Sou negro, tenho nariz chato e cabelo pixaim, diz Walter Firmo, que abre exposição
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Para Walter Firmo, ser fotógrafo é trabalhar com as pessoas. Quase todas as imagens deste fotojornalista que fez história na imprensa brasileira expostas a partir de sábado (30,) no Instituto Moreira Salles de São Paulo, têm a presença humana, em poses que emprestam ar de dignidade aos personagens.
Seus retratados, contudo, são específicos. Firmo mirou suas lentes basicamente em negros durante sua longa carreira, que começou no final dos anos 1950, mostrando situações inusitadas, como carnavalescos dentro de um trem indo festejar, momentos do cotidiano, a exemplo de uma noiva numa favela de Salvador, e celebridades do samba, como Pixinguinha sentado numa cadeira de balanço com um saxofone no colo, que se tornaria sua foto mais conhecida.
O conjunto de 266 fotografias, muitas das quais em cores de alto contraste, uma marca de seu trabalho, se estende por dois andares do centro cultural paulistano, numa grande retrospectiva de sua carreira em cartaz até setembro.
Firmo aponta com a mão para a cor da sua pele, e afirma que algumas pessoas acham que ele “tem pouca tinta”. Mas ele diz se considerar negro ”eu tenho o nariz chato, os lábios grossos, cabelo pixaim, não me desqualifico”. A auto-observação vem em resposta à uma pergunta sobre como ele se interessou em fotografar a população negra, sua cultura e seu cotidiano.
O fotógrafo conta ainda que, quando crescia, ele se deu conta de uma insensibilidade do mundo em relação à cor da pele. Uma situação marcante se deu em 1968, quando recebeu um fax de um fotógrafo questionando por que a revista Manchete havia contratado um negro.
À época, Firmo era correspondente da revista em Nova York, momento no qual entrou em contato com o movimento de empoderamento da beleza negra “Black is Beautiful”, surgido num desfile de moda de mulheres negras no Harlem. Meses mais tarde, ele retornou ao Brasil com cabelo black power.
Para Janaína Damaceno, professora da UERJ e curadora-adjunta da exposição, o trabalho de Firmo é único pois ele é um homem negro de 84 anos que teve direito a olhar o Brasil. “A gente vive numa estrutura que não permite a circulação de pessoas negras como ele circulou. As pessoas negras sempre estiveram sob o regime de serem olhadas, vigiadas”, ela afirma, lembrando que ele fotografou negros em Cuba, nos Estados Unidos e de norte a sul do Brasil.
A mostra traz também uma seção dedicada a um trabalho premiado de Firmo na Amazônia, uma grande reportagem escrita e fotografada por ele intitulada “100 Dias na Amazônia de Ninguém”, publicada em série no Jornal do Brasil no início da década de 1960, quando ele tinha somente 20 e poucos anos, e que lhe rendeu o prêmio Esso de reportagem. Suas fotos em preto e branco mostram as paisagens, as disputas políticas da região e sua população, que incluía alguns de seus familiares.
Caminhando com a reportagem por essa seção, Firmo explica o seu conceito ideal de fotojornalismo, ao apontar para um retrato de seu pai sentado nas raízes de uma árvore à beira de um lago, na Amazônia. “Eu achava que o jornalismo não é só o avião em chamas que vai cair e matar todo mundo, o napalm na Guerra do Vietnã, o [edifício] Joelma pegando fogo. Acho que haveria também um tempo de estetizar a notícia, em que o homem que leria o jornal da manhã, talvez no seu café matinal, ele não tivesse o absurdo de estar sempre vivenciando o horror, a tragédia, o flagrante.”
A exposição evidencia seu método de trabalho calcado nas fotos encenadas. Há uma clara preocupação com as cores, a luz e a composição do quadro. Ele cita como inspiração David Zing, fotógrafo americano que fez carreira no Brasil, e o austríaco Ernst Haas, que, em meados do século 20, elevou o status da fotografia colorida num momento em que ela era tida como inferior à preto e branca.
“São duas linguagens diferentes. A cor é uma banda de música, né? É a batida do coração, toda a questão da essencialidade amorosa. O preto e branco eu acho que é uma linguagem mais do cérebro. Dizem que os cachorros veem em preto e branco pomba, não somos cachorros, não vamos afirmar isso”, ele diz.
Firmo reclama de certo preconceito com fotografias dirigidas, que para ele também são verdadeiras. Ele cita como exemplo a famosa imagem do beijo de um casal numa rua de Paris feita por Robert Doisneau os personagens eram atores, e o momento foi encenado numa tarde da capital francesa.
“É tão sublime que você não procura saber se aquilo foi armado de uma forma preconceituosa, ou se a vida está fluindo de uma forma real. A única verdade na fotografia é a foto de guerra.”
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