Camelôs que vendiam máscaras já amargam prejuízos após medidas da prefeitura
RIO — Agora que as máscaras caíram no Rio, a previsão é de queda também nos rendimentos de quem apostou nelas como o ganha-pão. Se teve vendedor ambulante comprando até terreno com o que embolsou na comercialização do acessório que se tornou básico nos últimos dois anos de pandemia, tão logo a prefeitura desobrigou o uso dele em ambientes fechados, a rápida dinâmica da economia das ruas já absorveu o impacto da medida. Na Rua Uruguaiana, no Centro, numa das únicas araras de máscara à vista ontem, a promoção estava em letras garrafais: oito por R $10.
O camelô Wagner Júnior, de 24 anos, explicou que a pechincha é para tentar esvaziar o estoque, de pelo menos 250 peças, neste momento em que as vendas despencaram imediatamente após o anúncio do município. Até a hora do almoço de ontem, por volta das 13h, não tinha saído uma única mercadoria. Isso num ponto entre os melhores do Centro, entre o Saara e o Largo da Carioca, de onde normalmente ele só voltava para casa com até 70 máscaras vendidas.
— O preço de uma máscara já chegou a R $7. Enquanto tento acabar com o meu estoque, planejo mudar os produtos que ofereço. Penso em ter uma banca com fones de ouvido, carregadores de celular, ringlights… O problema é ter dinheiro para investir. Por enquanto, não tenho nada — afirma Wagner, que comprava o material de revendedoras e costureiras na Pavuna, na Zona Norte do Rio.
No Largo do Machado, na Zona Sul, o ambulante Jeferson Gaspar Ferreira, de 31 anos, diz que a esperança dele é que, ontem, grande parte dos pedestres ainda circulava com a proteção no rosto, inclusive nas ruas. Na opinião dele, a região de Largo do Machado, Laranjeiras, Catete e Flamengo é uma das que ele observa que mais pessoas seriam adeptas do acessório. Mesmo assim, Jeferson se prepara para a desaceleração das vendas. Anteontem, tinha terminado sua jornada com R $300 em vendas. Ontem, já sob efeito da decisão do município, não tinha faturado nem R $50 até as 14h.
Ele conta que, até então, a média de suas vendas girava exatamente perto dos R$ 300 por dia, sobretudo com as máscaras e, em menor medida, com borrifadores de álcool. Uma renda com a qual ele levou a vida, deu o suporte necessário para criar os três filhos e, inclusive, comprou um terreno no Catumbi, na região central da cidade.
— Antes, eu trabalhava com carteira assinada, como operador de máquina. Mas, no início da pandemia, fiquei desempregado. Separei um dinheiro para um investimento nas máscaras. Não foi bom perder o emprego e viver esses tempos de Covid-19. Mas a solução que eu encontrei para trabalhar me trouxe resultados – diz ele.
Por enquanto, Jeferson ainda não baixou o preço. São modelos diversificados, com estampas e tamanhos diferentes, que ele vende a R $5.
— Mas preciso mudar de negócio. Só não sei para o que vou migrar — dizia ele ontem, com algumas fantasias de carnaval dividindo espaço com as máscaras no expositor que carrega para a rua.
Na Rua Senador Dantas, perto da Cinelândia, as máscaras de Fabiano Souza dos Santos já custavam menos à clientela desde ontem: R$ 2, contra os R$ 3 de antes. Ele conta que há cerca de um mês e meio ele viajou pela última vez a São Paulo, para comprar a mercadoria na Rua 25 de Março, com fornecedores chineses, japoneses e peruanos. Agora, não volta mais. Até revendeu parte dos produtos que tinha para outros camelôs.
— Vendo outros produtos também. Mas a máscara deu um upgrade na renda. Deu para a família comer carne todo dia durante a pandemia. Esse a mais no orçamento acabou — dizia ele, que já não usava máscara ontem.
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