Mostra expõe obras inéditas de Geraldo de Barros e realiza preceito do artista
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um quadrado é dividido em seis partes iguais por linhas que partem das posições vertical e horizontal. Dos pequenos quadrados que se formam, puxamos diagonais, dez no total, para obtermos três cubos com lados comuns. Os três quadrados que surgem dos cubos só podem ser preenchidos com cores do disco de Newton –vermelho, laranja, azul, anil e violeta.
A orientação é dada por Geraldo de Barros logo abaixo de um dos cinco projetos reproduzidos no manifesto “Da Retomada de Alguns Objetos-Forma da Arte Concreta”, escrito para a 15ª Bienal de São Paulo, em 1979.
Naquela mostra, Barros expôs o resultado dos projetos –cinco pinturas a óleo sobre madeira laqueada. Em que pese seu rigor geométrico, o artista oferecia ali um manual de instruções para que o espectador pudesse reproduzir cada uma das obras.
Agora, a galeria paulistana Luciana Brito realiza, enfim, os preceitos deixados por Barros. A mostra “Objetos-Forma” expõe 66 serigrafias inéditas, produzidas em parceria com a casa italiana Dipcontemporary Art. Seguindo as orientações previstas naquele manual, as reproduções esgotam todas as possibilidades formais e cromáticas de cada um dos projetos.
“Ele continua disciplinado nessas obras da Bienal, mas com maior liberdade, como podemos observar na combinação de cores”, afirma Luciana Brito.
A Bienal de 1979, conhecida como a “Bienal das bienais”, propunha uma revisão das 14 edições passadas. Nesse sentido, Barros, que em 1966 aderiu à arte pop do Grupo Rex, resolveu voltar ao construtivismo com um novo intuito. Prevendo a reprodução de seus trabalhos, Barros tinha o objetivo de abolir a ideia de “objeto único”, democratizando o acesso do espectador à arte.
O artista, pretenso criador, via novamente sua aura desaparecer. As formas ainda constituíam em si todo o sentido das composições, mas agora seriam passíveis de reprodução, eram “objetos-forma” autônomos.
No manual, o público também encontra algumas equações com os ideais estéticos do artista, entre elas “Industrial Design + Norma + Gestalt = Arte Concreta” ou “Norma + Produto = O Bom Produto”. Ele indicava ali sua filiação ao desenho industrial e à funcionalidade preconizada pela Bauhaus, a célebre escola de arte e design da Alemanha.
Ainda na década de 1950, o artista havia fundado, em parceria com o frei João Batista, a cooperativa Unilabor, fábrica de móveis com gestão operária e partilha de lucros entre os funcionários. A geometria não estava, portanto, apartada das necessidades do povo. Depois, em 1964, Barros criou ainda a Hobjeto Móveis, com Antônio Bioni, marceneiro da antiga cooperativa.
Em 1970, ele chega a abolir o uso da tinta, passando a adotar só a fórmica em seus trabalhos. Não deixa de ser um percurso curioso para um artista que iniciou a carreira na pintura figurativa e descobriu a fotografia expressionista antes de ser um dos integrantes do Grupo Ruptura, pioneiro do concretismo no país -além de passar aquela temporada como artista pop.
Nesse contexto, a mostra “Objetos-Forma” ilumina um momento em que Barros examinava seus próprios procedimentos, abrigando também pinturas concretistas e trabalhos mais recentes em fórmica. “Ele é um artista muito coerente, sobretudo no aspecto de composição das obras, é uma coerência conceitual”, diz Brito.
No manifesto da Bienal, ele definiu seu projeto artístico. “Um quadro que fosse seu próprio objeto/ um quadro que fosse seu próprio objeto de ser/ um quadro que fosse seu próprio objeto de ser pintura/ objetos-forma”, escreveu o artista.
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