Lula e Bolsonaro intensificam troca de ataques, e fake news ganham tração na campanha
Marcado por ataques e por desinformação, tendo como principais alvos o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) em episódios alimentados pelos próprios candidatos que lideram as pesquisas, o início da campanha presidencial já motiva ofensivas no campo jurídico e nas redes sociais. Ontem, a campanha de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a derrubada de publicações em 67 perfis, incluindo o do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que divulgaram um outdoor atribuindo à esquerda bandeiras como “bandido solto” e “narcotráfico”.
Nos últimos dias, em meio ao incremento do valor do Auxílio Brasil, o ex-presidente endossou declarações de que o “auxílio emergencial” acabaria em dezembro caso o atual presidente se reeleja. Bolsonaro, por sua vez, fez publicações ontem em suas redes nas quais associou Lula à “perseguição de cristãos” e “liberação das drogas e do aborto”.
Para analistas, o belicismo dos primeiros dias da campanha segue o comportamento apresentado pelos candidatos na pré-campanha, e representa um tom de confronto excessivo, na contramão de estratégias adotadas por presidenciáveis em anos anteriores.
O acirramento de discursos adotados pelas campanhas de Lula e de Bolsonaro tem levado o debate eleitoral à esfera jurídica. O pedido da campanha do PT pela derrubada de publicações que retratam um outdoor em Porto Alegre, com referência indireta a “dois lados” que estariam disputando as eleições e o futuro do país, veio após uma decisão dada na segunda-feira pelo juiz Márcio André Keppler Fraga, da 113ª Zona Eleitoral da capital gaúcha, na qual ordenou a remoção da propaganda.
Em sua decisão, Fraga avaliou que “de forma indireta ou difusa, presente está o viés eleitoral” no outdoor, o que tornaria o material um exemplo de propaganda irregular — já que foi instalado antes de terça-feira, data do início oficial da campanha, além do fato de a legislação eleitoral não permitir uso de outdoors.
Na representação, a equipe de Lula argumentou que a peça “configura propaganda antecipada negativa, fazendo uso de informação sabidamente inverídica” ao associar a esquerda ao crime organizado.
Atuação enérgica
O grupo Prerrogativas pretende levar na próxima semana ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, um documento com exemplos de mais de cem outdoors, espalhados por estados como São Paulo e Goiás, com conteúdo semelhante. Além de pedir remoção das peças, o advogado Marco Aurélio Carvalho diz que o grupo vai sugerir ao TSE que estabeleça um protocolo para garantir a retirada “enérgica e rápida” sempre que esse tipo de material for detectado:
— A desinformação nem sempre se dá através de fake news. Esses outdoors têm uma linguagem comum, o que indica uma produção centralizada. Isso pode significar prática de abuso do poder econômico, o que não está sendo devidamente apurado.
Aliados de Bolsonaro, por sua vez, criticaram a campanha de Lula por uma live na última sexta, divulgada pelo ex-presidente, na qual o deputado federal André Janones (Avante-MG) afirmou que “o auxílio emergencial acaba em dezembro”. Janones também afirmou ter tido acesso “com exclusividade” ao programa de governo de Bolsonaro, no qual o presidente não garantiria manter o valor do Auxílio Brasil em R$ 600 a partir de janeiro. O deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) afirmou que fará uma representação contra Janones no TSE “por estar gerando essa fake news” contra Bolsonaro.
Ao endossar o discurso de Janones, Lula afirmou em suas redes que o deputado fazia um “alerta” sobre o tema, e o agradeceu “pelo apoio”. Na terça-feira, Lula voltou a subir o tom contra Bolsonaro e disse que o presidente é “possuído pelo demônio”.
Para o publicitário Marcelo Victorino, que atuou na campanha de Geraldo Alckmin pelo PSDB em 2018, a concentração de ataques entre Lula e Bolsonaro atrapalha o crescimento de outros candidatos e também leva a uma antecipação de um cenário de segundo turno, polarizado, o que poderia definir a eleição já no primeiro turno. Vitorino avalia, porém, que o afastamento da campanha do PT do perfil “Lulinha paz e amor” adotado em sua primeira vitória presidencial, em 2002, pode afastar o “eleitor médio” do petista:
— Bolsonaro tem uma reputação de enfrentamento, não pode fugir a essa lógica. Lula poderia agir de forma pacificadora para marcar uma antítese em relação a isso.
Ontem, Bolsonaro associou Lula nas redes sociais a lideranças de países como a Nicarágua, que “persegue cristãos”, e a pautas como a “liberação das drogas e do aborto”. O discurso do presidente ecoou declarações dadas no fim de semana por lideranças evangélicas, como o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), que sugeriu que um governo petista fecharia igrejas.
Na última semana, parlamentares petistas usaram uma foto da primeira-dama Michelle Bolsonaro ao lado de Juliana Lacerda, mulher de Guilherme de Pádua — hoje pastor evangélico, condenado pelo assassinato da atriz Daniela Perez na década de 1990 — para sugerir uma relação próxima entre ele e Bolsonaro. O presidente disse sequer conhecer Guilherme e que Michelle foi chamada para a foto sem saber de quem se tratava. (Colaborou Julia Noia)
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