuel trilhará: lá está a casinha toda arrumada, pintadinha, bonitinha, onde vive o jovem Nat Love. E depois chegamos às cidades: de uma perfeição insultuosa, parecem tiradas de um jogo infantil de faroeste recém-trazido pelo papai Noel para o Natal das crianças.
Também os pistoleiros envolvem-se nesse jogo de espetáculo que tem por ponto alto –ou baixo, conforme o olhar– os maneirismos técnicos, os planos de 180 graus, os ângulos “recherchés”, o acúmulo de extravagâncias da câmera. Mas eis que, no meio disso, explode em nossa cara a cena formidável, que começa dentro da casa de Rufus Buck e segue até trazer em primeiro plano um Nat Love que estava no fim da rua, do outro lado da cidade –o plano expressa o ponto de vista de Rufus Buck, arqui-inimigo de Nat Love, e a atenção que o rival merece dele.
Com essas e outras, o que poderia ser notado até como defeito acaba se tornando não raro virtude, transformando nosso olhar, subvertendo as formas conhecidas, pois da soma de exageros e movimentos ostentatórios, o resultado é original. Isso sem falar do belo encontro final entre os dois rivais, Buck e Love: o momento em que já não é preciso criar algo parecido com o real, pois tudo já se tornou real. Ou, como queria William Blake, o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Jeymes Samuels parece acreditar nas palavras de seu conterrâneo.
Com tudo isso, não é possível dizer que “Vingança e Castigo” seja um filme perfeito. Existe, por exemplo, uma inflação de personagens no roteiro a que Samuel mal consegue dar forma. Como decorrência, surgem tempos mortos desnecessários. No entanto, tais problemas são resgatados por coisas como a intervenção de um personagem abertamente andrógino, Cuffee –Danielle Deadwyer–, ou do surpreendente xerife Bass Reeves –Delroy Lindo.
Ou ainda pela percepção de que, sim, existe vida no bangue-bangue depois de Clint Eastwood (não vale citar Kelly Reichardt, que não trabalha cinema de massas); só faltava descobrir aonde ela estava. Isso sem falar, naturalmente, da música escrita pelo próprio Jeymes Samuel (inglês e músico de origem, que musicou em 2013 o enjoativo “O Grande Gatsby”, de Baz Luhrmann), que ora evoca e subverte o oeste já visto (italiano ou não), ora passeia por ritmos que consagraram a música negra.
Com toda franqueza, o único defeito imperdoável de “Vingança e Castigo” é estar entrando em cartaz pela Netflix –sua produtora, admita-se. Espera-se que um dia seja possível ver essa surpreendente fábula do oeste e da negritude onde devia estar: numa bela e grande tela de cinema, numa sala cheia de gente.
O importante é que, de todo o suco de excessos, espetaculosidades, ostentação, o saldo é novo. Sim, havia vida depois de Clint Eastwood. Restava descobrir aonde estava. Jaymes parece que descobriu.
VINGAÇA E CASTIGO
Onde: disponível na Netflix
Classificação: 16 anos
Elenco: Regina King, Idris Elba e Jonathan Majors
Produção: EUA, 2021
Direção: Jeymes Samuel (The Bullitts)
Avaliação: ótimo
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