Pelé marcou imaginário americano no Cosmos, mas liga não durou sem ele
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Pergunte a um americano qualquer time que ganhou a última Champions League, quem é o atual bola de ouro ou mesmo o que é impedimento, e é provável que você vá ficar sem resposta no país onde futebol é um esporte que se joga com as mãos. Mas diga que vem do Brasil. Há uma grande chance de ouvir de volta um “eu adoro o Pelé”.
O rei do futebol, morto nesta quinta (29) aos 82, jogou em apenas dois times na vida, o Santos e o New York Cosmos. Mesmo na sua breve passagem pelo clube americano, de 1975 a 1977, já prestes a se aposentar, marcou de maneira permanente o imaginário americano.
“Ele conquistou tamanho status de superestrela global que mesmo em países onde o futebol não é o esporte mais importante as pessoas o reconheceram como um atleta muito especial”, diz a historiadora americana Brenda Elsey, autora de uma série de livros sobre futebol.
Pelé foi contratado pelo clube de Nova York, que à época estava nas mãos da Warner, em 1975 como o atleta mais bem pago do país, após intensa mobilização que envolveu até o então secretário de Estado americano, Henry Kissinger.
O esporte era tão desconhecido dos americanos que um memorando arquivado nos registros da CIA, a agência de inteligência dos EUA, com detalhes sobre uma visita do jogador à Casa Branca então sob Gerald Ford, explicava o que era o tal futebol: “Um ótimo jogo tanto para jogar quanto para assistir. Não requer muito espaço nem muitos equipamentos para jogar. É fácil de aprender e, como o objetivo não é esconder a bola, como no nosso futebol [americano], é simples para o espectador acompanhar. Também não tem todas aquelas pausas.”
O documento ainda ensina como pronunciar o nome do jogador (“PEH-LAY”, segundo o texto) e a palavra futebol em português brasileiro (“fu chi bal”).
“Ele foi muito importante para colocar o esporte no mapa e inspirou toda uma geração de americanos. Mesmo que a liga não tenha durado muito, inspirou muita gente e ajudou a construir o esporte neste país”, diz o jornalista americano Ives Galarcep. “Eu cubro esporte há 25 anos e a maior parte das pessoas que conheço e que foram importantes para o esporte aqui começaram assistindo o Pelé.”
Nos EUA virou estrela, muso de Andy Warhol e amigo de Muhammad Ali, em histórias já conhecidas. O que é difícil de conhecer é o impacto nas centenas de milhares de pessoas que o viram jogar na liga americana. “Imagine 78 mil pessoas enchendo um estádio de futebol em Long Island ou em Boston nos anos 1970, é incrível”, diz Elsey.
“As pessoas me escrevem até hoje para dizer que viram o Pelé jogar quando eram crianças e que nunca vão se esquecer disso”, afirma a pesquisadora, que organizou o título de doutor honoris causa que Pelé recebeu da Universidade de Hofstra, em Nova York, em 2014.
Apesar do sucesso de Pelé, o Cosmos não vingou e fechou as portas em 1985, junto com o fim da liga profissional que disputava, a NASL (Liga Norte-Americana de Futebol). Mesmo tendo reunido uma constelação como Franz Beckenbauer, Giorgio Chinaglia e Carlos Alberto Torres, além do próprio Rei, o clube entrou em falência e só voltou nos anos 2010, mas, sem relevância, pausou no começo da pandemia da Covid-19 e não retornou mais aos campos.
Para Galarcep, a liga foi encerrada “porque colocaram muito dinheiro sem pensar como fazer durar como negócio”, diz. “Colocaram toneladas de dinheiro para trazer todos esses jogadores, mas não criaram raízes. A parte mais importante do esporte profissional é que você precisa desenvolver jogadores com talento para jogar na sua liga. Não adianta comprar todos os jogadores que quiser, porque em algum momento vai ficar difícil de mantê-los”, afirma ele.
É algo que, segundo ele, a atual liga profissional, MLS (Major League Soccer), fundada em 1993, soube fazer e está começando a colher frutos. “O esporte está crescendo agora, e o Pelé foi uma semente disso.”
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