Luísa Sonza faz shows erotizados que só refletem ego, não liberdade sexual
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em frente a uma multidão e diante de uma barra de poledance, Luísa Sonza exibe praticamente cada parte de seu corpo, abre as pernas e acaricia na sua vulva, semicoberta por uma lingerie de látex. Enquanto isso, sua música “2000 s2” é tocada e, em alguns momentos, dublada pela compositora. Recém-publicado no seu Instagram, o trecho é parte de um show da gaúcha.
“A mensagem é ‘façam o que vocês quiserem'”, disse ela, numa entrevista à revista Trip, do ano passado. “Sejam livres pra mostrar a bunda ou não.”
Não é nada difícil encontrar videoclipes, fotos ou performances em que Sonza aparece seminua, sensualizando, ou tocando o próprio corpo, sobretudo sua bunda. Segundo ela, que se autointitula como feminista, tudo isso é empoderamento feminino.
No início do mês, porém, isso que a cantora chama de “empoderamento” dividiu as redes sociais, após a viralização de sua performance de “Café da Manhã”, canção em parceria com Ludmilla. Nela, Sonza tem parte da roupa arrancada por dançarinos e canta versos como “Se você quiser pode ficar, só que sem machucar/ Nem precisa me perguntar”.
De um lado, fãs elogiavam a apresentação da artista, e de outro, feministas criticavam sua postura, com o argumento de que esse tipo de conteúdo somente endossaria a objetificação do corpo feminino, tão marcante na cultura pop.
Seja por escolha genuína, pressão externa ou apenas interesse lucrativo, Sonza está frequentemente fetichizando o corpo. Vale pensar, no entanto, a que custo.
Sem dúvidas, ela não é a primeira, nem a última, cantora a investir numa imagem sexual. Também não é novidade a existência de um imaginário machista que associe mulheres a mero entretenimento erótico dentro e fora da indústria musical –independente da roupa que elas usem ou deixem de usar– e as reduza a isso.
É bem comum, por exemplo, esbarrar com imagens de super-heroínas vestidas com roupas coladas, de decotes demarcados e estética sedutora, em HQs, séries e filmes –movimento que só nos últimos anos vem ganhando revisões e novos contornos.
O chamado male gaze –termo cunhado pela britânica Laura Mulvey, nos anos de 1970– também exemplifica como personagens femininas são, muitas vezes, retratadas como seres fragilizados que sempre estão à disposição sexual masculina.
Há ainda a famosa figura das pin-ups, que podem até parecer sutis e inocentes, mas surgiram como uma proposta de símbolo sexual para homens.
Uma das obras mais famosas do coletivo americano Guerrilla Girls é um cartaz que questiona a sexualização gratuita do corpo feminino, que também invade museus pelo mundo. “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan Museum?”, indaga a obra, de 1989.
Não é de se estranhar, assim, que performances extremamente sexualizadas, como as de Sonza, levem a questionamentos sobre o propósito desse apelo erótico nos shows e videoclipes da cantora –não, necessariamente, como uma reprovação de sua autonomia, mas sim como promoção de reflexões para além de aplausos empolgados ou discursos de ódio.
Sonza pode até se enxergar como uma mulher livre, que manda e desmanda no próprio corpo, mas isso jamais anulará o fato de que ela vive numa sociedade que há séculos objetifica mulheres para transformá-las em meros produtos rentáveis.
Num mundo onde mulheres têm seus corpos violados, consentimentos ignorados e ações erotizadas, liberdade sexual é uma bandeira que não se limita –ou pelo menos, não deveria se limitar– a uma bunda à mostra. Atrelar isso a “empoderamento”, como sugere Sonza, parece mais uma frase bonita do que um discurso sólido.
O que há, afinal, de tão libertador em subir num palco para um repeteco do que há anos reina na cultura pop? Se Luísa Sonza fosse um homem, veríamos performances de um músico seminu tocando seu pênis?
A postura sensual de Sonza no palco diz muito mais sobre seu próprio ego, ou talvez escolha artística, do que, de fato, liberdade sexual.
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