Bolsonaristas contam com rede de advogados, youtubers e caminhoneiros para ter ‘força total’ no 7 de setembro
Aliados de Jair Bolsonaro (PL) envolvidos na organização das manifestações de 7 de setembro esperam contar com uma diversa rede de militantes no evento que consideram decisivo para os planos do presidente.
Grupos de advogados, empresários, youtubers e caminhoneiros estão em contato com o entorno do presidente. Ainda que Bolsonaro baixe o tom da radicalização no discurso, eles avaliam que o evento é central para a continuação do presidente no poder.
Mote do ato, a defesa da “transparência nas eleições” é embalada por uma crítica ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao sistema eleitoral brasileiro, alicerçado nas urnas eletrônicas em funcionamento desde o pleito de 1996.
Nos bastidores, bolsonaristas esperam que a manifestação dê força aos questionamentos feitos pelas Forças Armadas à Justiça Eleitoral.
Um grupo de advogados está se organizando para oferecer ajuda jurídica a quaisquer militantes que enfrentem processos a partir do evento de setembro, de acordo com um aliado de Bolsonaro.
A ideia é garantir retaguarda jurídica contra um novo “caso Zé Trovão”, em referência ao apoiador de Bolsonaro que foi alvo de investigação por suspeita de organizar atos antidemocráticos no ano passado.
No início do mês, um grupo de advogados bolsonaristas, liderados por Paulo Mafiolletti e Flávia Ferronato, articulou um encontro com o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edson Fachin. Eles defendem o direito de “criticar e questionar” o processo eleitoral sem serem tachados de “negacionistas eleitorais”.
Chamado Movimento Advogados de Direita Brasil, o grupo reuniu quase 900 mil assinaturas de apoiadores do presidente para fazer frente ao manifesto em defesa da democracia elaborado pela Faculdade de Direito da USP. Eles devem participar do 7 de Setembro, mas negam que vão oferecer amparo jurídico gratuito a qualquer pessoa.
A convocação conta com a expressão de youtubers como Gustavo Gayer, Bárbara Destefani (do canal Te Atualizei), Mauro Fagundes, Ed Raposo e Kim Paim.
Juntos, eles têm mais de 4 milhões de seguidores no YouTube e são considerados peças-chave na mobilização em torno das pautas de Bolsonaro.
Em seu canal, Raposo tem divulgado uma chave Pix para ajudar a arrecadar recursos para a realização dos eventos. O CNPJ do destinatário é o Instituto Intelectos, cujo sócio é Alan Lopes, candidato a deputado estadual pelo PL do Rio de Janeiro.
Os caminhoneiros que viajaram até Brasília no 7 de setembro do ano passado e tentaram furar o cerco da polícia para chegar até o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) também se articulam.
Eles entraram em contato com aliados do presidente e esperam sinalizações de como agir no evento, segundo organizadores.
A categoria deve se concentrar no ato da capital federal, já que a Esplanada dos Ministérios é mais acessível para veículos pesados em comparação com a Avenida Paulista, onde costumam ocorrer os protestos em São Paulo.
Em 2021, bolsonaristas bloquearam a Esplanada com pedidos de destituição dos ministros do STF e ameaçaram invadir a pista que dá acesso ao prédio do Tribunal. A Polícia Federal identificou donos de 176 veículos que participaram do ato, dos quais 64 caminhões, quatro tratores e 91 carros comuns, além de ônibus alugados.
Em São Paulo, ao contrário do que aconteceu no ano passado, quando a multidão se concentrou no cruzamento da Paulista com a rua Peixoto Gomide, a ideia agora é ter os caminhões de som mais distribuídos ao longo da avenida para espalhar a multidão e “ter uma melhor fotografia da manifestação”.
O GLOBO identificou dezenas de caravanas de ônibus, micro-ônibus e vans sendo organizadas do interior do estado para a capital paulista. Alguns dos articuladores são os mesmos do ano passado.
Uma das recomendações do militante que organiza as caravanas é que os manifestantes levem faixas “em inglês, espanhol e francês, por exemplo, ‘we trust Armed Forces'”: “Lembrem-se: não é uma festa, estamos indo lutar pela nossa liberdade e contra o comunismo!”, diz o documento que circula em grupos bolsonaristas do Telegram
Uma pessoa do entorno do presidente envolvida nos atos relata que precisou pedir à militância para não comparecer ao evento com cartazes pedindo o fechamento do STF, o que já estava nos planos.
A orientação é que mensagens mais “moderadas”, como apoio às Forças Armadas, sejam levadas no lugar, de preferência escritas em outros idiomas.
No entanto, esse aliado diz que “não tem como controlar” os manifestantes que quiserem seguir adiante com demandas explicitamente golpistas.
Na estreia de sua campanha eleitoral em Juiz de Fora (MG), na terça-feira, Bolsonaro conclamou novamente seus apoiadores a irem às ruas no 7 de setembro. Ele afirmou que o objetivo é se manifestar “no primeiro momento pela nossa independência” e, “em um segundo momento, pela garantia da nossa liberdade”.
No dia seguinte, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), afirmou que o desfile cívico do feriado deste ano não será realizado na Avenida Presidente Vargas, como de costume, e nem na Avenida Atlântica, em Copacabana, como chegou a ser anunciado por Bolsonaro.
Em vez do tradicional cortejo em terra, serão realizadas apresentações da Marinha e da Aeronáutica no mar e no espaço aéreo de Copacabana, de acordo com o prefeito.
Um dos organizadores das manifestações pró-Bolsonaro em São Paulo, o empresário Tomé Abduch afirma que os atos serão pacíficos, democráticos e não pregarão rupturas. Ele é porta-voz do NasRuas, grupo de direita antigamente liderado pela deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) e que deve contar com a ajuda de outros grupos, como o Avança Brasil e o República de Curitiba, para organizar os protestos.
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