E agora, Brasil? País deve buscar espaço com os dois polos da nova ordem
RIO – A possibilidade de a guerra acelerar a divisão do mundo em dois polos novamente, um ocidental liderado por EUA e Europa, e outro oriental comandado por China e Rússia, gera um desafio para o Brasil, que tende a sair prejudicado em um processo de desglobalização, embora seja um dos menos afetados diretamente pelo conflito.
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Como explicou o ex-ministro Rubens Ricupero, assim como a Índia, que se recusou a seguir as sanções americanas e europeias contra a Rússia, o Brasil, hoje, tem interesses comerciais em todas as direções:
— Se essa nova Guerra Fria se instalar em definitivo, vamos ter que formular algo que nunca fizemos em nossa História. Uma estratégia em que os nossos valores políticos, diplomáticos e internacionais, inclusive o nosso sistema econômico, estarão fortemente ancorados no Ocidente, mas tentando preservar um espaço com a China e outros países.
Ricupero lembra que, na Guerra Fria entre EUA e União Soviética, os interesses geopolíticos do Brasil eram coincidentes com os econômicos e comerciais. Embora fosse um dos membros do chamado bloco de não alinhados, que tentavam não ficar completamente dependentes dos países ocidentais, quase não havia comércio com o bloco soviético. O mesmo não ocorre agora, já que o principal parceiro comercial do país é a China.
— O Brasil não tem nenhum interesse em se aliar com um ou com outro bloco. A divisão pode ser inevitável, mas não é desejável, e o governo brasileiro deve resistir o quanto puder para isso — disse Ricupero.
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Para ele, que é diplomata de carreira e esteve no Itamaraty desde o início dos anos 1960, embora a invasão da Ucrânia seja moralmente condenável, o posicionamento institucional do Brasil deve prezar pela defesa do restabelecimento do sistema internacional como era antes da guerra.
— Um país como o Brasil deve trabalhar para que se consiga logo um acordo de paz e, depois disso, que se desmantele todo esse mecanismo de sanções — afirmou. — Por exemplo, no caso do 5G (quando os EUA pressionaram o Brasil a vetar o uso de fornecedores chineses). Não queremos ser confrontados com a situação de que, se tivermos que escolher uma tecnologia mais barata, seremos castigados por um dos blocos porque isso tem implicações de segurança.
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