Ação acusa fundação ligada à igreja de R.R. Soares de ‘clima de terror’
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma entidade ligada à Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R. Soares, é alvo de uma ação civil pública proposta neste mês pelo MPT (Ministério Público do Trabalho).
Pairam sobre a FIC (Fundação Internacional de Comunicação), braço midiático da igreja neopentecostal, acusações de violência psicológica, discriminação por idade, gênero, raça e orientação sexual, imposição de padrões de beleza a funcionárias e diversas outras infrações trabalhistas.
Havia ainda uma orientação extraoficial para não contratar negros, mulheres acima de 50 anos e homossexuais para aparecerem no vídeo, de acordo com os procuradores.
Oito pessoas, entre ex e atuais funcionários, foram ouvidas para montar o inquérito que responsabiliza a gestão de Edjail Kalled Adib Antonio, diretor da FIC, pelo “clima de terror” instaurado por “olheiros do medo” no ambiente de trabalho, segundo a ação. A reportagem vai preservar o anonimato delas.
Acompanhado de um advogado, Kalled participou de uma videoconferência com a Procuradoria do Trabalho, em julho. Disse então que o que há são “alguns problemas com ex-funcionários que saíram porque a empresa andou passando por alguns reajustes, até para uma atualização, uma melhoria de ambiente de trabalho”, como consta em ata da audiência.
A reportagem tentou falar com Kalled ou algum advogado da fundação. De terça (9) a sexta (12), ligou todos os dias para a equipe jurídica da FIC e deixou recado. Não houve retorno. O jornal também enviou múltiplas mensagens para o celular de Kalled e de advogados ligados à Igreja da Graça. Não houve resposta.
Segundo o MPT, assédios também aconteciam sob a diretoria anterior, mas é Kalled quem concentra a maior parte das condutas abusivas. Sua administração conduz a rotina laboral na base de “gritos”, “humilhações” e “coações”, sem qualquer canal interno para denunciar esses abusos, diz a ação, que tramita na 30ª Vara do Trabalho de São Paulo.
Haveria, ainda, uma “caça interna para tentar identificar e perseguir aqueles que denunciam”. Ao menos um desses funcionários teria sido demitido.
Alguns exemplos atribuídos a Kalled: 1) regular a temperatura do estúdio para forçar uma apresentadora que não gostava a transpirar, acusando-a de estar “ansiosa” ou “nervosa”; 2) fazer comentários sobre “menopausa” e “calor”, “pele velha”, dizer que as “meninas estão com mais idade para aparecer em vídeo” ou que estão “cansados de uma mulher velha apresentando um jornal principal da noite”; 3) não contratar um estagiário pelo fato de ele ser negro; 4) afirmar que um profissional “se masturbava demais, pois suas mãos eram extremamente amarelas”, quando o mesmo reclamou da baixa temperatura na sala.
O ar-condicionado, aliás, teria motivado brigas que levaram Kalled a instalar cadeados nas janelas do prédio em plena pandemia, disseram depoentes. Seria uma forma de manter o imóvel sempre gelado, sem circulação de ar, para conservar equipamentos técnicos que dividiam espaço com os jornalistas e precisavam de temperaturas mais frias.
Diz um dos relatos: “Kalled falava amplamente que qualquer pessoa que tentasse desligar o ar-condicionado seria demitida por justa causa”, e que “as pessoas ficaram incomodadas, muitas usavam um cachecol na cabeça, usavam muitas e muitas blusas”. Outro: “Eu tenho a sensação de estar em cárcere privado quando vejo os cadeados, […] num eventual incêndio aqui dentro, como é que vamos sair?”.
Circularia, nos corredores da fundação, a norma velada para que “homens, se forem gays, que sejam discretos”. Um coordenador de jornalismo teria dito a um funcionário que ele era “tanga frouxa, se referindo a uma pessoa mais afeminada, uma pessoa mais delicada no trato”, segundo esse mesmo profissional ouvido pelo MPT.
As mulheres narram uma cobrança estética que resvala para o assédio moral. Kalled, dizem elas, fazia comentários em público que incitavam a competição interna. Coisas do tipo “tem que mandar essa menina pintar o cabelo”, ou “a pele daquela outra está muito velha para ficar no vídeo”.
Uma colega diz que uma jornalista começou a tomar remédio psiquiátrico após Kalled lhe dizer que deveria desistir da apresentação porque era ruim naquilo, e também que ela tinha entrado na menopausa, por julgá-la velha demais para a função.
A proporção de equipe medicada teria aumentado sob o novo gestor. Afirmando sentirem-se sobrecarregados e acumular tarefas não previstas em seus contratos, trabalhadores relataram “esgotamento físico e psicológico, transtorno generalizado de ansiedade e síndrome de burnout e do pânico”, de acordo com a ação. Uma das funcionárias afirmou estar tomando rivotril, oxalato de escitalopram e zolpidem para poder dormir, “porque a vida dela virou um inferno”.
Impera, segundo os empregados, um clima de vigília constante na FIC. Eles “se sentem no Big Brother” e a toda hora são lembrados de que há “câmeras em tudo o que é lugar, se fizer alguma coisa errada é advertência”, afirma o MPT. Uma ficava num ambiente feminino, “sem que as funcionárias soubessem”.
A ação, a cargo da procuradora do Trabalho Elisa Maria Brant de Carvalho Malta, pede R$ 500 mil de indenização e diz que, mesmo a par “das irregularidades identificadas pelo MPT, […] a ré nada fez para sanar os ilícitos”.
O juiz que cuida do caso deverá decidir, como próximo passo, se concede uma liminar para obrigar a FIC a se adequar a várias exigências legais. Uma delas é se abster de cometer atos que impliquem em discriminação e ridicularização “por meio, por exemplo, de anedotas ou estereótipos ofensivos, especialmente em relação à aparência estética, atributos físicos e/ou idade (etarismo)”.
Outra: que a empresa não tolere mais assédio moral, discriminação e qualquer tipo de perseguição, conferindo aos seus contratados “tratamento respeitoso e dentro dos limites de cordialidade
que deve estar presente nas relações de trabalho”.
Um exemplo prático de conduta a ser seguida: parar de exigir dos funcionários acessórios, roupas, maquiagem ou penteado de cabelo específicos sem lhes conceder os itens cobrados.
Na audiência de julho com o MPT, a defesa diz que profissionais antigos não estavam “se adequando muito às novas rotinas que foram impostas até mesmo para uma melhoria para o local de trabalho e para que a empresa pudesse também atender melhor o fim dela”. O advogado propõe que o Ministério Público vá ao local “para verificar como é a realidade da empresa”, porque o teor da ação “ficou uma coisa muito parcial”.
Kalled nega alguns pontos, como a suposta presença de uma câmera no banheiro. Malta, a procuradora do caso, questionou a ré sobre a assinatura de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), que é um compromisso para que a parte investigada se adapte às leis trabalhistas. O advogado respondeu “que realmente a empresa discorda um pouco do que aconteceu” e que, se ela ratificar o TAC, “está assumindo uma culpa de algo que não cometeu”.
A fundação cuida da RIT (Rede Internacional de Televisão), com presença na internet e na TV aberta e paga. Na grade, atrações como “Redação RIT”, “Jornal das 22” e mais uma penca de conteúdos abertamente proselitistas.
O “Show da Fé”, apresentado pelo dono da igreja, R.R. Soares, é o carro-chefe da programação. Na tarde de quarta-feira (10), um dos programas, “Consulta ao Doutor”, discutia o tema da saúde mental no trabalho.
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