Fotos desconhecidas até aqui mostram horror da Noite dos Cristais de perto
AMERICANA, SP (FOLHAPRESS) – Uma coleção de fotografias até aqui desconhecida revelou, oito décadas mais tarde, registros inéditos da Kristallnacht, ou Noite dos Cristais, considerado o marco inicial da perseguição violenta dos nazistas aos judeus na Europa.
Doadas ao Yad Vashem, memorial em Israel em homenagem às vítimas do Holocausto, as imagens mostram interiores de edifícios destruídos e a atuação coordenada das forças nazistas. Em um registro, homens e mulheres alemães, sorridentes e bem vestidos, observam um soldado quebrar a vitrine de uma loja.
Em outro, os chamados “camisas pardas” -membros do Sturmabteilung, a milícia paramilitar nazista- carregam pilhas de livros judaicos, presumivelmente para serem queimados. Nas demais fotografias é possível ver um soldado nazista jogando gasolina nos bancos de uma sinagoga e outro destruindo um armário.
A Kristallnacht, ocorrida na madrugada de 9 para 10 de novembro de 1938, deixou cerca de cem judeus mortos, mais de mil sinagogas destruídas e milhares de cemitérios, casas e escolas judaicas vandalizadas na Alemanha, na Áustria e na região dos Sudetos da Tchecoslováquia.
Trinta mil cidadãos judeus ainda foram detidos, com a maioria sendo levada a campos de concentração como Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen. Os agressores eram muitas vezes vizinhos ou conhecidos das vítimas.
Jonathan Matthews, chefe do arquivo de fotos do Yad Vashem, afirmou à agência Associated Press que as fotos dissipam o mito nazista de que os ataques foram “uma explosão espontânea de violência” e não um “pogrom” orquestrado pelo Estado -a palavra de origem russa, que significa causar destruição, designava perseguições a judeus no Império Russo no século 19, tendo depois seu sentido ampliado.
Matthews disse que essas foram as primeiras imagens de que ele teve conhecimento de ações ocorrendo em ambientes fechados. “A maioria das fotos que temos [até aqui] da Kristallnacht são de fora”, contou. “[A nova coleção] fornece uma imagem muito mais íntima do que estava acontecendo.”
As fotos foram tiradas por fotógrafos nazistas durante o “pogrom” nas cidades de Nuremberg e Fürth, na Alemanha. Eles acabaram na posse de um soldado americano judeu que serviu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial -de que forma isso se deu precisamente ainda é algo incerto.
Os descendentes do militar, que se recusaram a informar seu nome, doaram o álbum ao Yad Vashem como parte do esforço da instituição para coletar objetos da era do Holocausto mantidos por sobreviventes e suas famílias.
O presidente do Yad Vashem, Dani Dayan, disse à Associated Press que as fotos “servirão como testemunhas eternas muito depois que os sobreviventes não estiverem mais aqui para testemunhar as próprias experiências”.
Em depoimento à Folha em 2018, o judeu alemão naturalizado brasileiro Geraldo Lewinski contou que, para sobreviver, sua família se mimetizou à horda que depredava e fazia pichações antissemitas em Berlim.
“Então vimos tudo isso de perto. Porque eu estava junto com a horda. Claro que a gente não gritava, só abria a boca. Mas essa foi a nossa salvação. Vimos as vitrines sendo destruídas, gente atirando pedras. E os estilhaços no chão”, contou Lewinski, que tinha 10 anos de idade na época.
Pressentindo tempos ainda mais sombrios, os Lewinskis fugiram para o Brasil em 1939. “A gente não esquece. Não consigo contar tudo porque fico emocionado. Até hoje, quando eu vejo judeus andando com a quipá, indo para a sinagoga no sábado ou na sexta-feira, fico emocionado. Porque nosso povo, apesar de tudo, ainda vive.”
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