Irã culpa curdos por onda de protestos contra morte de Mahsa Amini
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um mês após o início da maior onda de protestos no Irã em anos, motivados pela morte de uma jovem detida por desobedecer às estritas regras de vestimenta islâmicas, o regime teocrático à frente do país busca responsabilizar “forças externas” por sua instabilidade, enquadrando assim as manifestações não como uma ameaça ao establishment religioso do país, mas à sua unidade territorial.
Em seu primeiro pronunciamento sobre o caso, por exemplo, o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou que os protestos não foram idealizados por “iranianos comuns” e sim pelos arqui-inimigos do país, os Estados Unidos e Israel.
Cada vez mais, no entanto, o foco da repressão tem se concentrado na comunidade curda no Irã etnia à qual pertencia a jovem morta e no seio da qual os protestos explodiram a princípio.
Mahsa Amini, de 22 anos, morreu sob custódia da chamada polícia moral do Irã após ser presa por supostamente não usar adequadamente o hijab, o véu islâmico. A família da jovem afirma que ela foi vítima de agressões por parte dos policiais, o que o regime nega.
As manifestações começaram na cidade natal de Amini, na província curda de Saqez, e rapidamente se espalharam pelo país. Capitaneados por meninas e mulheres, que gritam “mulheres, vida, liberdade” e pedem a queda de Khamenei, os atos se tornaram a maior demonstração de oposição à teocracia desde os atos contra um aumento no preço da gasolina em 2019.
Apesar dessa dimensão nacional dos protestos, a maior repressão a eles aconteceu no noroeste do país, região onde vive a maior parte dos cerca de 10 milhões de curdos do Irã. Testemunhas afirmam que forças de segurança foram transferidas para lá a partir de outras províncias, e que tanques foram enviados a áreas curdas particularmente tensas.
O Irã também atacou grupos de dissidentes iranianos curdos alegando que eles estão envolvidos nas manifestações. O argumento é que esses grupos usam o caso Amini como uma desculpa para separar o Curdistão do Irã, seu objetivo de décadas. Mísseis e drones disparados pela Guarda Revolucionária em direção à região semiautônoma do Curdistão, no norte do Iraque, mataram 13 pessoas.
É verdade que outras comunidades curdas do Oriente Médio usaram momentos de instabilidade interna em seus respectivos países para conquistar diferentes graus de autonomia.
No Iraque, por exemplo, grupos que lutaram contra Saddam Hussein ganharam bastante proteção militar do Ocidente após a Guerra do Golfo, em 1991, algo que só foi fortalecido quando os Estados Unidos invadiram o país, 12 anos depois. Na Síria, representantes da etnia aproveitaram as revoltas contra o presidente Bashar al-Assad em 2011 para se aliar aos EUA e assumir o controle da parte nordeste do país. Ambas manifestaram solidariedade aos protestos no Irã.
Muitos dos curdos iranianos afirmam não querer se separar, no entanto, e sim uma mudança de regime que, de acordo com organizações internacionais, persegue a etnia com uma força especial a despeito de a Constituição do país garantir a proteção às diferentes minorias que o compõem.
Analistas afirmam ainda que a estratégia do Irã de responsabilizar os curdos pelos protestos pode sair pela culatra. Isso porque foi o menosprezo a queixas de minorias que levou outros países da região, como a própria Síria e o Iêmen, a guerras civis intermináveis. Especialistas também afirmam observar uma grande solidariedade entre os diferentes grupos étnicos do país nos atos.
A repressão do regime às manifestações tem sido brutal. Segundo dados da ONG Direitos Humanos do Irã, baseada em Oslo, ao menos cem pessoas morreram nas últimas semanas. Em reação, países europeus estabeleceram uma série de sanções ao Irã as mais recentes, anunciadas nesta segunda (17), proíbem quatro instituições e 11 cidadãos do país (incluindo o chefe da polícia moral) de viajar para seus territórios e ordenam a paralisam de seus bens.
As nações ainda planejam mais medidas do tipo caso se confirme que o país do Oriente Médio forneceu drones kamikazes à Rússia em meio à Guerra da Ucrânia e, neste caso, elas iriam além de simples vetos, alertou o chanceler de Luxemburgo, Jean Asselborn.
Outra preocupação estrangeira é em relação ao incêndio no presídio de Evin, um dos mais importantes do Irã, no fim de semana o número de presos mortos subiu de quatro para oito nesta segunda (17). No local estão detidos, entre outros, ativistas considerados inimigos pelo regime. Autoridades negam que o incidente esteja relacionado à onda de protestos registrada no país.
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