Descendente de japoneses, Ana Hikari diz ter sido discriminada ao longo da carreira
SÃO PAULO, SP 9FOLHAPRESS) – Protagonista de uma edição de “Malhação” cujo slogan era “Viva a Diferença” (2017-2018), a atriz Ana Hikari, 27, afirma que a diversidade, na verdade, ainda não é uma realidade na dramaturgia. “Não é fácil para os produtores do audiovisual pensarem fora da caixinha da hegemonia branca”, afirma, em entrevista ao F5.
Descendente de japoneses, Hikari conta já ter perdido vários testes, entregues “de bandeja” a candidatas brancas. “Isso é reflexo do que acontece no pais. As pessoas creem muito no mito da igualdade racial e é mentira, pois essa coisa de dizer que o país é miscigenado e acolhedor para todas as etnias é até a página 2”, reforça.
A atriz, que recentemente terminou de filmar mais duas temporadas para a série do Globoplay “As Five”, pondera que suas crítica não dizem respeito apenas à Globo, mas também a outras empresas. E conta que preocupações como essas já foram abordadas por ela e outros colegas dentro da emissora, com a qual tem contrato flexível. “É uma evolução constante.” Confira a entrevista completa abaixo.
PERGUNTA – Como está seu momento profissional hoje?
ANA HIKARI – Um mês atrás, terminamos de gravar a segunda e terceira temporadas de ‘As Five’ para o Globoplay, com estreia programada para março. O ritmo era de cinema, 12 horas por dia, cinco dias na semana. Teve dias em que gravei cena da segunda e da terceira, foi uma insanidade para a mente. Então estou me obrigando a dar uma descansada, a encontrar amigos que não vejo faz tempo.
P. – Você tem planos de fazer cinema, não?
AH – Seu contrato com a Globo te permite essa flexibilidade.
A emissora agora está mais flexível, tem mais liberação, é tranquilo buscar outros horizontes. Todos já sabem lá dentro [Globoplay] que meu objetivo maior é o cinema.
P. – Ainda há muita discriminação com asiáticos no audiovisual?
AH – Com certeza rola preconceito, não tenho dúvidas. Mas isso é reflexo do que acontece no pais. As pessoas creem muito no mito da igualdade racial e é mentira, porque essa coisa de dizer que o pais é miscigenado e acolhedor para todas as etnias é até a página 2. E quando falo em pessoa não branca me refiro a asiático, indígena, negros. Nas mídias o espaço ainda é pequeno.
P. – Acha que se não fosse asiática, seria mais fácil ter trabalhos?
AH – Talvez. O que sei é de testes que não fiz para papéis cujo perfil batia certinho com o meu: uma menina da minha idade, meu gênero, e mesmo assim não tive a oportunidade de concorrer. E soube que as selecionadas para os testes eram todas brancas. Então penso muito na quantidade de testes que poderia ter feito se não tivesse esse recorte. Não é fácil para os produtores do audiovisual em geral pensarem fora da caixinha da hegemonia branca.
P. – Também tem a estereotipação do ator asiático…
AH – Rola muito mesmo e é complicado. Às vezes você faz um trabalho e não tem voz para questionar enquanto ator e vai aceitando essa situação, pois temos contas para pagar. Aceitamos papéis estigmatizados por falta de oportunidades.
P. – A Sabrina Sato é uma asiática que tem muitas chances.
AH – Amo a Sabrina. A gente se conheceu em uma edição de uma revista que fizemos juntas e desde então ela fala que me adotou como filha. É referência para mim. A grande questão é que existem outras profissionais amarelas tão maravilhosas quanto a Sabrina, só precisam ser descobertas.
P. – Recentemente em um podcast você criticou a entrada de influenciadores na dramaturgia. A Globo erra em dar chance a eles?
AH – Isso não está restrito à Globo, é algo que ocorre em todas as empresas. No audiovisual esse fenômeno tem a ver com os números deles, o quanto representam e influenciam, chamam a atenção. Mas número não é tudo. E é mais fácil influenciadores brancos terem chances do que os racializados. Só observar, quais os influenciadores que estão tendo chances? Isso é recorte racial.
P. – Você é garota-propaganda do Globoplay, protagonista de ‘As Five’. Não teme algum tipo de retaliação da emissora pelas críticas que faz?
AH – Todas as declarações públicas são coisas que já falei dentro da empresa. Não é como se eu estivesse falando mentiras, a própria empresa tem autocrítica e convida de tempos em tempos os talentos para fazer observações. Já fiz várias vezes críticas pedidas pela Globo para ver como podemos melhorar tudo. A Globo é uma empresa composta por pessoas que estão pensando no futuro e em qual sociedade queremos. É uma melhora constante. Não digo que a Globo é elitista, mas vejo a atuação como muito elitista. A arte não deveria ser elitista.
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