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Esquerda do Rio admite que subestimou força do bolsonarismo e reavalia estratégias após derrota

Apesar de a esquerda fluminense ter aumentado suas bancadas de deputados estaduais e federais, a nova derrota em disputas majoritárias nas eleições no Rio de Janeiro acendeu um sinal de alerta no campo. Enquanto se mobilizam para fortalecer a campanha do ex-presidente Lula (PT) no estado, lideranças políticas de partidos como PT, PSB, PSOL, PCdoB e PDT avaliam que subestimaram a força de candidaturas bolsonaristas e seguem à deriva sobre estratégias para eleições futuras.

Após o anúncio da reeleição em primeiro turno de Cláudio Castro (PL) para o governo do Rio, com 58,63% dos votos, Marcelo Freixo (PSB) apareceu visivelmente abatido na coletiva de imprensa para um balanço no último domingo.

— Todos nós erramos. É uma grande lição. Todos nós erramos de enxergar um Brasil que jurávamos que não ia repetir 2018. Nenhum de nós imaginava que um projeto de extrema-direita tivesse ainda tanta força — disse Freixo, que chegou a 27,43% dos votos.

A derrota veio mesmo com o amplo arco de alianças que Freixo conquistou, juntando siglas de esquerda com a centro-direita de seu vice, Cesar Maia (PSDB), além do Cidadania. A caminhada ao centro político do ex-PSOL não resultou numa diminuição da sua taxa de rejeição. Além disso, não foi páreo para a reeleição de Castro, turbinada pela força da máquina estadual.

Adversário de Freixo na esquerda, Rodrigo Neves (PDT), que teve apenas 8% dos votos, defende que uma outra configuração da chapa poderia ter alcançado resultados melhores. Apesar de não ter emplacado mesmo com o apoio do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), ele acredita que uma frente em torno de seu nome poderia ter tido mais sucesso:

— A fragmentação com candidaturas que não tinham perfil adequado ao cargo em disputa acabou prejudicando. Freixo candidato a senador certamente seria eleito.

No Senado, a esquerda também se dividiu com Alessandro Molon (PSB) chegando a 21,20% dos votos, enquanto André Ceciliano (PT) marcou 12,08%. Romário (PL) conquistou a vaga com 29,19%.

A campanha do pessebista acredita que com uma candidatura única os votos de Ceciliano migrariam para Molon garantindo chances dele vencer Romário. Por outro lado, no cálculo do PT, grande parte dos votos do petista não foi de eleitores de esquerda e poderiam ir para outros candidatos.

Com o fim da disputa, Ceciliano colocou panos quentes na rivalidade e convidou Molon para participar diretamente da campanha de Lula no Rio. Na noite de quinta-feira, eles estavam juntos no palco do Circo Voador numa plenária para mobilizar a militância.

Já na Câmara e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj), cresceu o número de parlamentares fluminenses de partidos de esquerda. Neste ano foram eleitos 13 deputados federais, contra 8 em 2018. Na Alerj serão 17, contra 13 da legislatura anterior.

— O Rio retomou vagas que tinha perdido. Mas há um submundo do bolsonarismo no Rio que sequer aparecia nas pesquisas — diz a deputada federal Talíria Petrone (PSOL).

Após derrota na disputa pela reeleição ao Senado em 2018, Lindbergh Farias (PT) foi o petista mais votado entre os cinco eleitos à Câmara. Ele credita a dificuldade da esquerda no pleito majoritário à mudança de perfil do eleitor, em especial na Baixada Fluminense:

— O mapa de votação da Baixada antes de 2018 era parecido com o Nordeste, favorável ao PT. Chegamos a ter quatro prefeitos lá. Nos últimos anos mudou, principalmente com o crescimento dos evangélicos nessa região, com quem precisamos dialogar melhor.

Sem Freixo e Molon, a deputada estadual Renata Souza (PSOL) chama atenção para uma transição:

— Há uma mudança de perfil de gênero, classe e raça. Minha vitória e da Talíria provam que há uma demanda represada entre o eleitorado de mulheres que fazem política com firmeza.

Com futuro incerto, Freixo é visto como nome para ocupar um cargo num eventual governo Lula, enquanto Molon é cotado para disputar a Prefeitura do Rio em 2024, assim como nomes do PSOL como Tarcísio Motta e Renata Souza. Existem alas da esquerda que defendem uma aproximação com Paes, caso uma candidatura forte do bolsonarismo se apresente no próximo pleito.