Eleição de 2018 teve virada no 2º turno presidencial em apenas 3% das cidades
SÃO PAULO, SP, E SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – Viradas entre o primeiro e o segundo turno, como as que Jair Bolsonaro (PL) precisa para superar Lula (PT) em 2022, são incomuns e há quatro anos aconteceram em apenas 3% dos municípios brasileiros.
No pleito de 2018, quando Bolsonaro ganhou de Fernando Haddad (PT), somente 147 das 5.570 cidades brasileiras registraram vencedores diferentes na primeira e na segunda rodada da disputa presidencial.
Em 121 delas, as viradas foram em favor de Haddad, enquanto em outras 25 Bolsonaro prevaleceu na votação final. Em um município houve empate no primeiro turno, mas o petista ganhou no segundo.
Há quatro anos, a corrida não foi marcada por uma polarização clara desde o início. Assim, candidatos como Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (então no PSDB e hoje no PSB) apresentaram desempenhos significativos em parte dos municípios, aumentando o estoque de votos em disputa no segundo turno.
Das 20 maiores cidades em que houve virada, 14 eram no Nordeste, incluindo duas capitais: Fortaleza e Recife. Lá, Bolsonaro teve mais votos que Haddad no primeiro turno, situação que se inverteu no segundo.
Em geral, os quadros tiveram mudanças onde Ciro apresentou desempenho superior ao registrado nacionalmente, de forma que os votos do campo da esquerda se dividiram entre dois candidatos.
Em Fortaleza, única capital em que o pedetista teve mais votos que os adversários naquela eleição, ele reuniu 40% dos votos, contra 34% de Bolsonaro e 19% de Haddad. No segundo turno, os eleitores de Ciro na capital cearense se dividiram, e Haddad chegou a 56%, contra 44% do hoje presidente.
Proporcionalmente, a capital cearense foi a segunda que mais virou votos em favor de Haddad no segundo turno de 2018, ficando atrás apenas de Sobral, principal base eleitoral dos irmãos Ferreira Gomes. Outras duas cidades cearenses aparecem na sequência: Eusébio e Maracanaú.
Em Sobral, o crescimento de Haddad entre o primeiro e o segundo turno foi de 50 pontos percentuais: saiu de 16% para 66% na cidade. No Recife (PE) e em Aracaju (SE), Ciro teve desempenho acima de sua média nacional, e a maioria dos votos migrou para o petista no segundo turno.
O cenário é semelhante ao de Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, onde Ciro só ficou atrás de Bolsonaro. No segundo turno, a maioria dos eleitores do pedetista migrou para Haddad. O mesmo movimento ocorreu em cidades médias do Nordeste, como Caruaru (PE), Olinda (PE) e Arapiraca (AL).
Caso curioso é o de Amaporã (PR), onde Bolsonaro e Haddad empataram no primeiro turno, com 1.191 votos cada um. Na segunda rodada, o petista levou a melhor, mas com vantagem apertada: 51,1% a 49%.
As principais viradas pró-Bolsonaro aconteceram em cidades em que Alckmin, hoje vice na chapa de Lula à Presidência, foi bem votado. Foi o caso de Marechal Thaumaturgo, no Acre, que deu 41,8% para Haddad, 29,1% para Bolsonaro e 18,6% Alckmin. No segundo turno, a maior parte dos votos do tucano foi para o hoje presidente, que cresceu 21,9 pontos percentuais e chegou a 51% dos votos na cidade.
O cenário foi semelhante em Ribeirão Branco (SP), onde Alckmin alcançou 25,4% dos votos no primeiro turno, votos que em sua maioria migraram para Bolsonaro, que ultrapassou Haddad no segundo turno.
A maior cidade em que Bolsonaro virou no segundo turno foi Feijó, de 35 mil habitantes, no interior do Acre. Lá, Alckmin também teve apoio acima de sua média nacional, chegando a 7,8%. Em geral, os estados com mais cidades em que houve viradas foram MG, com 42 cidades, RS, com 21, e GO, com 20.
Na avaliação de Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor de ciência política da FGV, é muito difícil que ocorra neste ano uma alta expressiva de viradas entre o primeiro e o segundo turno em relação a 2018.
Ele cita o contexto político da disputa em 2022, marcada por maior polarização entre os candidatos, e pondera que o eleitor já está mais decidido sobre em quem irá votar.
Pesquisa Datafolha divulgada na sexta (14) mostra que 93% dos eleitores se dizem totalmente decididos sobre o voto para presidente, enquanto 6% afirmam que a escolha ainda pode mudar.
Para Teixeira, há dois fatores que dificultam o aumento dessas viradas agora: a pulverização dos temas abordados na campanha e a fragmentação dos apoios. Há quatro anos, diz, o tema predominante foi a corrupção. Neste ano, há, ainda, os temas de economia, costumes, democracia e pandemia, por exemplo.
Os apoios em 2022 também estão fragmentados, como destacou o professor. Dentro de um mesmo partido há lideranças que apoiam Lula e outras que endossam Bolsonaro, a exemplo de MDB, PSDB e PSD. Assim, o peso da transferência de voto não seria suficiente para viradas expressivas, segundo o professor.
“Temos dois transferidores de votos, que são Lula e Bolsonaro, mas eles estão competindo entre eles. Eles seriam capazes de mexer na eleição se os outros [candidatos] estivessem sendo apoiados por eles.”
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