Equipe de Lula vê PM bolsonarista e se queixa de falta de prisões em atos violentos
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A equipe do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez chegar ao Governo do Distrito Federal o incômodo gerado com a atuação da Polícia Militar na contenção dos atos de violência que ocorreram na capital federal na segunda-feira (12).
Segundo relatos de pessoas do entorno do petista, o maior descontentamento é com a chefia do departamento de operações da PM do DF.
Para os petistas, a corporação deveria ter atuado de maneira mais rígida contra os apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) diante de episódios de violência horas após a diplomação de Lula pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
A falta de detenções causou surpresa até na Polícia Civil do DF e virou alvo de questionamentos também do Ministério Público.
Os atos de vandalismo contra o prédio da Polícia Federal, ônibus e veículos nas vias de Brasília ocorreram durante manifestação de bolsonaristas contra a prisão de José Acácio Serere Xavante, apontado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) como um dos integrantes dos movimentos antidemocráticos na capital federal.
Questionada pela reportagem, a PM do DF não respondeu a perguntas sobre a atuação da corporação nos atos e sobre a ausência de prisões.
O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), afirmou em rede social que “a todo momento” sua gestão manteve contato com o Ministério da Justiça e o governo de transição. Ele defendeu a atuação da polícia.
“As forças policiais do DF agiram com rapidez e da maneira mais adequada possível”, disse Ibaneis, que prometeu punição aos que participaram de atos de vandalismo.
Como polícia ostensiva, era função da PM abordar e prender os envolvidos nas depredações, que foram amplamente filmadas e monitoradas por câmeras.
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, chegou a abordar a questão das prisões e afirmou em postagem em suas redes sociais ser “muito estranho” ninguém ter sido detido. Ela afirmou ainda que o presidente Jair Bolsonaro é “cúmplice” do que ocorreu.
“Baderna em Brasília teve cara de esquema profissional. Muito estranho que ninguém foi preso. Bolsonaro é cúmplice. Como pode o presidente da República abrigar envolvidos? Passou da hora de desmobilizar as frentes de quartéis, não tem nada de liberdade de expressão, só golpismo”, escreveu em seu perfil no Twitter.
Um delegado destacado para acompanhar o caso disse à reportagem que a corporação se preparou para registrar eventuais prisões em flagrante.
Segundo ele, a Polícia Civil do DF reforçou suas equipes, como o aumento de agentes nas delegacias; e os escrivães dobraram o horário de expediente para dar conta da demanda que seria gerada pelas prisões realizadas pela PM –que não ocorreram, segundo a Secretaria de Segurança Pública do DF informou no final da manhã de terça.
A atuação da PM na contenção dos atos também entrou na mira do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.
Na tarde de terça (13), o promotor de Justiça Flávio Augusto Milhomem, da 3ª Promotoria de Justiça Militar do Distrito Federal, deu cinco dias para que o comando da corporação policial responda a uma série de questionamentos.
Entre as perguntas enviadas, o promotor quer saber quantas pessoas foram presas em flagrante pelos policiais, o número de policiais que atuaram durante os atos e no entorno do hotel em que Lula está hospedado; e o tempo de reação para conter os atos a partir do conhecimento dos fatos.
Membros da comissão da posse presidencial deverão se reunir com representantes do Governo do Distrito Federal para analisar o aumento das tensões, a situação de risco e rediscutir o que será necessário fazer para a cerimônia.
Nas palavras de um aliado próximo de Lula, os atos de segunda não podem ser classificados como de grande potencial. Mesmo assim, diz esse auxiliar, o sistema de segurança pública da capital não conseguiu responder à altura.
O tema também está sendo acompanhado de perto pelo futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (PSB-MA), e pelo futuro diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos, atualmente chefe da segurança de Lula.
Ainda na noite da segunda (12), o secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Júlio Danilo, negou falhas das forças de segurança para conter a ação dos bolsonaristas.
Segundo ele, os autores dos atos violentos foram rapidamente reprimidos pela polícia, que teria chegado logo após o início das ações. Júlio Danilo ainda acrescentou que agora será feito um trabalho de mapeamento dos participantes das ações de vandalismo, e que todas as pessoas que vierem a ser identificadas serão responsabilizadas.
Na tarde desta terça, representantes da PF, PM, Polícia Civil e bombeiros da capital federal realizaram uma reunião sobre o tema.
Segundo pessoas com conhecimento da pauta, ficou decidido que os danos causados ao prédio da PF serão investigados na superintendência da corporação no DF. O inquérito, entretanto, não havia sido instaurado até o início da noite.
Uma primeira avaliação da PF aponta para danos no portão de acesso à garagem, vidros quebrados e viaturas do órgão e do Departamento Penitenciário Nacional danificadas.
As informações estão sendo reunidas em um relatório que será encaminhado para a superintendência do DF e embasará a abertura da investigação. Já os ataques aos ônibus, veículos e prédios públicos atrelados ao Governo do DF serão apurados pela Polícia Civil.
Após os atos de vandalismo, a PM reforçou a segurança no prédio onde Lula está hospedado em Brasília. Policiais do grupo de elite da PF foram enviados na noite de segunda para o local. Também foi criado um cordão de isolamento na entrada do hotel no dia dos distúrbios.
Já na manhã da terça (13), havia um maior efetivo da PM nas proximidades do hotel do que no dia anterior. Até as 10h, eram quatro viaturas da PM DF e uma da Rotam, grupo operacional de elite da PM. Antes disso, dois micro-ônibus da corporação estavam no local.
Questionada se aumentaria o esquema de segurança depois do episódio de segunda, a PM afirmou, em nota, que “permanece de forma ininterrupta na região a fim de evitar novos confrontos”, mas não detalhou sobre dados de efetivo alegando questões de estratégia.
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