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‘Carro Rei’ ecoa ‘Titane’ com sexo automobilístico e uma reflexão sobre as máquinas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma mulher deita sobre o capô de um carro turbinado e se esfrega, sensual e fogosamente, contra ele. Ela cola seu rosto na lataria, escala a estrutura gélida e é tomada por uma onda inebriante de prazer. A cena poderia fazer parte de “Titane”, vencedor da Palma de Ouro do ano passado no Festival de Cannes, mas na verdade está no nacional “Carro Rei”, que chega aos cinemas nesta semana.

De mesma forma que o filme francês, o longa dirigido por Renata Pinheiro trata da relação entre humano e máquina e para isso usa, entre outras coisas, uma cena de sexo em que Mercedes -personagem de nome sugestivo e sotaque irrastreável- deseja amorosa e sexualmente o veículo que dá nome a “Carro Rei”.

Mas Pinheiro gosta de deixar claro que, em seu filme, o carro não é um fetiche como em “Titane”. Ele é um personagem completo, com sentimentos e motivações, e que dirige rumo a uma distopia que não está tão distante assim.

“Os filmes se assemelham por lidarem com o transumanismo”, diz ela sobre o conceito de que os humanos vão evoluir a partir da tecnologia, não mais pela biologia. “‘Carro Rei’ é uma observação da condição humana, de para onde a gente está indo”, continua Pinheiro.

“O carro se torna uma metáfora da própria tecnologia, de um fenômeno que vem ficando mais agressivo com as redes sociais, com tecnologias que até elegem presidentes. E, além disso, o carro é um símbolo de ascensão social, a ponto de se tornar uma extensão do corpo humano, por fazer com que as pessoas se sintam mais potentes.”

O longa começa com uma mulher grávida, no banco traseiro de um táxi, que precisa dar à luz ali mesmo depois que um acidente paralisa o trânsito. Dela nasce o protagonista, um garoto com a habilidade de falar com o veículo que serviu de maternidade para ele. Depois de anos rejeitando seu “superpoder”, ele decide abraçar essa habilidade, larga a faculdade de agroecologia e assume a cooperativa de táxis dos pais.

Com a ajuda do tio, papel de Matheus Nachtergaele, ele então moderniza toda a frota, acoplando a ela um dispositivo que permite que os carros conversem com qualquer um. Quando uma lei ameaça tirar de circulação os veículos mais velhos de Caruaru, em Pernambuco, ele passa a turbinar todos os carros à sua volta, metalizando a paisagem.

“O personagem do Matheus sofre uma involução, ele se torna mais selvagem à medida que se empodera. Ele é um homem-máquina que vai adquirindo gestos cada vez mais animalescos, mostrando que o apego à tecnologia nos torna menos humanos ou bondosos e mais individualistas.”

Pelo papel em “Carro Rei”, Nachtergaele venceu um prêmio especial no último Festival de Gramado. A ele se somaram outros quatro troféus arrematados pela produção -som, direção de arte, música e melhor filme. Pinheiro tinha expectativas nas categorias técnicas, mas conta que recebeu com choque a notícia de que vencera o prêmio principal do evento.

Segundo ela, que tem Steven Spielberg e seu “E.T.: O Extraterrestre” como referências, a escolha mostra que seu filme tem potencial de público, algo difícil de alcançar dentro do cinema mais independente que faz -são dela, por exemplo, o longa “Amor, Plástico e Barulho” e também o visual de “Tatuagem” e “Árido Movie”, feitos quando ela ainda atuava como diretora de arte.

Com o grande prêmio de Gramado debaixo do braço, ela agora prepara “Vago”, filme ainda em estágio inicial, mas que unirá Marcélia Cartaxo e Pedro Wagner numa trama sobre uma mulher de meia-idade que busca seu passado num dos bairros mais antigos do Recife, Boa Vista. Ela mergulha num emaranhado de referências a Clarice Lispector, que morou ali, num flerte com o gênero fantástico.

CARRO REI

Quando Estreia nesta quinta (30), nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Matheus Nachtergaele, Luciano Pedro Jr. e Jules Elting

Produção Brasil, 2021

Direção Renata Pinheiro

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