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Tragédia de Petrópolis: a dor do homem que foi herói na chuva de 1981, perdeu parentes em 2013 e 2018, e hoje vive em área de risco

“A vida toda as pessoas têm me perguntado se me considero um herói. Mas me sinto pequeno, diante de tantas tragédias que se repetem”. É com essa sensação de impotência que Jamil Muanis Antonio Luminato, hoje com 60 anos, se vê diante de outra calamidade das chuvas em Petrópolis. Pouco mais de quatro décadas atrás, ele se tornou um símbolo do temporal de 1981 na cidade, ao ser fotografado carregando o corpo de um bebê que acabara de tirar da lama. Desde então, nas sucessivas calamidades que abalaram o município, Jamil vivenciou a dor de perder parentes para as enxurradas. Em 2013, deu adeus a uma filha e a dois netos. Mais tarde, em 2018, chegou a vez de se despedir de um irmão.

— É cruel, uma pancada pesada. Quando acontece com os outros, já dá aquela agonia. Quando é com a sua família, o chão se abre. Tentei salvar minha filha presa no barranco, mas parecia que eu revirava a terra com uma colherzinha de café — diz Jamil.

Ele, que é auxiliar de serviços gerais num supermercado, vive numa das áreas de risco de Petrópolis, no alto do bairro Independência. Na vizinhança, há um lugar que chama de abismo, de onde, nos dias de céu claro, é possível avistar a Baixada Fluminense e a cidade do Rio. Já para a paisagem nos fundos de sua casa, Jamil não gosta de olhar. É a encosta que deslizou em março de 2013, soterrando sua filha Drucelaine Luminato, de 28 anos, e seus netos Rodrigo e João Victor, além de cinco pessoas ligadas à família.

— Minha filha vivia tão perto que, quase todo dia, eu a ouvia gritar da casa dela “bênção, pai” — lembra Jamil.

Seu sonho era virar bombeiro ou piloto de avião. No entanto, acabou trabalhando, durante muitos anos, como pedreiro. Mas Jamil conta que, depois de 2013, ficou desnorteado, e não conseguia fazer um bom serviço. Na época em que surgiu a oportunidade no supermercado, oito anos atrás, passava por dificuldades, e precisou de ajuda.

— Nossa vida é o quê? Os filhos. Se não tiver os filhos, a gente desiste — afirma.

Foi na ânsia de encontrar o caçula Caíque, de 15 anos, que Jamil enfrentou as ruas cheias de lama e de carros retorcidos na noite da última terça-feira. Conseguiu chegar até a escola em que o adolescente estuda e ficou abrigado durante o temporal, na Rua Coronel Veiga.

— Quando começou a chover, falei com ele por telefone. Pedi para que não saísse do colégio. Ainda bem que ele obedeceu — lembra. — Já eu, enquanto atravessava a lama, revivi todas as memórias.

O colégio municipal de Caique se chama Prefeito Jamil Sabrá, que era quem comandava a cidade no início dos anos 1980. O Jamil auxiliar de serviços gerais lamenta que, desde aquele período, vários clãs políticos passaram pela prefeitura sem mudar a realidade dos moradores das encostas de Petrópolis.

Em 2018, Heloítson Antônio da Silva, irmão de Jamil, estava no bairro Independência quando foi atingido por uma barreira. Morreram ele e a namorada. O auxiliar de serviços gerais fez questão de esquecer os detalhes de mais esse luto. Mas, embora se esquive das lembranças, conta que sua mãe, Maria Margareth, hoje com 80 anos, mudou-se para Juiz de Fora (MG), traumatizada com as perdas.

— Na terça-feira, ela ficou muito preocupada. Quando o sinal dos celular voltou, me ligou e pediu para que eu não escondesse nada. Felizmente, Papai do Céu protegeu o Independência. Mas toda essa área é de risco — ressalta Jamil.

A menos de cem metros de sua casa — uma construção humilde, de dois quartos, sala, banheiro e uma cozinha por acabar de reformar — está instalada uma sirene, que deveria alertar para chuvas fortes. Na tempestade da semana passada, entretanto, moradores garantem que ela não soou.

— E se tocasse, para onde iríamos? Não sei. Minha rua não tem ralos, nada de drenagem. O pavimento foi feito em mutirão. Já a encosta em que morreu minha filha está ocupada de novo — lamenta Jamil.

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