Como ‘Tudo É Rio’, de Carla Madeira, virou best-seller com sua família partida
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Foram mais de 15 anos entre as primeiras palavras que Carla Madeira escreveu para “Tudo É Rio” e a vinda do livro ao mundo. Não foi um desenrolar contínuo, mas interrompido quando a autora se viu paralisada por uma cena brutal de violência de gênero que se revelaria inescapável para o enredo. Sentiu que “não tinha recursos para seguir adiante”.
“Eu não tinha a pretensão de escrever um livro, estava experimentando uma linguagem, disponível para ouvir uma prosódia que se formava na minha cabeça”, conta a mineira de 57 anos. “Não sabia sair daquilo que eu mesma tinha proposto.”
Uma década e meia depois, seu casamento e seu livro terminaram juntos, no que a autora aproxima como o fechamento de dois arcos. Pegou aquela história de novo pelo cabresto, partindo do mesmo ponto que a havia perturbado, e concluiu tudo em oito meses, num “jorro visceral escrito na mesma ordem que o leitor lê”.
O percurso, acidentado e irregular, teve destino triunfal. “Tudo É Rio”, sua estreia literária, teve excepcionais 67 mil cópias vendidas desde que a Record comprou seus direitos e bancou o relançamento, há exatamente um ano. No cômputo das ficções brasileiras em 2021, ficou atrás só do “Torto Arado” de Itamar Vieira Junior.
Mas o romance já era um sucesso antes. Foi publicado em 2014 pela Quixote, editora independente de Minas Gerais com quem a escritora tinha uma relação próxima, em tiragem inicial de 700 cópias. Só ali teve seis edições, com mais de 10 mil exemplares circulando.
Madeira culpa a acolhida carinhosa de leitores, que alavancaram a fronteiras cada vez maiores essa narrativa tão íntima. “Tudo É Rio” entrelaça a história de Dalva e Venâncio, um casal destroçado pela morte violenta do filho, e a de Lucy, que desde a adolescência sentia uma vocação irrefreada para a prostituição.
O potencial da obra foi percebido pela Record, que engrossou uma distribuição que hoje se vê com clareza que estava represada. Não só ampliou a capilaridade daquele romance como bancou a publicação do seguinte, “Véspera”, lançado há quatro meses e já com 12 mil exemplares vendidos.
O novo livro, que gira em torno de dois gêmeos amaldiçoados pelo pai com os nomes fatídicos de Caim e Abel, avança numa questão que atormenta toda a obra da escritora. “Como se chega ao extremo?”, ela parece querer saber. E a resposta costuma ter algo a ver com a família.
“A matriz de tantos desencontros e de tanta violência sempre me parece estar em famílias adoecidas, com verdades muito rígidas sobre, por exemplo, questões religiosas e de gênero.”
Quinta entre os seis filhos de um matemático de formação erudita e uma mãe que mal completou o primeiro grau –mas que a muniu com sensibilidade para música e poesia–, Madeira cursou mais de dois anos de matemática pura na universidade.
Com um vazio no peito, quis trocar para a área da comunicação. Formada, fundou com duas amigas uma agência de publicidade hoje com 35 anos de estrada, onde ainda ocupa o cargo de diretora de criação. Pontos de partida e chegada tão incomuns colaboraram para que seus livros oferecessem visões frescas sobre temas como sexualidade e religião.
As cenas mais lascivas de Lucy em “Tudo É Rio” não se furtam ao explícito e não escondem a intenção de provocar desejo. Sobre isso, Madeira lembra um trecho de seu livro do meio, “A Natureza da Mordida”, também da Quixote, que afirma que “sexo não é opcional para a humanidade”.
“Queria tratar a sexualidade de forma escancarada com Lucy, sem procurar palavrinhas como pepeca”, argumenta. “Como autora, eu gosto que as palavras possam ser ditas. Se estou fazendo uma cena de sexo, não preciso apagar a luz e desfocar a câmera, como numa novela. Posso levar o leitor junto.”
Igualmente sensível é sua abordagem da religiosidade, mais interessada em crenças populares que em acatar dogmas oficiais –o carismático personagem de Padre Tadeu, em “Véspera”, parece ter como principal função subverter tudo o que se espera de um padre.
Madeira lembra que uma de suas inspirações para a história trágica dos irmãos de nomes bíblicos foi uma frase do argentino Jorge Luis Borges. “Houve pela primeira vez a morte. Já não me lembro se foi Abel ou Caim.”
“Na verdade, não importa”, completa ela. “Nós vamos ocupando o lugar de quem morre e de quem mata a vida inteira.”
VÉSPERA
Preço R$ 54,90 (280 págs.)
Autor Carla Madeira
Editora Record
TUDO É RIO
Preço R$ 54,90 (210 págs.)
Autor Carla Madeira
Editora Record
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