Restrições alimentares pautam negócios: sem glúten, sem lactose, sem carne e mais opções
Mais de um terço (36%) da população global têm alguma alergia ou intolerância alimentar, e seis em cada dez pessoas (64%) seguem uma dieta que limita ou proíbe o consumo de alguns alimentos ou ingredientes, segundo a última pesquisa feita pela Nielsen sobre o tema, em 2016. Seja por proibição médica ou estilo de vida, tendo alguma restrição alimentar, nem sempre é fácil entender o que se pode ou não consumir. Para facilitar o dia a dia dessas pessoas, a Ilergic é uma plataforma que permite a 14 perfis restritivos identificar se mais de 50 mil produtos industrializados são liberados nas suas condições.
— As pessoas que possuem restrições alimentares configuram seu perfil restritivo na plataforma, e a Ilergic analisa milhares de informações de rótulos de produtos de forma automática, conseguindo indicar o nível de risco de consumir um determinado produto. A identificação dos componentes que podem ser prejudiciais é feita com base em informações coletadas de pesquisas científicas e de profissionais de Saúde parceiros. E nosso algoritmo automatiza o processo de análise dos rótulos. Para os usuários, a plataforma é gratuita — conta Hemerson Schenato, CEO da Ilergic, apresentada durante o Startup Summit, evento realizado este mês em Florianópolis e que o EXTRA conferiu a convite do Sebrae.
A cada dia a plataforma tem mais boas notícias a dar. Isto porque produzir para atender demandas de quem tem restrição alimentar entrou no planejamento das grandes empresas. Mas não só delas.
— Há uma tendência de pequenos empreendedores colocarem nos seus cardápios opções para as pessoas celíacas, com restrição à lactose, veganas ou já direcionarem os negócios exclusivamente para esses nichos. E é um mercado com muito potencial para expandir nos dois próximos anos — avalia a analista do Sebrae Rio Louise Nogueira.
Vanessa Ribeiro começou há oito anos a estudar receitas alternativas, após descobrir ser celíaca — doença auto-imune caracterizada pela intolerância permanente ao glúten presente nos alimentos.
— Comecei a fazer pão para mim, pois na época não tinha opções no mercado. Aí amigos experimentavam e queriam comprar. Passei a vender para pessoas próximas, depois a fornecer e, em 2019, surgiu a chance de abrir uma padaria — conta ela, que é dona da Vá sem Glúten, que só vende produtos sem glúten e lactose, no Recreio dos Bandeirantes.
Feira vegana cresce
Ysis Neves é organizadora da feira Veg Borá, que acontece uma vez por mês, de forma itinerante, na cidade do Rio. O veganismo é uma escolha dela também e vai além dos hábitos alimentares: impacta decisões de consumo de vestimentas e cosméticos, por exemplo, a fim de proteger os animais de qualquer exploração. Mas se antes, ao sair na rua, ela só encontrava batata frita pra comer, hoje as opções são variadas: refeições completas, salgadinhos, hambúrgueres, doces, sorvetes, cerveja artesanal. E na feira, grande parte das ofertas é de microempreendedores individuais (MEIs).
— A feira começou com 14 barraquinhas. Na metade do evento, acabava tudo que tinha pra comer. E a gente sentia muito a carência dos veganos de não ter fora dali muitas opções. Mas isso mudou. Antes da pandemia, a feira já acontecia com 60 barraquinhas — lembra.
Na pandemia, muitos negócios não rexistiram. E, atualmente, a feira tem cerca de 40 empreendedores. O evento, revela Ysis, acaba atendendo uma maioria de curiosos, o que demonstra o potencial de crescimento do nicho.
Grandes marcas atentas
Além das pessoas que não comem carnes e produtos em geral de origem animal, há aqueles que desejam reduzir o consumo. Os flexitarianos viraram alvo de grandes marcas, que têm apostado no plant-based — categoria que, em 2021, cresceu 52% no mercado brasileiro.
As opções vegetais surgem em extensões do portifólio de marcas tradicionais, como no caso de Nestlé — que lançou, por exemplo, o leite condensado Moça versão vegetal, produzido à base de arroz e naturalmente sem lactose.
— O desenvolvimento de produtos à base de plantas (que conseguem textura e sabor similares às dos itens de origem animal) é globalmente estratégico para a empresa. Iniciamos os lançamentos com as nossas marcas mais tradicionais: Moça, Molico, Nutren Veg Protein e Nescafé Dolce Gusto ganharam versões à base de plantas — explica Bárbara Sapunar, Diretora de Sustentabilidade, Comunicação e Branding na Nestlé Brasil.
Mas também já há marcas inteiramente focadas nos plant-based. A Incrível, que já foi uma linha de produtos plant-based de Seara, se tornou em 2020 uma marca própria do grupo JBS. O consumo das proteínas vegetais congeladas da marca, que vende versões vegetais de kibe e isca de peixe, por exemplo, cresceu 25% no último ano.
— Incluímos no portfólio itens comuns ao cardápio do brasileiro em versões plant-based, para que o consumidor coma o que gosta e a que está acostumado mas, produzido a partir da proteína vegetal — diz a diretora de Marketing da Incrível, Camille Lau.
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