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Em resposta à expressão ‘pintou um clima’, Xuxa grava vídeo relatando abuso sofrido aos 13 anos

Abordando a história dita publicamente por Jair Bosonaro em diferentes situações, sobre ter visto adolescentes venezuelanas durante um passeio de moto por São Sebastião, no Distrito Federal, que julgou estarem em situação de prostituição infantil, Xuxa postou um vídeo emocionado relatando um abuso sofrido aos 13 anos de idade. Fazendo um paralelo com as expressões do presidente, de que achou as adolescentes estavam “bonitinhas, arrumadinhas” e que “pintou um clima” (justificado por Bolsonaro como “oportunidade para gravar um vídeo”, diante das acusações de cunho sexual da frase), a apresentadora relembrou quando foi abusada por um homem mais velho.

“Por volta de 3, 4 anos de idade, eu sofri meu primeiro abuso. Consequentemente outros aconteceram, e tudo terminou com uns 13 anos de idade, com um velho que me encurralou numa parede. Eu estava apenas de camiseta e com a parte debaixo do biquíni, e ele passou a mão no meu corpo todo. Eu não fiz nada, mas quando ele tentou me beijar eu o empurrei e sai chorando”, contou a apresentadora.

Xuxa explicou o motivo de ter trazido a história à tona tantos anos depois, algum tempo atrás: “Quando fiz 40 e poucos anos, resolvi falar, para ajudar outras mulheres, crianças, adolescentes, que também sofreram abuso e se calaram. Por que, como eu e muitas meninas por aí, elas acham que a gente estava com a roupa errada, no lugar errado. Sempre me senti culpada por ser grande, por chamar atenção, por ser “bonitinha” aos olhos dos velhos, dos homens que se aproximavam de mim. E a nossa cultura, em vez de colocar o dedo na cara desses velhos, culpa as meninas por elas estarem naquele lugar, daquele jeito”.

A apresentadora lembrou os comentários sobre ela ter integrado o elenco do longa “Amor, estranho amor” (1982), de Walter Hugo Khouri, no início de sua carreira, na qual interpretava uma menor vendida a uma casa de prostituição, que seria oferecida como presente a um influente político.

“Quem está aqui falando não é aquela menina que tinha 18 anos, e fez o papel de uma menina de 15 que foi vendida a um prostíbulo, para ser dada de dado de presente para um político. Esse filme foi baseado em histórias que aconteceram entre 1939 e 1940”. Xuxa também fez referência a sua participação no cinema em filmes como “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” (1989) e “Lula de cristal” (1990): “Não estou aqui também como a namoradinha do Didi, dos Trapalhões, nem a princesa do Sérgio Mallandro, nem uma duende, tampouco uma princesa do filme Feiurinha. Estou aqui como como apresentadora, como filha, como mulher e, perincipalmente, como mãe”.

Xuxa também lembrou as acusações, não comprovadas, da ex-ministra e senadora eleita Damares Alves sobre um suposto esquema de exploração sexual infantil na Ilha de Marajó (PA): “Isso vai continuar existindo no nosso país enquanto pessoas que sabem disso, através de fotos, como aconteceu com a ministra (Damares), não denunciarem. Peço muito as pessoas que denunciem. Gostaria de deixar bem claro, que se isso aconteceu e essas pessoas viram ouviram e não fizeram nada, elas também são culpadas”.

Xuxa disse ter gravado o vídeo por se sentir “engasgada, enojada”: “Não quero ser conivente com isso, não quero me sentir culpada. Estou com raiva porque ninguém está fazendo nada. Ele pode fazer por que é presidente? Ele pode por que é homem? Você pode me julgar por eu ter feito um filme de ficção, pode falar o que quiser, e a gente não pode gritar, berrar, dizendo que isso tá errado, dizendo que isso não pode acontecer? A nossa sociedade acha isso certo, normal?

A apresentadora relembrou o abuso sofrido para questionar quem defendeu os pedidos de desculpas do presidente sobre o caso: “(Falam) ‘Mas ele não transou, Xuxa. Então não é pedofilia’. Será? O que esse cara fez em mim, ele não transou comigo, mas ele achou que pelo fato de eu estar de camiseta e “bonitinha”, “pintou um clima”. Ele se viu no direito de chegar perto de mim e me tocar. Será mesmo que isso aos seus olhos não é crime?”.