‘Argentina, 1985’ volta à ditadura para que passado não se repita, dizem atores
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – É horrorizada que a população argentina ouve o testemunho de uma mulher que foi torturada pela ditadura em “Argentina, 1985”, durante o julgamento daqueles que implementaram o violento regime no país. Hoje, quatro décadas mais tarde, era de se esperar que a questão estivesse apaziguada –mas o assunto não está encerrado, ao contrário do que o título do filme sugere.
Na América Latina atravessada por ditaduras, a violação de direitos humanos virou arma política, muito mais do que consenso de que torturar é errado. Por isso, Peter Lanzani, um dos protagonistas do longa, crê que levá-lo às telas era uma questão urgente.
“É importante que filmes como esse sejam feitos, para legitimar o caminho que tomamos a partir da ditadura, a sociedade que construímos”, disse ele na semana passada, no Festival de Cinema do Rio. Nesta sexta, a obra chega ao streaming, depois de passar também pelo Festival de Veneza, de onde saiu com o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema.
“Há um diálogo importante entre o filme e o presente, porque voltamos a viver num mundo de extremos, coisa que não víamos há muito tempo. A história fala de um passado que não queremos reviver –eu, ao menos, não quero”, complementa a atriz Alejandra Flechner. “É um filme que nos faz refletir sobre o passado para que algumas coisas não se repitam nunca mais.”
Dirigido por Santiago Mitre e escolha do país vizinho para uma vaga no Oscar, “Argentina, 1985” narra o trabalho de reunir provas para condenar os membros da junta que governou entre 1976 e 1983.
Centrado na figura de Julio César Strassera, o longa mostra como o procurador, um funcionário público sem brilho ou atuação relevante nos anos de chumbo, se tornou um dos rostos da retomada democrática ao encampar uma guerra contra os militares, que repetiam que excessos haviam sido cometidos de forma pontual, sem que o alto escalão do governo soubesse.
Apenas meses após o fim do regime, o sistema judiciário argentino se tornou o único da América Larina a julgar e condenar seus torturadores.
No papel do promotor está ninguém menos que Ricardo Darín. Em cena, ele se junta ao personagem de Lanzani para levantar provas contra a junta militar. Com outras autoridades temerosas –ou indispostas– em ajudar no processo, eles reúnem uma equipe de jovens que viajam pelo país em busca de torturados e parentes de desaparecidos que possam testemunhar na corte.
“O filme não escolhe um lado político, não é partidário. Ele vai para um lado da humanidade, da emoção”, diz Lanzani, ao ser provocado sobre os laços do roteiro com as disputas atuais entre esquerda e direita.
Ao relembrar que o presidente Jair Bolsonaro já louvou torturadores e a ditadura militar brasileira em diversas ocasiões, no entanto, Flechner é mais enfática e diz que, sim, “Argentina, 1985” é uma lição para muita gente.
“Na Argentina, o filme foi recebido de maneira formidável. Há um consenso no país de que a ditadura foi uma mancha. Mas isso ainda suscita debates e o mundo segue tendo que julgar genocidas”, diz.
O repórter viajou a convite do Festival do Rio.
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