Não quero que meus filhos cresçam no Brasil, diz refugiada congolesa em SP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A morte de Moïse Mugenyi Kabagambe, 24, intensificou o sentimento da refugiada congolesa Prudence Kalambay, 41, de deixar o Brasil. A ativista pelos direitos de imigrantes e refugiados no país tem medo que o destino de seus filhos seja o mesmo de Moïse.
Prudence, que mora em São Paulo, é mãe de cinco filhos, entre eles dois meninos. Por serem negros com ascendência congolesa, ela tem medo que cresçam no Brasil.
“Mesmo eles tendo nascido no Brasil, eu não vejo meus filhos crescendo aqui. Essas coisas doem. Essa mãe [de Moïse] nunca imaginava que ia perder o seu filho assim. O menino não foi roubar. Mesmo se roubasse, ninguém tem o direito de tirar a vida da outra pessoa, existe lei”, diz.
Prudence diz se preocupar também por sua filha mais velha ela, assim como Moïse, é estrangeira, nascida na República Democrática do Congo, e está na casa dos 20 anos.
“A minha filha mais velha vai completar 21 anos neste ano. Ele [Moïse] poderia ser meu filho, um menino congolês.”
Moïse foi morto a pauladas perto de um quiosque na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24). Câmeras de segurança mostram o jovem sendo espancado até a morte. Os responsáveis pelo crime utilizaram pedaços de madeira e imobilizaram o congolês durante a agressão.
Com base nas imagens, a Polícia Civil prendeu três homens suspeitos do homicídio nesta terça (1º): Fábio Pirineus da Silva, Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca e Brendon Alexander Luz da Silva.
Nesta quarta (2), a Justiça determinou a prisão temporária dos mesmos três. A juíza responsável pela decisão argumentou que as investigações apontam que eles são os autores do crime, mas que serão necessárias outras diligências para elucidar os fatos.
Prudence veio para o Brasil com sua filha mais velha e o status de refugiada há cerca de 14 anos. Hoje tem mais quatro filhos e uma neta.
Nos últimos anos, conta, viu aumentar as situações de xenofobia e racismo. Se pudesse, migraria para outro país para evitar novos constrangimentos, ela afirma.
Entre 2011 e 2020, cerca de 53,8 mil pessoas foram reconhecidas como refugiadas no país, sendo 1.050, 2% do total, congolesas, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em Prudence, a vontade de deixar o Brasil se intensificou após ver o vídeo em que Moïse é espancado até a morte no Rio de Janeiro. “Eu estou sem palavras”, diz. “Ele representou todos os assassinatos que estão acontecendo aqui.”
Uma nota da comunidade congolesa do Brasil exige a apuração do crime e a responsabilização dos envolvidos. “Esse ato brutal não somente manifesta o racismo estrutural da sociedade brasileira, mas claramente demonstra a xenofobia dentro das suas formas contra estrangeiros”, afirma.
Para Samuel Vida, professor da Faculdade de Direito da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e coordenador do programa Direito e Relações Raciais, não é possível dissociar o racismo da xenofobia no assassinato de Moïse. O professor acredita que a motivação racial tenha sido o principal motor para as agressões.
“Há uma motivação de origem racial que faz com que as pessoas negras sejam tratadas como sub-humanos, como menos merecedoras de consideração em relação à dignidade, em relação à humanidade do que as demais pessoas”, afirma.
Vida diz ainda que a política migratória do Brasil foi concebida para receber imigrantes brancos de países europeus e, por isso, a xenofobia se expressa principalmente contra imigrantes de países africanos e imigrantes negros de outras nacionalidades.
“É uma xenofobia que só se expressa como rejeição dirigida ao imigrante negro. Então ela não pode ser desconectada do fenômeno das relações raciais desiguais e da hostilidade de negritude que marca a cultura brasileira”, completa.
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