Vinda de coração de D. Pedro I gera cuidados e críticas: pressurização, umidade e temperatura preocupam
Após ter sido mergulhado em uma solução de formol, conservado dentro de um cálice revestido de mogno, e guardado literalmente a cinco chaves em um sarcófago da Igreja da Lapa, no Porto, em Portugal, há 187 anos, o coração de Dom Pedro I vai cruzar o Atlântico. O resto mortal será o grande símbolo das comemorações do Bicentenário da Independência. A pedido do governo brasileiro, o órgão foi autorizado a deixar a cidade escolhida pelo imperador para abrigá-lo após sua morte e chegará na segunda-feira em avião da FAB. A relíquia é tão cara aos portugueses que será acompanhada 24 horas pelo chefe de polícia do Porto. Do ponto de vista técnico, de acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, a grande preocupação é com a pressurização do voo — que pode alterar o estado do material já bastante antigo — e as condições de umidade e temperatura do espaço no Palácio Itamaraty, em Brasília, onde o coração ficará exposto a partir desta terça-feira.
Não será a primeira vez que um pedaço do corpo do primeiro imperador brasileiro, que declarou a independência do país de Portugal, será usada para celebrar o Sete de Setembro. Em 1972, nos 150 anos da Independência e durante a ditadura, o governo Médici conseguiu, em um acordo com a ditadura salazarista portuguesa, trazer os ossos de Pedro I para um périplo que começou no Rio de Janeiro, passou pelas principais capitais e terminou somente cinco meses depois, em São Paulo. Os despojos foram para a cripta da Capela Imperial, no Monumento à Independência, na capital paulista (a sepultura definitiva foi apenas em 1976, porque o caixão de pinho português era maior que o sarcófago da capela do museu).
A jornada do coração de Pedro I — ou Pedro IV, título com que morreu em Portugal, é cercada de sigilo. Depois de um primeiro momento de indecisão, a Câmara Municipal do Porto aprovou por unanimidade o pedido feito pelo presidente Jair Bolsonaro. Mas Rui Moreira, político de direita que preside a Câmara Municipal do Porto, com função equivalente a de um prefeito, tem respondido a insinuações de que o empréstimo seria uma forma de apoio a Bolsonaro.
Desde 1835, o coração nunca saiu do Porto e só poucas vezes foi visto, devido à sua fragilidade e seu valor inestimável. Médico-legista há mais de 40 anos, Nelson José Almeida Pingas, de 76 anos, que estudou na Universidade do Porto, destaca que os peritos portugueses, extremamente técnicos e cautelosos, devem ter submetido o traslado a um rígido planejamento, mas isso não elimina completamente os riscos.
— É preciso entender como o avião da FAB fará o transporte, qual a pressurização e a temperatura ambiente que precisam ser respeitadas — diz. — Fui várias vezes à Igreja da Lapa, e você não vê o coração. Só em condições especialíssimas.
Caixa especial
Os portugueses se comprometeram a fabricar a caixa especial para o transporte do órgão e a vitrine em que ficará exposto. A negociação foi feita nos últimos meses por uma comissão do Ministério das Relações Exteriores coordenada pelo embaixador George Prata e acompanhada em Portugal pelo embaixador Francisco Ribeiro Telles.
Mas a médica oncologista Nise Yamaguchi diz que teve a ideia de trazer a preciosidade, como uma mensagem do liberalismo que marcava a personalidade do imperador. Nise ficou conhecida ao defender na CPI da Pandemia do Senado, no ano passado, tratamentos defendido pelo presidente Jair Bolsonaro contra a doença, como o uso da hidroxicloroquina, mesmo contra a indicação da Organização Mundial da Saúde.
— Dei o primeiro passo para tornar isso possível. Falei com o presidente Bolsonaro — contou Nise, acrescentando que também acionou a Família Real para ajudá-la a trazer o órgão.
O coração de Dom Pedro será recebido com honras de chefe de estado. O embaixador George Prata afirmou que os cuidados serão redobrados para garantir a segurança e a integridade do órgão, mas não revelou os gastos feitos para a viagem.
— Creio que os custos não serão muito maiores do que quando o Brasil recebe visita de chefe de Estado estrangeiro — comparou.
O sinal verde para a saída do coração do Porto dentro de uma câmara pressurizada passou pelo crivo de equipes de peritos do Instituto Médico- Legal do Porto, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. E de outros especialistas em medicina legal, anatomia, patologia, histologia, genética e biologia forense e toxicologia forense.
O médico cardiologista e professor da PUC-RJ Fernando Oswaldo Rangel alerta que um coração bicentenário exige meticulosa conduta técnica para ser mantido e deslocado:
— É preciso uma técnica de conservação muito apurada, com temperatura e pressão adequadas dentro da caixa e cuidados para evitar movimentos bruscos.
Professor da Faculdade de Letras do Porto e ex-dirigente do partido Bloco de Esquerda, o sociólogo João Teixeira Lopes é uma das vozes contra o empréstimo.
— Me parece algo até necrófago e nada tem ver com o futuro das novas gerações. Principalmente, me parece que enviar o coração serve aos intentos de Bolsonaro, em plena pré-campanha eleitoral. Acho que se Dom Pedro fosse vivo, estaria dando voltas no túmulo e ia querer ficar com seu coração agarrado a si — alfineta.
Rui Moreira diz que ver no empréstimo interesse político é “pura má-fé”. Disputas políticas à parte, a novidade pegou de surpresa quem tem alguma intimidade com o assunto.
“Esquisitíssimo”
A cineasta Laís Bodanzky, que dirige o filme “A Viagem de Pedro”, estrelado por Cauã Reymond, conta que esteve no Porto em maio, quando começaram as especulações sobre a vinda do coração, e conta ter se impressionado com o que ouviu de um funcionário da instituição religiosa que tem a guarda do órgão.
— Ele disse que achava estranhíssimo, porque o coração está embebido em um líquido especial. Ele me descreveu que era como se fosse um pedaço de pão muito molhado, que se desmancha aos poucos. Precisa ficar isolado da luz e de qualquer movimento brusco, que poderiam fazer até com que ele se desfizesse — recorda-se. — Do ponto de vista científico, não faz sentido, e do ponto de vista simbólico, menos ainda. Foi um pedido de Dom Pedro que o órgão ficasse na cidade do Porto, onde ele travou uma guerra quixotesca contra o exército do irmão, dez vezes maior.
O jornalista Laurentino Gomes, autor dos livros “1808”, “1822” e “1889”, sobre a chegada da corte portuguesa, a Independência e a Proclamação da República, concorda:
— É um gesto atabalhoado, improvisado. Esse governo faz tudo sem planejamento e, agora, faltando um mês para o bicentenário, não existe sequer um programa organizado. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer com esse coração — diz, destacando que Dom Pedro foi um soberano corajoso, que outorgou sozinho a Constituição de 1824, uma das mais liberais do mundo na época.
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